Há uma tela pronta para ser pintada no fundo do ateliê que Janaína Tschäpe ocupa no Brooklyn, em Novidade York. A artista passou a tarde pensando nela, alimentando uma saudade declarada de produzir. “A tela branca é a felicidade do dia”, comenta, em conversa com a Folha.
É dessa relação cotidiana, quase doméstica, com a pintura que segmento “Piruetas de Olhos Abertos”, mostra de Tschäpe na Fortes D’Aloia & Gabriel. É sua primeira individual em São Paulo desde 2019.
Espalhadas pelo galpão na Barra Fundíbulo, pinturas panorâmicas de grandes formatos em tinta óleo e chibata sobre linho contrastam com uma série de aquarelas reunidas em fileira — todas produzidas entre Novidade York e Bocaina, em Minas Gerais. Duas paisagens radicalmente distintas que ajudam a cevar a sua investigação pictórica sobre a natureza.
A experiência do refúgio mineiro da artista nascida em Munique é física antes de ser visual. “Você passou no mato, choveu, pisou na limo, o cachorro te derrubou. São milénio acontecimentos que alteram o seu espírito antes de chegar ao ateliê. E alteram também a memória sobre o que se viu.”
Ocupar aquele espaço não é gratuito: a puerícia foi gasta por ali, a avó nasceu no terreno de trás. A mãe é de Bocaina, metade da cidade é parente — e quando Tschäpe volta, não está buscando o pretérito, mas reconectando-se com um tanto que seguiu existindo sem ela: “As memórias ainda estão vivas por lá, não mudou muita coisa”.
Já a vida em Novidade York opera de outro modo. “Ao pintar no mato, ele tem uma presença mais emergente. Cá, estou muito dentro da minha própria cabeça. As imagens são mais filtradas,” diz.
Em ambos os ambientes, há certa sofreguidão em colocar na tela o que foi observado, sem deixar que a sensação se esfrie. O óleo, matéria-prima adotada mais recentemente na sua curso, aprofundou esse jogo de retorno. Dissemelhante da tinta acrílica ou da aquarela, ele pode demorar dias antes de secar, readaptando o processo criativo. “É verosímil reentrar, tirar tinta, sobrepintar. Com o óleo, se a tinta escorre da pincelada, intervir ou não intervir torna-se um caminho de decisão”, diz.
Para quem pensa a pintura uma vez que escavação — e Tschäpe usa o verbo mais de uma vez na conversa —, a mídia que permite voltar é também a que permite ir mais fundo. O chibata a óleo entra uma vez que instrumento de escorço dentro da mancha.
A relação entre o repentino e o elaborado alimenta o diálogo que ela tem com a pintura: “a questão é sempre lastrar o quanto de emocional eu posso jogar na tela e quanto dele eu quero que apareça de volta”. A resposta nunca é a mesma. E é justamente aí que a pintura, para ela, não enjoa. “Cada tela é um passo a mais”, diz. Não existe tédio — ou, se existisse, ela já teria transformado o tédio em material.
O movimento nas telas em exposição em São Paulo é físico. Janaína está mais interessada, com suas abstrações, em transcrever as sensações da natureza do que retratar à risca a paisagem. Em vez de edificar uma imagem resolvida, o trabalho se desdobra uma vez que evento — moldado pelo tempo e pela memória — e pelas pinceladas vigorosas nas telas de grande formato.
Secção disso vem de um tirocínio que a artista descreve uma vez que deserção: parar de enquadrar antes de pintar, parar de resolver o que vai ver antes de ver. A pirueta é o protótipo disso. É gesto de moçoilo, movimento que não serve para ir a lugar nenhum, que existe pela experiência de ver o mundo rodopiar. “A gente brincava com a percepção, nessa era. Não precisava racionalizar tanto.” É esse lugar que Janaína tenta reativar: o de quem gira de olhos abertos e aceita o que aparece.
O quadro que dá título à mostra redesenha menos uma paisagem e mais o próprio rodopio: entre vermelhos e azuis saturados, sugere um corpo no envolvente, em movimento. O testemunha é implicado nesse movimento. As telas não se enquadram de uma vez, horizontes se inclinam e a figuração emerge para se dissolver no campo cromático. “Falo sobre estar na paisagem e percebê-la de dentro para fora”, descreve ela.
Saber quando parar, portanto, é sua habilidade mais difícil — não porque a tela esgote as possibilidades, mas porque há um momento em que qualquer gesto a mais vira conserto.
“Você vacila e quer voltar para enfeitar, para amenizar suas inseguranças, e aí pode estragar tudo.” A pirueta, pra ela, só funciona se você parar de controlar na hora certa — e encarregar que o que viu, girando, era real.
Enquanto isso, a tela em branco ao fundo do ateliê espera momento e cena certas. “Nunca parto de um ponto de partida planejado. Já tenho milénio imagens na cabeça, só preciso deixá-la chegar”, diz, ansiosa para gastar o termo de tarde pluvioso com o pincel na mão.





