Mostra em Comporta sobre ameaças ambientais e imobiliárias – 22/07/2026 – Ilustrada
O nome da mostra “Soft Ground”, ou solo macio, remete ao lugar que a acolhe e aos questionamentos em torno desse lugar. A região de Comporta, ao sul de Lisboa, possui muro de 45 quilômetros de filete de areia contínua, uma das maiores extensões do sul da Europa. Esse santuário, protegido por leis ambientais rígidas, se vê ameaçado pela mudança climática, que vem castigando o continente com próprio rigor nos últimos anos, e por predadores do mercado imobiliário.
São justamente esses os eixos que norteiam a exposição. “Estamos sempre atentos às preocupações dos nossos artistas, com quem conversamos frequentemente. O tema da mostra surgiu naturalmente nessas conversas”, diz a portuguesa Maria Ana Pimenta, sócia e diretora internacional da galeria brasileira Fortes D’Aloia & Gabriel. “Soft Ground” reúne 45 obras de grande potência e multiplicidade, com preços que vão de € 2.000 a € 120 milénio, ou entre R$ 12 milénio e R$ 720 milénio.
Foi Pimenta quem teve a teoria, em 2021, de realizar um “summer show”, uma mostra de verão, em Comporta. Sucesso de vendas e repercussão, o evento entrou no calendário português de arte contemporânea. A edição deste ano foi organizada em parceria com duas outras galerias, a portuguesa Kubik e a brasileira Mendes Wood DM.
Os “summer shows” são uma tendência no mercado de arte europeu. Galerias uma vez que a Hauser & Wirth, de Zurique, e a Parra & Romero, de Madri, criaram operações do gênero nas ilhas espanholas de Menorca e Ibiza. Comporta é um equivalente português desses destinos de luxo.
“Ao longo dos anos descobrimos que os frequentadores da região são apreciadores de arte e possuem poder aquisitivo para comprar obras”, afirma Maria Ana Pimenta.
Comporta tem hoje o metro quadrângulo mais custoso de Portugal, superando a Avenida da Liberdade, que está para Lisboa uma vez que a Champs Élysées está para Paris. O valor pode chegar a € 16 milénio euros, perto de R$ 100 milénio, de entendimento com a consultoria britânica Knight & Frank, referência no mercado imobiliário europeu. Há uma pressão intensa de cadeias hoteleiras internacionais sobre as pequenas cidades da região, que são responsáveis pela fiscalização ambiental.
As obras expostas na “Soft Ground” refletem, direta ou indiretamente, as questões ambiental e imobiliária. “Progressões de Queimada (Fumaça)”, da brasileira Rivane Neuenschwander, faz segmento de uma série de desenhos em papel arroz queimado por incenso. A labareda se alastra de forma análoga ao queima sobre mato sedento. Incêndios devastam todos os anos, no verão, segmento da cobertura florestal portuguesa.
O fenômeno da desertificação é uma das principais preocupações de Laís Amaral, nascida em São Gonçalo, município periférico do Rio de Janeiro, que é também causa do desportista antirracista Vinícius Júnior. Sua obra está representada por uma pintura da série “Ressurgir”, que remete à regeneração da natureza em seguida processos de devastação.
Neuenschwander, 59, e Amaral, 33, representam gerações diferentes da arte contemporânea brasileira. Há também artistas radicados no exterior, uma vez que Marcius Galan, que vive na cidade de Indianapolis, nos Estados Unidos. No deserto de Al Ula, na Arábia Saudita, Galan gravou com o celular uma vegetal resistindo ao vento, e, a partir dessa imagem árida, criou uma obra que trabalha sons e texturas.
A exposição é ambientada em dois lugares a uma intervalo de dez minutos de jornada, a Morada da Cultura da Comporta e o Espaço Museológico do Museu do Arroz. O Espaço Museológico já era ocupado há três anos pela galeria portuguesa Kubik, que se uniu neste ano à Fortes D’Aloia & Gabriel para colocar de pé a “Soft Ground”. “A teoria é que haja um diálogo entre artistas de diferentes países”, diz João Azinheira, proprietário da Kubik. Há vários nomes portugueses na exposição, a maior segmento deles representada pela Kubik.
O texto que acompanha o catálogo é de autoria de Filipa Ramos, curadora de várias exposições no espaço europeu e autora do livro “The Artist as Ecologist”, ou o artista uma vez que ecologista. Ramos escreveu sobre Comporta: “Enchentes recentes, tempestades, erosão costeira e o aumento das temperaturas tornaram visíveis as mudanças ambientais, enquanto a especulação e as economias sazonais reconfiguram o terreno social. A crise é, ao mesmo tempo, ecológica, social e política. Ela se manifesta na chuva e na areia, na moradia e no trabalho, na infraestrutura e nos ecossistemas, no frágil estabilidade entre aquilo que é protegido e aquilo que é consumido.”
E conclui: “O que é preservação pode também produzir deslocamento. A paisagem que parece ensejo e acolhedora é cada vez mais atravessada por forças econômicas que determinam quem pode permanecer, quem pode trabalhar, quem pode visitar e quem pode invocar esse lugar de lar.”





