Minissérie ‘Cabo do Medo’ acerta no elenco e na tensão – 05/06/2026 – Ilustrada
Passaram-se 35 anos desde que Martin Scorsese realizou o remake de “Cabo do Pavor”, uma novidade adaptação do livro de John D. MacDonald, “The Executioners”, já levado às telas em 1962 por J. Lee Thompson.
Desta vez, entenderam que havia material para expandir a trama numa minissérie de dez episódios exibida na Apple TV, com Javier Bardem no lugar de Robert De Niro uma vez que o temido vilão Max Cady.
Se Scorsese já havia feito algumas mudanças com relação ao filme original, a equipe atual, com geração creditada a Nick Antosca, promove alterações ainda maiores, colocando mais ingredientes e personagens na trama. Compreensível, já que teremos uma duração muito maior.
Agora é Anna Bowden, papel de Amy Adams, a principal perseguida por Cady. Era sua advogada, mas depois do julgamento se casou justamente com o promotor, Tom Bowden, vivido por Patrick Wilson. O ato foi visto pelo réu, e por algumas parcelas da sociedade, uma vez que uma traição.
A origem do enredo, todavia, permanece a mesma. Cady trata de aterrorizar toda a família, que agora inclui um rapaz, existente no livro, mas não nos longas. O objetivo de Cady é evidente: fazer com que uns se virem contra os outros, principalmente os filhos contra os pais, e daí evoluir para a falência completa da família.
Ter coisas a mais possibilita toda sorte de reviravoltas e liberdades com os filmes originais e com o livro, além da possibilidade de nos surpreender por não sabermos mais, pelos diferentes caminhos tomados, uma vez que exatamente Cady buscará sua vingança. Mesmo se lembrarmos muito do livro e dos filmes.
E percebemos logo que ele monta uma rede de acontecimentos que está além de nossa compreensão imediata. Um quebra-cabeças intrincado, valorizado por uma eficiente construção de atmosfera.
Outra novidade é o que tem de atualização em relação aos longas: smartphones e seus duplicadores, drones, deep web, bullying, empoderamento feminino, heterogeneidade sexual, mais uma série de elementos do mundo contemporâneo.
É patente que todo remake tem atualizações desse tipo. O de Scorsese tinha aos montes com relação ao de J. Lee Thompson. A questão agora é que elas vêm se somar às alterações referentes à mudança de formato, de longa para minissérie.
Sobram críticas para advogados, jornalistas sensacionalistas, adolescentes, a corporação policial, o erudito às celebridades e, obviamente, para o sistema penal. Na verdade, toda a minissérie é uma sátira à sociedade dos Estados Unidos, fundada sobre as bases da violência e da hipocrisia.
A trama é ambientada majoritariamente em Savannah, na Georgia. Nessa cidade impregnada de religiosidade e crenças sulistas, coisas estranhas aconteciam num outro longa dos anos 1990: “Meia Noite no Jardim do Muito e do Mal”, de Clint Eastwood. A magia e o sobrenatural são outros elementos de aterrorização do parelha principal.
Porquê todo resultado seriado, os diretores mudam a cada incidente. E aí temos um problema. Se o primeiro incidente é muito dirigido por Morten Tyldum, o segundo, assinado por S.J. Clarkson, ourela o ginasiano.
São escolhas bobas, uma vez que as apostas frequentes em “jump scares”: uma personagem chega por trás e assusta a outra de propósito, ou pior, sem querer, uma vez que na cena em que a filha chega no espaço ainda por reformar da lar, silenciosamente, e coloca a mão no ombro da mãe, que estranhava um tanto no sítio.
Quem chega assim em um lugar onde já está uma pessoa fragilizada pelo pânico? Pior ainda porque fica evidente que não era a intenção da filha assustar a mãe. É só uma escolha boba de direção mesmo. Antes fosse bobeira da juvenil.
De todo modo, o segundo incidente talvez seja o mais problemático da série, justamente pela direção óbvia e por privilegiar violência extrema e sustos em vez da geração de atmosfera. Depois dele os episódios parecem retomar o prumo.
O ponto possante deste novo “Cabo do Pavor” é o elenco. Amy Adams está ótima uma vez que sempre, Patrick Wilson faz razoavelmente muito o papel do varão pleno de dúvidas e inseguranças, apesar da riqueza e da posição profissional, e os filhos Zack e Natalie são muito interpretados por, respectivamente, Joe Anders e Lily Collias.
Mas o grande trunfo é Javier Bardem, que com mais tempo de tela consegue ser um vilão aparentemente mais charmoso que o constituído por De Niro, ainda que também mais cruel e com mais cicatrizes do tempo na prisão.
Ele é tão sedutor, no início, que chegamos a desejar que realmente tenha um tanto de regenerador em suas atitudes, mesmo que isso fosse uma traição inimaginável ao livro e aos filmes.
Não nos foi verosímil ver os dois últimos episódios, mas teriam de fazer muitas bobagens para estragar o que foi muito muito estruturado nos oito primeiros.





