Faz qualquer tempo que venho refletindo sobre a prestígio do tempo. Tempo para pensar, elaborar outras formas de ver o mundo, de simplesmente poder dar um tempo.
Não tem sido um processo fácil. Quem precisou lutar para sobreviver acredita que o tempo precisa ser utilizado de modo a seguir garantindo a sobrevivência. De tal modo que, mesmo quando a verdade se apresenta menos desfavorável, a gente não acredita que pode “perder tempo”, tamanha a naturalização da pressa.
Passei um ano lecionando no MIT (Massachusetts Institute of Technology), fui a primeira brasileira convidada para o programa Martin Luther King daquela instituição. Tive um semestre sabatino e, pela primeira vez na vida, experimentei um pouco quase inacreditável para mulheres negras: tempo.
Nunca eu havia tido sequer finais de semana verdadeiramente sabáticos, portanto vi esse tempo uma vez que uma quebra geracional. Confesso que na primeira semana do sabatino fiquei totalmente perdida, demorei a compreender que a instituição me pagaria para que eu pudesse estudar e pesquisar. Eu simplesmente não sabia o que fazer nos primeiros dias até internalizar a oportunidade que se abria.
Reflito o quanto essa oportunidade, além de me tratar, tratamento meu pai e minha mãe. Trato as mulheres que vieram antes de mim e foram colocadas cedo demais no forno da sobrevivência. Quando penso na história da minha família, não penso unicamente nas tristezas, penso também em perpetuidade. Minha mãe e meu pai, com muita luta, empurraram nossa família alguns centímetros mais perto da honra, do estudo e da possibilidade de sonhar. E compreender esses fenômenos nos aproxima da tratamento, quando o sofrimento de uma geração não termina nela, mas se transforma lentamente em outras possibilidades de existência para as próximas.
Hoje compreendo que há um pouco revolucionário em uma família negra conseguir produzir tempo. Tempo para estudar, para repousar e pensar a própria vida para além da sobrevivência imediata. No país último das Américas a suprimir a escravidão, e que naturalizou esse lugar de sofrimento para a população negra, é revolucionário invadir o recta ao tempo.
Durante séculos, nossas gerações viveram uma vez que quem corre segurando brasas nas mãos, correndo, morrendo de trabalhar, tendo a vida ceifada precocemente. Minha mãe e meu pai correram assim, minha avó Antônia correu assim. E eu também corri durante tantos anos sem perceber o quanto meu corpo já estava habituado à urgência.
Talvez por isso esse semestre sabatino tenha me atravessado de maneira tão profunda. Não se tratava unicamente de sota, mas também de um estranhamento místico. Pactuar sem desespero, poder ler sem culpa, ortografar sem estar esmagada por múltiplas demandas, caminhar observando o firmamento sem a sensação de que o mundo desabaria caso eu parasse por um momento.
Às vezes me pego emocionada com coisas pequenas: um moca tomado lentamente, uma tarde silenciosa, um final de semana inteiro desfrutando de coisas que me fazem muito. E portanto penso em meus pais novamente e no quanto, de alguma forma, esse sota também pertenceu a eles. Porque foram eles que construíram os primeiros tijolos dessa estrutura, mesmo sem enxergar onde ela terminaria, e acreditaram na ensino uma vez que quem vegetal árvore sem expectativa de sentar-se a sua sombra.
E acredito que esse seja um dos gestos mais generosos que alguém pode fazer pelas próximas gerações.
Hoje eu entendo que estudar nunca foi unicamente um projeto individual na nossa família, mas uma tentativa coletiva de evadir do direcção que o mundo reservava para nós. E nós escapamos, não completamente, porque o racismo continua existindo, subindo o sarrafo para mulheres negras, se incomodando quando elas saltam mais cimeira e batem recordes, enfim, as desigualdades continuam moldando o mundo.
Porém, às vezes, imagino meus pais me observando em silêncio.
Meu pai talvez tentando entender recta o que significa MIT. Minha mãe provavelmente preocupada se estou me alimentando muito, se estou descansando, se estou me agasalhando no insensível. E sorrio sozinha pensando nisso.
Meu pai me ensinou presença, me olhava com orgulho. E há um pouco muito poderoso no olhar orgulhoso de um pai preto sobre a filha em um mundo que tenta diminuir mulheres negras. Minha mãe me ensinou resistência e coragem, a caminhar de cabeça erguida. Sim, eu sei que o sota é privilégio racial e social. Há pessoas que herdam patrimônio, nós herdamos cansaço, susto e faro para a sobrevivência.
Há famílias nas quais o porvir já nasce escolhido, na nossa ele precisou ser arrancado da terreno com as mãos. E é justamente por isso que valorizo o tempo.
Faz qualquer tempo que venho refletindo sobre o tempo.
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