Morre Benedito Ruy Barbosa, autor da novela O Rei do Gado – 07/07/2026 – Ilustrada
A vida de Benedito Ruy Barbosa —que morreu nesta terça-feira, ao 95 anos, devido à complicações de insuficiência renal crônica—, passou na televisão. Foi exibida em capítulos de “Cabocla”, “Os Imigrantes”, “Paraíso”, “Pantanal”, “Renascer”, “O Rei do Rebanho”, “Terreno Nostra” e de outras das mais de 20 novelas que escreveu inspirado por suas vivências.
Uma vez que seus protagonistas, Ruy Barbosa foi um varão do campo, e sua vida, uma saga de lutas e sucessos. Talvez por isso, costumava falar da história de seus personagens com a voz embargada, olhos marejados, muitas vezes sem segurar as lágrimas. Não foram poucas as vezes em que familiares se depararam com ele chorando diante de uma cena que acabara de grafar. Um passional assumido.
O responsável nasceu em 17 de abril de 1931 em Gália, no interno paulista, cidade recém-criada à era, com algumas dezenas de ruas e pouco mais de 2.000 habitantes. Mudou-se pequeno com a família para a vizinha Vera Cruz, onde o pai tinha livraria, tipografia e jornal.
Brincava com filhos de imigrantes que trabalhavam na produção de moca, muito presente na região. À noite, sob um lampião, inventava histórias para a turma. Em férias no sítio de um tio, aprendeu a tocar berrante, marchar a cavalo, tirar leite de vaca e a tocar a boiada.
Mas a puerícia se encerraria logo, com a morte prematura do pai, aos 29 anos, com a qual o responsável nunca se conformaria. Foi com ele que o são-paulino fanático aprendeu a jogar esfera. Além do paladar pelo futebol, o pai lhe presenteou com um livro do Peter Pan, que o faria despertar para a futura profissão.
Mais velho de cinco irmãos, começou a trabalhar aos 12 anos para sustentar a família, agora sem tipografia, livraria e jornal, vendidos pela mãe, que não conseguia administrá-los. Foi caixeiro, escrevente de cartório e vendeu jornal, até se tornar facilitar de guarda-livros, uma espécie de contador, na Mercantil Antônio Perez, de exportação de moca.
O salário não era suficiente e, aos 16 anos, meteu-se em um terno surrado e embarcou rumo à estação da Luz, em São Paulo. Sem verba, lembrou-se de um primo que trabalhava em um clube à cercadura do rio Tietê. Foi para lá, onde passou a dormir em um cubículo, com suas roupas penduradas em pregos na parede. Entre uma guerra e outra para conseguir verba, pulava da ponte para reprofundar naquele Tietê ainda não poluído.
Empregou-se na sede paulistana da mesma firma em que trabalhara em Vera Cruz. Em 1952, foi transferido para Marialva, setentrião do Paraná. Lá, além de vender moca, fez programa de rádio transmitido em alto-falantes e escreveu para o jornal sítio.
O primeiro passo para a futura curso foi oferecido nessa era. Depois presenciar uma das maiores geadas da história do país, escreveu o romance “Queima Indiferente”, que em 1959 seria apropriado para peça do Teatro Redondel, com direção de Augusto Boal.
Nos sete anos entre a geração do romance e sua glorificação nos palcos, de volta a São Paulo, passou por redações de jornais, onde desempenhou várias funções, porquê a de repórter de esportes. Orgulhava-se de ter visto Pelé jogar aos 15 anos e de ter escrito reportagem profética: “Santos prepara fenômeno chamado Pelé”. Foi nesse tempo, em um bailinho de estudantes, que conheceu Marilena, com quem se casou e teve quatro filhos —Edmara, Edilene, Ruy Maurício e Marcelo, que iriam, todos, trabalhar com ele nas novelas.
Com o sucesso de “Queima Indiferente”, foi contratado por uma escritório de publicidade porquê editor de roteiros da Colgate-Palmolive, que produzia novelas para as emissoras. Trabalhou, logo, com Glória Magadan, cubana adepta de tramas estrangeiras, que queria intervalo da verdade brasileira. Com ela, embora tenha aprendido alguns truques folhetinescos, Ruy Barbosa teve a grande prelecção sobre o que não fazer. Por fim, para ele, o Brasil tinha que estar na telenovela.
Ao lado Dias Gomes, Janete Clair, Lauro César Muniz e de outros grandes dramaturgos, fundaria a teledramaturgia brasileira, que ajudaria a moldar uma identidade vernáculo, a partir da formação das redes de TV. E o Brasil de Ruy Barbosa era o Brasil rústico, com a sua verso e estética bucólicas, a perdão dos “causos” dos caipiras, mas também com as lutas do campo, a violência latente de um país que sempre se negou a fazer a reforma agrária, grande bandeira do responsável.
Depois de uma primeira tempo na Tupi, nos anos 1960, estreou na Orbe com “Meu Pedacinho de Pavimento”, em 1971. Logo se tornaria o grande responsável das 18h, com sucessos porquê “Cabocla” (1979), “Paraíso” (1982) e “Sinha Moça” (1986). Na dezena de 1970, escreveu também 12 histórias (240 capítulos ao todo) para a série infantil “Sítio do Picapau Amarelo”, fundamentado na obra de Monteiro Lobato.
Mas tinha o projeto de “Os Imigrantes” para o horário sublime, que a Orbe não quis. Foi para a Band, onde, em 1981, fez a romance, que recebeu vários prêmios. Voltou para a Orbe, de onde sairia novamente depois quase dez anos para mudar a história da teledramaturgia com “Pantanal”, exibida em 1990 na Manchete.
Quando o ritmo rápido e pleno de cortes dos videoclipes contaminava a televisão, a trama pantaneira, com lentas sequências das águas dos rios e do voo de tuiuiús, conseguiu o que soava impossível: roubar da Orbe a liderança no Ibope. Imprimou uma novidade linguagem à televisão, com valorização das cenas externas, tratadas porquê no cinema, e de diferentes paisagens brasileiras. Com o estrondoso sucesso, a Orbe finalmente aceitaria colocá-lo no horário sublime.
Em suas tramas das oito, de potente impacto na audiência, deixou claros seus posicionamentos políticos, principalmente na resguardo dos sem-terra, em “O Rei do Rebanho”, de 1996.
Em entrevista ao Roda Viva, à era, contou que havia sido cobrado por parlamentares pela morte do senador Caxias, da romance, em um conflito, sem que o culpado fosse indicado e punido. “Eu respondi: ‘Cadê os responsáveis pelos massacres de Corumbiara [RO], de Eldorado dos Carajás [PA]? Se vocês me apresentarem os culpados, eu mostro quem matou [o senador]”.
Politicamente, foi muito próximo ao PT, mas depois se disse desiludido com as lutas internas do partido. Antes, na juventude e, havia se engajado com o comunismo, trabalhado com o politizado Teatro Redondel e criado o famoso jingle “O sol nasceu para todos e também para você”, do emedebista Orestes Quércia.
Diante dos muitos sucessos e poucos percalços no Ibope, a estafa se tornou uma espécie de coautora. Em “Pantanal” (1990), fumava muito, dormia pouco e foi internado com pneumonia. “Renascer” (1993) ele terminou de grafar no hospital, com úlcera. Em “O Rei do Rebanho” (1996), internou-se em um spa. Também enfrentou problemas de saúde quando escrevia “Esperança” (2002).
Mesmo assim, resistia a ter colaboradores. Em “Terreno Nostra” (1999), por exemplo, lesionou o braço ao jogar esfera com o neto Marcos, que ele chamava de Marquinhos, e não quis ajuda de outro profissional. Ditava os capítulos para um “assistente” que ele mesmo arrumou: o próprio Marquinhos.
“Não paladar que mexam no meu texto. A carpintaria do capítulo e da história inteira é porquê um forte de cartas: se tirar um, caem todas.”
Remakes de suas tramas acabariam ficando nas mãos de familiares, em universal sob sua supervisão. As filhas Edmara e Edilene, trabalharam, por exemplo, nas novas versões de “Cabocla” (2004), “Sinhá Moça” (2006), “Paraíso” (2009) e “Meu Pedacinho de Pavimento” (2014). O neto Bruno Luperi assinou os remakes de “Pantanal” (2022) e “Renascer” (2024) –os dois já haviam trabalhado juntos em “Velho Chico” (2016), última romance de que Ruy Barbosa foi responsável, aos 85 anos.
“Cada romance que escrevi foi um ano da vida que perdi e sacrifiquei minha família. Se fosse estrear de novo, ficaria na publicidade ou no jornalismo””, disse, certa vez. Mas ele escolheu as novelas. Má sorte da publicidade e do jornalismo.
Em uma entrevista à atriz Vida Alves, em 1999, ao tentar definir a si próprio, ele se lembrou de uma frase que o neto Marcos havia escrito em uma prova que perguntava “O que você quer deixar para os filhos quando morrer?”. Em lágrimas, o responsável repetiu: “Quando eu morrer, eu quero deixar para os meus filhos as minhas malas velhas, o meu jeito de marchar e as vegetais que eu plantei”.




