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Nathacha Appanah escreve feminicídio em 'Noite no Coração' 23/07/2026
Celebridades Cultura

Nathacha Appanah escreve feminicídio em ‘Noite no Coração’ – 23/07/2026 – Ilustrada

Nathacha Appanah pensa com frequência em Alana Rosa, a jovem de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, que sobreviveu a uma tentativa de feminicídio depois rejeitar um pedido de namoro.

“Ela foi esfaqueada dezenas de vezes e compareceu ao julgamento [do algoz] de cabeça erguida. Que exemplo para todas nós”, diz a escritora, que nasceu nas Ilhas Maurício e vive na França.

Appanah diz precisar revelar uma coisa. “Eu me senti humilhada pelos muitos encontros que tive desde que o livro foi lançado.”

Refere-se a “Noite no Coração”, vitorioso em premiações francesas de relevo, uma vez que Femina e Goncourt des Lycéens, e publicado no Brasil agora pela Loja do Tempo. É sobre ele que Appanah falará nesta sexta-feira (24), em mesa da Flip, a Sarau Literária Internacional de Paraty, ao lado da brasileira Bethânia Pires Amaro.

O que impressionou a autora, que também é jornalista, foram as reações “daquelas que chamamos de vítimas ou sobreviventes” e que “são as pessoas mais fortes que já conheci”. Para redigir seu novo livro, conheceu mulheres que compartilharam suas histórias de violência doméstica da maneira mais digna provável, diz em entrevista.

“Elas não choraram, não desabaram. Escolheram suas palavras com zelo, lindamente, eu diria. Olharam-me nos olhos. Por isso, eu gostaria de inventar outra vocábulo que não seja ‘vítima’, uma vocábulo que diga fé, poder e resiliência.” Ainda não identificou que termo seria esse. “Mas qualquer dia encontrarei.”

O que fez foi usar a literatura para falar publicamente, de forma inédita, do relacionamento censurável que viveu dos 17 aos 25 anos com um varão três décadas mais velho e que, segundo ela, quase virou seu matador.

Da primeira vez, depois ser provocado por rapazes que o achavam velho demais para a jovem companheira, apertou o pescoço dela, com sua mão “seca e quente, grande e grossa”.

Depois, acuada em moradia, Appanah deu gritos pavorosos que a fizeram parecer um bicho, “nem sequer um bicho majestoso, não, um porco, uma cabra velha, um asno”. Fugiu para a rua. Ele portanto a perseguiu de carruagem, intimidando-a com os faróis. Ela entrou no veículo, onde recebeu golpes na cabeça.

Em “Noite no Coração”, a autora tensiona a própria literatura para dar conta da própria história e de dois feminicídios: o de Chahinez Daoud, assassinada pelo ex-marido na França em 2021, e o de sua prima Emma, morta pelo companheiro em 2000.

Para repor o protagonismo a essas mulheres, a escritora precisou romper o distanciamento com o próprio pretérito. Não que o tenha esquecido, mas nunca achou que escreveria sobre ele. Um pouco mudou ao escutar no rádio sobre a morte de Chahinez, imigrante argelina descrita uma vez que uma mulher de risada contagiante, generosa, vaidosa (gostava de batom vermelho) e óptimo cozinheira.

“Fiquei impressionada primeiro pela forma e pelo lugar onde ela morreu: parecia uma realização pública. Porquê as mulheres podiam morrer dessa forma, nas mãos daqueles que dizem amá-las, uma vez que isso pôde sobrevir na França, no século 21?”

O ex-marido atirou em suas pernas para imobilizá-la, despejou gasolina sobre ela e a queimou viva no meio da rua.

Seu livro, diz Appanah, “não é um relato, é uma obra literária”. Essa demarcação é importante. “Nos dias que se seguiram à morte [de Chahinez], senti essa sedimentação da minha experiência pessoal e literária, do sentido de observar repetidamente essa violência de gênero que acontece desde o início dos tempos e ainda continua”. Porquê escritora, sentiu que “precisava dar sentido a isso”.

Essa elaboração se materializa nas primeiras páginas, quando a autora cria uma sala fictícia em sua mente para confrontar os três agressores: dela, da prima e da argelina. Nenhum é pintado uma vez que besta-fera.

“Eles não são de todo maus”, a frase inicial, revela homens que, a princípio, talvez ninguém apostasse serem feminicidas. Porquê seu ex, um poeta que “fala com desenvoltura e lucidez”. Qualquer um que o visse assim, “em sua poltrona de epiderme, tragando seu cigarro, lendo uma vez que se fosse sozinho no mundo”, não imaginaria o que foi capaz de fazer com ela.

Mais adiante, Appanah desarma a condescendência que frequentemente muro os criminosos. Durante a pesquisa para a obra, ela se surpreendeu com discursos simpáticos aos abusadores: “Ele era um pai muito bom”, “era um gênio literário”, “ele ainda é muito bonito”, sentenças assim.

“Muitas vezes, tentamos encontrar uma razão para a violência dos agressores. É uma coisa muito progressista de se fazer e sou grata por viver em uma sociedade que acredita na dificuldade da humanidade. Mas, para esses três homens, não havia zero que pudesse ‘explicar’ sua violência. Eles foram cercados de paixão e, ainda assim, escolheram matar.”

Já as mulheres não vasqueiro aparecem na mídia de forma infantilizadora. Chahinez, por exemplo, virou “une petite maman” —uma mãezinha—, reduzindo uma mulher de 31 anos a um ser frágil. Havia também ilações pseudossociológicas —teses sobre ela, muçulmana, querer “viver uma vez que uma mulher francesa” ou “usar legging” em vez de véu, o que a autora vê uma vez que uma forma de paralisá-la em um relato que não lhe pertence.

No livro, Appanah sintetiza esse apagamento: “Constato todas as vozes que se sobrepõem à voz de uma mulher morta. São vozes amorosas, simples, mas também vozes condescendentes, vozes falsas, vozes políticas, vozes psicologizantes, vozes policiais, vozes judiciárias. O que existe é somente o coração da mulher, que para quando o companheiro a mata.”

A escritora diz esperar que seu trabalho “seja uma forma de ver essas mulheres uma vez que indivíduos, de compreender a intenção por trás do feminicídio doméstico”.

Não que a literatura baste por si só. “Um livro não é suficiente. Todos na sociedade, em seus próprios campos de trabalho, professores, advogados, policiais, devem fazer a sua secção.”

Folha

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