Seu nome tem saído nos jornais, e sua rosto já apareceu na TV. Com 30 anos, Michaël Trazzi lidera um movimento chamado Stop the AI Race, cobrando que as big techs deem uma pausa no desenvolvimento da perceptibilidade sintético diante dos riscos que essa tecnologia representaria para a humanidade.
Disso, quem já leu menções a ele na prelo americana sabe muito. O que ninguém descobriu ainda é o seguinte: o ativista é neto do ex-deputado Rubens Paiva, assassinado pela ditadura militar, e sua esposa, Eunice Paiva, que lutou a vida inteira para que o governo brasílico reconhecesse o transgressão e inspirou o filme “Ainda Estou Cá”.
Trazzi começou a comparecer nos jornais em setembro do ano pretérito, quando foi um dos ativistas a aderir a uma greve de miséria contra as empresas de IA. Enquanto um manifestante estava na sede da Anthropic em San Francisco, ele e um colega ficaram em frente à matriz do Google Deepmind, em Londres.
O neto dos Paiva jejuou por sete dias e parou por recomendação médica; seu companheiro continuou por 18.
“Foi mais fácil do que eu imaginava. O corpo se adapta muito rápido. Difícil é falar com a prelo, os funcionários das empresas, os empresários…”, diz ele, que perdeu cinco quilos no processo.
Trazzi acredita que a repercussão do protesto com os colegas e uma epístola sua são o motivo pelos quais, em janeiro deste ano, ao ser questionado por um jornalista, o CEO do Deepmind, Demis Hassabis, disse que toparia uma pausa na corrida da IA —desde que as empresas adversárias fizessem o mesmo.
“Acho que, se a gente não tivesse pedido isso em setembro, o jornalista não teria feito a pergunta”, diz Trazzi, que duas semanas antes tinha lançado na internet um documentário sobre a greve de miséria.
Já morando nos Estados Unidos, o ativista organizou em março deste ano um protesto em San Francisco em que marchou com uma centena de pessoas de uma sede a outra das principais empresas de IA americanas.
Um mês antes da revelação, a Anthropic havia recuado do compromisso público de interromper o desenvolvimento de modelos de IA potencialmente perigosos caso não tivesse medidas de segurança adequadas. Em março, vieram as notícias do padrão Mythos. E, na semana passada, a empresa propôs uma pausa global no desenvolvimento da IA. Na sexta-feira (12), a empresa suspendeu o entrada a dois de seus modelos de IA em cumprimento a uma ordem de segurança vernáculo dos Estados Unidos.
Enquanto isso, Trazzi e seus aliados vêm convocando novo protesto para o dia 11 de julho. Dessa forma, ele se torna um dos rostos de um fenômeno que tem explodido nos Estados Unidos: o mal-estar e os protestos contra empresas de tecnologia não só diante dos chamados riscos existenciais da IA, mas também pelo impactos de projetos de infraestrutura ligados ao setor, porquê os data centers.
A proposta que defende é uma pausa global no desenvolvimento da novidade tecnologia. E que incluiria não só as empresas americanas, mas também a China. Por ora, ele quer que os CEOs assumam publicamente esse compromisso.
O interesse do ativista no tema da segurança de IA vem de antes. Nascido e desenvolvido na França, rebento de Ana Lúcia Paiva, ele pesquisou perceptibilidade sintético em um mestrado na universidade Sorbonne, já com interesse na segurança da tecnologia, e estudou engenharia de software na École 42.
“Nesse momento eu não estava muito politizado. Achava que tinha que resolver esse problema [da segurança da IA] de uma maneira técnica”, conta. “Queria limitações para que o cérebro da IA fosse porquê o nosso, de certa forma.”
Em 2019, conta, partiu para um estágio no Future of Humanity Institute, ligado a Universidade de Oxford, um dos principais polos intelectuais a alertar para riscos da perceptibilidade sintético avançada. E pouco a pouco foi se tornando um comunicante dentro dessa superfície: entre 2021 e 2024, apresentou o podcast The Inside View, em que fazia entrevistas longas com pesquisadores, ativistas e especialistas em segurança de IA.
O nome do programa, aliás, batiza também a produtora que Trazzi fundou, voltada para teor audiovisual sobre o mesmo tema, pela qual lançou o documentário “SB-1047: The Battle For The Future Of AI” sobre o projeto de lei que, em 2024, tentou impor diretrizes de segurança às empresas do setor —e acabou vetado pelo governo da Califórnia.
A viradela para um ativismo mais tradicional veio no mesmo ano em que os californianos discutiam a proposta. Foi quando Trazzi assistiu pela primeira vez a uma exibição de “Ainda Estou Cá”, no New York Film Festival. Um dia depois, ainda sob impacto, escreveu em seu perfil no X (ex-Twitter): “Noite passada, vi meu avô morrer diante de milhares de pessoas. Foi a primeira vez em que o vi”.
“Sempre vi minha avó velhinha, sabe? Vê-la com essa lei foi muito possante para mim”, conta. “E nunca vi meu avô na vida. Não tinha lido o livro. Foi a primeira vez que vi o que ele fez, os riscos que tomou.”
Trazzi fala português com sotaque, mas diz ter uma relação mais emocional com a língua da mãe do que com o gálico do pai. Chegou a passar temporadas no Brasil e, em 2011, morou em São Paulo durante um ano. Não estivesse tão preocupado com o que vê porquê os riscos da IA, queria passar mais tempo com a família brasileira… Mas interrompe a conversa porque se lembrou outra vez de “Ainda Estou Cá”.
“Estou pensando na música que toca no filme: ‘É Preciso Dar um Jeito, Meu Colega’”, diz.





