Era uma tarde barulhenta quando Marcelo Cidade recebeu a reportagem. Ele apresentava sua mostra e enfrentava construções em frente à Vermelho, a ser ampliada em breve. Com o interno exposto e sons que invadiam a galeria, o prédio dialogava com seu repertório, sabido por revelar significados ocultos por trás de espaços urbanos.
Entre andanças por São Paulo, Cidade se habituou a reinventar objetos deixados nas ruas, porquê gavetas, enforca-gatos e películas de celulares. Não significa que todos os achados sejam de fácil transporte —na frontispício da galeria, o testemunha vê grades organizadas porquê um tipo de escada.
A obra, conta o artista, referencia o 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes golpistas invadiram a Rossio dos Três Poderes, em Brasília. O uso de grades esteve entre as estratégias, símbolo de guerrilhas esquerdistas que a direita utilizou na ocasião.
“Vários discursos políticos já se apropriaram desse objeto vulgar, que já assumiu muitos significados “, afirma ele. “Cá, a grade é usada para repensar esse sistema, atravessando a arquitetura e deixando de ser uma barreira.”
São interferências do tipo que definem “O Cordial, o Simpático e o Vândalo”, exposição que se apropria da “cordialidade” explorada por Sérgio Buarque de Holanda. Segundo o historiador, o brasílio prioriza a emoção, eficiente em mascarar conflitos, ao firmar relações sociais.
Diante do noção, Cidade adiciona a simpatia porquê uma performance, que atualiza a falsa intimidade estudada por Holanda, e o vandalismo porquê revérbero das tensões de misturar o público e o privado. “Na pandemia, percebi que o espaço público encolheu e que nos vinculamos mais à privacidade e identidades públicas mediadas pelo do dedo. Interações humanas desapareceram e viramos monstros do Instagram, trocando conversas por brigas e discussões.”
Outra estátua que ilustra esse distanciamento é “Vigilante”, que divide uma guarita em duas metades. O vão entre as partes, que o visitante pode passar, questiona a própria teoria de vigilância —hoje, quem vigia e quem é vigiado? O artista ainda define as estruturas porquê centros de controle, que limitam a liberdade de grupos, centralizam outros em ambientes específicos e reproduzem formas de violência.
Na mesma sala, carpetes trazem à tona cômodos de origem escravocrata. Espalhado pelas paredes, o material recria quartos de empregados de vegetais baixas de Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer, entre outros arquitetos modernistas. Paredes são demolidas e esses espaços deixam os fundos das casas.
No marchar superior da galeria, Cidade enfileira gavetas com fundos recortados. Ao retirar os pedaços, ele transforma os móveis em peças abstratas e dimensiona os intervalos entre partes externas e internas. São objetos projetados para armazenar itens íntimos, cujas vísceras se revelam.
“Percebi que essas gavetas eram um revérbero da gentrificação, em áreas que passavam a ser valorizadas e a expulsar seus antigos moradores. É um resíduo que surge desse movimento social, e busco fabricar uma novidade elaboração a partir da desagregação desses sobras.”
Debate parecido contempla garrafas espalhadas pela mostra. Cheias de urina, representam moradores de rua, entregadores de aplicativo e outras pessoas sem moradias. O artista utiliza seu resíduo biológico e diz ver as obras porquê sobras de corpos explorados.
Enforca-gatos e películas de celulares também estão entre os vestígios ressignificados. Os primeiros, que têm sido usados por agentes do ICE para prender imigrantes, compõem murais com arabescos imperfeitos. Com um utensílio reprimidor, a teoria é romper a rigidez de tradições arquitetônicas e festejar expressões culturais em expansão, de diferentes regiões do mundo.
Por sua vez, as proteções de aparelhos móveis, repletas de poeira e rachaduras, se reúnem numa tela de padrões repetitivos. “Tempo de Tela” representa a força coletiva desses elementos e, ao mesmo tempo, a fragilidade de aparelhos que moldam o contemporâneo.
Ao termo da visitante, Cidade apresenta o que considera ser sua obra mais misteriosa. Nela, uma superfície de tinta prateada cobre uma pia com chuva paragem. “Quis pôr no núcleo um objeto historicamente ligado ao trabalho escravocrata e feminino. A tinta anula seu volume e sua função.”
O resultado é um revérbero mal definido, e o visitante que tenta vislumbrar o próprio rosto faz o líquido tremer conforme se aproxima. É mais um sinal de que certas inquietações sempre vêm à tona.
