Apesar da vaga nostálgica, é impossível pensar nos anos 1990 e 2000 só porquê uma manancial de inspiração para uma vida mais analógica e autêntica. Ambas as décadas produziram imagens que, até hoje, influenciam comportamentos pejorativos em relação às mulheres —entre elas mesmas e por segmento dos homens.
Pense nas infames chamadas em jornais ou revistas a saudação do corpo de Britney Spears, Nicole Richie e Jessica Simpson. Ou nos incontáveis videoclipes em que jovens garotas dançavam seminuas em volta de músicos. Até no recém-problematizado programa de TV America’s Next Top Model, que colecionou episódios de gordofobia, agravo psicológico e incentivo à magreza extrema em rede mundial.
Por mais que boa segmento desses exemplos já esteja na morada dos 30 anos, há uma perigosa reciclagem de comportamentos e pensamentos da quadra reeditados, mixados e viralizados nas redes sociais.
Esse contexto serviu de inspiração para Sophie Gilbert, jornalista e sátira da revista The Atlantic, redigir seu novo livro, “Pequena Sobre Pequena”.
A reunião de ensaios em ordem cronológica de acontecimentos é conectada pela reparo de porquê o pós-feminismo afastou a sociedade dos avanços dos movimentos feministas dos anos 1970 e 1980, propondo uma falsa teoria de libertação, calcada no consumo e no individualismo.
Cada capítulo se atenta a um formato de mídia (voga, música, arte, TV, cinema, jornalismo etc.), sempre mostrando as consequências dessas indústrias na imagem e no comportamento das pessoas, a nível subjetivo e coletivo.
“Acho que nunca mais veremos programas de TV tão gordofóbicos quanto alguns reality shows eram, mas por qualquer motivo, no TikTok, porquê se trata de outra plataforma e outro público, parece que zero mudou”, diz ela em entrevista à Folha. “Isso é frustrante.”
Na contramão de um patente progresso do movimento body positive, conteúdos sobre emagrecimento rápido, indicação de remédios e a normalização dos distúrbios alimentares, tão comuns nos anos 2000, só reforçam imagens e posturas ainda enraizadas —antes de ser banida em junho do ano pretérito, a hashtag #SkinnyTok tinha mais de 2 bilhões de visualizações.
“Sinto que vivemos um momento terrível de luminar à dieta, mesmo depois de já termos superado isso em qualquer momento. É só surgir um remédio que facilite o processo [de emagrecimento] que o mercado inteiro volta a promover isso”, diz.
Assim porquê Arabelle Sicardi e Gina Tonic, que publicaram, respectivamente, os livros “The House of Beauty: Lessons from the Image Industry” (a morada da venustidade: lições da indústria da imagem) e “Greedy Guts” (glutão), Gilbert diz crer que impor magreza às mulheres a qualquer dispêndio também é um tanto intimamente ligado a política.
“Vivemos um momento de conservadorismo ressurgente e até de ódio explícito às mulheres online. E a resposta de muitas mulheres tem sido se tornar menores, ocupar menos espaço.”
Do outro lado dessa moeda do dedo, existe o uso indevido de tecnologias para prejudicar as mulheres —um tanto que, porquê mostra “Pequena Sobre Pequena”, acontece desde que a internet abriu espaço para fóruns e comunidades.
Exemplos atuais incluem o uso do Grok, lucidez sintético do X, para remover roupas de fotos postadas no Instagram e também os deep fakes com imagens de influenciadoras digitais. “Se cairmos no oração de que as imagens estão na internet para serem usadas, significa que a responsabilidade continuará recaindo sobre as mulheres, ao invés de os homens mudarem o comportamento deles.”
O livro empresta ao leitor ferramentas para refletir, inclusive, sobre um escândalo mais recente —os arquivos de Jeffrey Epstein.
“Gisèle Pelicot diz um tanto muito poderoso: ‘a vergonha deve mudar de lado’. Acho inspirador de diversas formas, mas me questiono o que fazer quando os homens não sentem vergonha. Porque esses não sentiram vergonha de serem amigos de Epstein, um criminoso sexual réprobo.”
Segundo ela, o que mais a perturbou nos 3 milhões de documentos divulgados pelo governo dos Estados Unidos foi perceber porquê as mulheres eram vistas exclusivamente porquê objetos sexuais, nunca em equiparação de poder com os homens.
“Muitos desses ricos e poderosos se acostumaram a pensar assim e ninguém os desafia. Embora sejam tempos sombrios de se viver, é bom que isso esteja vindo à tona, porque talvez possamos usar esse momento para forçar uma conversa dissemelhante.”
Segundo a autora, outro caminho de fôlego em meio ao caos são as mulheres que trabalham na indústria audiovisual para propor novos jeitos de produzir personagens, filmar corpos e apresentar narrativas em traficância na cultura.
É o caso de “Nightbitch”, que trata da transformação quase aterrorizante da identidade depois a maternidade, e “A Substância”, um “body horror” sobre padrões de venustidade irreais e inalcançáveis. “Existem muitas cineastas brilhantes. Eu só gostaria que tivessem mais oportunidades.”
