Quando Dario Fo escreveu sobre a queda do ferroviário Giuseppe Pinelli de uma janela do quarto andejar da polícia de Milão, em 1969, ele percebeu que a resposta mais contundente à versão solene do sindicância era expor a sua própria caricatura. Na montagem dirigida por Hugo Coelho a partir da tradução de Roberta Barni, esse princípio se mantém funcional.
A adaptação retira particularidades históricas da Itália do pós-guerra para deixar evidente a espinha dorsal do conflito: um sistema burocrático que mente com tamanha precariedade que precisa recorrer ao delírio para se sustentar. O riso, nesse contexto, não alivia a violência do roupa real, mas desmonta a mando de quem tenta justificá-la.
A ocupação do Teatro Estúdio, nos Campos Elíseos, estabelece um pacto direto com quem assiste. O elenco recebe a plateia ainda no saguão, misturando números musicais com breves explicações sobre a gênese factual da trama. Esse prólogo quebra a intervalo formal do palco tradicional e convoca o público ao papel de testemunha do interrogatório que se seguirá.
No interno da sala pequena, a cenografia de Marco Lima reproduz a secura funcional de uma delegacia ordinária, servindo de contraponto estático à bagunça que se instala. Em diálogo com essa estrutura, os figurinos de Fause Haten delimitam a sobriedade rígida dos oficiais diante das trocas rápidas de trajes do protagonista, enquanto a realização músico ao vivo de Demian Pinto marca com precisão o ritmo das ações físicas.
No meio da encenação, Marcelo Laham interpreta o sujeito diagnosticado com mania de personificação que assume a identidade de um juiz instrutor. O ator ancora o papel no domínio do tempo cômico e na quebra metódico da quarta parede, alternando a postura arrogante do magistrado suposto com olhares cúmplices lançados aos espectadores. E a plateia se diverte horrores.
Ao pressionar os delegados a refazerem seus depoimentos para “ajudá-los” a evadir da prensa, ele transforma o próprio raciocínio da polícia em uma insídia retórica.
O elenco formado por Henrique Stroeter, Claudinei Brandão, Alexandre Bamba e Rodrigo Bella Dona sustenta o desespero crescente das autoridades, desenhando figuras que oscilam entre a truculência e o pavor da desmoralização.
Com a chegada da jornalista vivida por Maíra Chasseraux no terço final, o cerco se fecha e força o grupo a invenções narrativas cada vez mais insustentáveis. O confinamento da sala aproxima o testemunha da mecânica das mentiras institucionais, mostrando que a comédia, quando tratada com rigor técnico, funciona porquê um raio-x lúcido da manipulação do poder.
Três perguntas para…
… Marcelo Laham
O papel exige um estabilidade quebradiço entre a precisão da partitura cômica e o espaço para o improviso. Quanto da sua atuação varia de consonância com a resposta do público naquela noite e quanto precisa se manter milimetricamente engessado?
A peça tem um improviso e uma química muito potente com a plateia, mas por trás disso somos rigorosos. Embora a comédia pareça solta, tenho muito rigor e disciplina no que faço em “Morte Eventual de um Libertário”. Quem testemunhar três ou quatro vezes vai ver que a estrutura que sigo do início ao termo é uma partitura consolidada.
Acredito que só dá para improvisar com leveza dentro dessa participação da plateia se houver uma estrutura muito definida —saber para onde vou, quando paro e onde a história tem que ser contada. Finalmente, há uma história muito séria e uma responsabilidade de explicar à plateia o que aconteceu de verdade, onde há sátira e onde não há. Mantenho uma disciplina em 80% do espetáculo para que sobrem 20% para surfar no improviso com o público.
Dario Fo escreveu essa peça porquê uma resposta direta a um homicídio estatal enroupado por versões oficiais absurdas. Uma vez que é fazer comédia a partir de uma tragédia real sem esvaziar o peso político e a denúncia da história?
Basta fazer o que está escrito. Dario Fo foi muito preciso ao erigir uma comédia farsesca que faz morrer de rir, trazendo no próprio texto toda a sátira e a acidez contra a Igreja, a polícia, o Judiciário e o Ministério Público.
O peso está na própria história. É uma das comédias mais divertidas que já fiz e, ao mesmo tempo, uma das mais ácidas. O sigilo é não inventar muito: os espaços de improviso estão abertos para recrear dentro do contexto. É curtir e surfar um texto que já está todo pronto para criticar e fazer rir.
Você transita entre o teatro, o audiovisual e os formatos digitais de humor. O que a disciplina rigorosa da farsa clássica no palco exige ou desenvolve na sua técnica de atuação que esses outros meios não demandam?
Uma vez que ator, sempre busco trabalhar com precisão corporal e rigor para ter segurança. Essa peça traz o improviso e a rapidez de raciocínio, mas não vejo esses meios porquê excludentes. Os dez anos com o via “Embrulha Pra Viagem” —onde escrevo, dirijo e atuo— me deram prontidão e destreza, que se somam à minha experiência no cinema e na televisão.
Tudo se comunica e se complementa. O audiovisual contribui com a segmento técnica, a velocidade e a originalidade no palco, enquanto o via alimenta a rapidez de raciocínio para captar as informações da plateia e transformá-las em cena minutos depois. O rigor da farsa clássica ganha essa flexibilidade, abrindo espaço para utilizar tudo o que aprendi em outros formatos dentro de um espetáculo tão potente.
Teatro Estúdio – Rua Mentor Nébias, 891, Campos Elíseos. Terça e quarta, 20h. Até 30/9. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 40 (meia-entrada e moradores do meio) em sympla.com.br
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