Nas guerras morais, a primeira vítima é a tolerância

Nas guerras morais, a primeira vítima é a tolerância – 24/03/2026 – Wilson Gomes

Celebridades Cultura

Todo mundo tem crenças sobre o manifesto e o incorrecto. O problema é que, em sociedades complexas, os valores nem sempre convergem.

No Brasil, segundo uma novidade pesquisa do Pew Research Center, quase 77% acham que o adultério é moralmente intolerável, 73% pensam o mesmo do monstruosidade, 68% da pornografia e 63% do consumo de maconha.

Nos Estados Unidos, 90% consideram o adultério moralmente incorrecto —é o maior erro moral na percepção pública entre os itens medidos. Muito supra dos 52% que condenam ver pornografia, dos 42% que pensam o mesmo do monstruosidade e dos 39% que consideram a homossexualidade impudico.

Tenho pontos de vista muito distantes desses. Não considero a homossexualidade nem o consumo de maconha ou de pornografia questões morais; acho que a fidelidade conjugal só é da conta dos envolvidos e que o monstruosidade merece uma abordagem mais complexa do que simplesmente ser em prol ou contra.

Mas eu sou um liberal —ou um progressista, uma vez que prefere a esquerda no Brasil—, e esses números indicam uma sociedade conservadora. Meus valores e os da maioria não coincidem, mas, uma vez que tenho boas razões, inclusive morais, para as minhas convicções, não vou mudá-las para me ajustar a ela. Uma sociedade pluralista me permite isso. Ainda muito.

Durante muito tempo, enquanto reconhecíamos estar em minoria, a atitude liberal preponderante diante do desacordo moral consistia em reconhecer e recompensar a tolerância dos outros. Por definição, tolera-se aquilo que se considera incorrecto. Tolerar significa que, mesmo discordando, o outro deve respeitar, permitir a existência e abster-se de usar violência ou constrangimento para emendar ou punir valores ou modos de vida divergentes.

Outrossim, um liberal em uma sociedade conservadora buscava convencer as pessoas de que suas crenças derivavam de fundamentos sobre os quais havia consenso: paridade, liberdade, direitos. Que, vivendo em um regime de direitos e garantias, as consciências eram livres para sustentar convicções distintas, adotar valores e estilos de vida minoritários e ainda reivindicar saudação e reconhecimento.

Parece que uma novidade geração de progressistas adotou outro modo de mourejar com o desacordo moral. Segmento-se, antes de tudo, de uma ilusão de maioria —a teoria de que a maior secção da sociedade já pensa ou deveria pensar uma vez que nós— para concluir que nossas crenças podem ser impostas, a ferro e a incêndio, contra o detença e o erro moral dos conservadores.

Na novidade atitude moral, todo mundo tem que admitir nossas crenças, por mais que colidam com as suas, sem discussão nem indecisão. E quem não as adota deve sentir o peso do braço do Estado ou as punições sociais.

De um lado, nos livramos da obrigação de tolerar. De outro, não queremos mais ser tolerados: queremos que os conservadores abracem integralmente os nossos dogmas e sejam punidos se não o fizerem. É o próprio recta de ter convicções conservadoras e de encontrar erradas as crenças progressistas que não se aceita mais.

Aliás, uma secção considerável da pujança da esquerda tem sido consumida exatamente nas trincheiras de disputas morais. A urgência parece ser produzir tipos penais que criminalizem o próprio desacordo moral conosco. Com a criminalização da misoginia, depois da transfobia, a grande obra progressista no campo penal —a criminalização do preconceito e, por extensão, do dissenso moral— está prestes a se completar.

A deputada Erika Hilton ilustra muito essa novidade geração, que não exclusivamente exige dos progressistas a adesão à ortodoxia, mas recusa a teoria de que os outros possam expressar desacordo moral. Seu impressionante histórico de judicialização mostra que qualquer posição desafiante —mesmo quando não envolve ofensa— deve ser punida.

Essa secção do campo progressista hoje se recusa a enobrecer entre desrespeito a pessoas e divergência de crenças e valores. O desrespeito é incompatível com uma sociedade tolerante; já a divergência é fundamento de uma democracia pluralista. Ora, são inaceitáveis a humilhação, o insulto, a recusa desdenhosa em tratar alguém uma vez que deseja ser tratado. Mas as convicções de que mulheres são definidas biologicamente, de que há diferença entre mulheres trans e mulheres, de que não existe mulher cis etc. expressam um desacordo moral enraizado em crenças amplamente difundidas. É legítimo tratá-las sempre uma vez que desrespeito e até uma vez que crimes?

Acreditamos mesmo que a sociedade deixará de ser conservadora se mandarmos a polícia contra divergentes ou fizermos vídeos no Instagram chamando a maioria de fascista, bolsonarista ou imbecil?

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Folha

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