Ney Matogrosso parece estar em transe. Os olhos miram fixamente o pavimento, onde flutua uma fumaça que empresta ares ritualísticos ao cenário. Os braços estão abertos em um movimento teatral e convulsivo, uma vez que se ele fosse o personagem de uma pintura de Caravaggio.
A exemplo das criações do rabino barroco, o artista personifica nessa imagem a luz e a sombra, o espanto e a formosura, o sagrado e o secular. Na retrato de Madalena Schwartz, Ney Matogrosso é um corpo em ebulição.
Essa corporalidade incendiária e contraditória é tema agora de uma exposição no instituto cultural Solar, no meio do Rio de Janeiro. Intitulada “Prefiro Ser”, a mostra reúne vídeos, pinturas, fotografias e esculturas para marcar os 85 anos do cantor, um dos nomes mais celebrados do cancioneiro vernáculo.
Ney despontou na cena músico nos anos 1970 com o grupo Secos e Molhados, grupo que ele formou ao lado de João Ricardo e Gérson Conrad.
O trio criou uma parceria tão efêmera quanto fulgurante, empilhando sucessos uma vez que “Fala”, “O Vira” e “Sangue Latino” entre 1973 e 1974. Eles se notabilizaram também por fazer apresentações com o rosto pintado e trajando roupas insinuantes em plena ditadura militar.
Essa postura disruptiva acompanhou Ney em seguida ele trespassar da orquestra. Prova disso é o disco “Bandido”, álbum que se faz presente na exposição por meio de um edital.
Lançado em 1976, o trabalho traz já em seu título uma celebração à marginalidade, alguma coisa que Hélio Oiticica havia feito oito anos antes com a célebre bandeira-poema “Seja Herói, Seja Marginal”.
“Ney é um artista que bota o próprio corpo em risco, uma vez que se ele fosse um objeto de performance, encantamento e duelo”, diz Bernardo Mosqueira, curador da mostra ao lado de Matheus Morani e Pablo León de la Barra.
“Naquele contexto de repressão, ele era visto uma vez que uma força que precisava ser reprimida, oprimida e controlada, mas, ao mesmo tempo, fazia performances de uma força imagética tão grande que os próprios conservadores ficavam encantados”, diz Mosqueira.
A exposição se debruça justamente sobre o caráter libertário e subversivo de Ney. Isso, porém, não se dá de forma literal, uma vez que o projeto não tem pretensões biográficas. A teoria é relatar a trajetória do artista por meio de obras que sirvam de metáfora para a sua personalidade.
Logo na ingresso da mostra, por exemplo, vemos uma estátua de Exu –o orixá mensagem, força motriz por trás do movimento e da transformação. Concebida por Chico Tabibuia, a obra traz a entidade com seios e uma protuberância em formato fálico entre as pernas. Para o curador, esse trabalho sintetiza a recusa do artista em ser rotulado.
“Ney mistura elementos que vêm do reino bicho, mineral, vegetal, do gênero feminino e masculino, uma vez que se mostrasse para a gente que a ordem do mundo é arbitrária e que ela pode ser dissemelhante.”
A natureza camaleônica do cantor pode ser observada em uma grande pintura concebida pelo coletivo Avaf.
A obra retrata Ney usando itens de diferentes fases de sua curso. Há desde o chapéu do disco “Bandido”, passando pela flor do álbum “Pois É” até chegar aos cornos de carneiro que o artista usou na envoltório de “Chuva do Firmamento – Pássaro”, seu primeiro trabalho solo, lançado em 1975.
Ao longo da curso, ele se notabilizou por sua presença incendiária sobre o palco, onde ainda hoje exala sensualidade, malemolência e magnetismo. Essa verve performática pode ser sentida na exposição por meio da estátua “Orvalho”, em que Samuel Alves de Jesus criou uma estrutura amorfa usando sal, resina e calcita.
Em contato com a umidade, o sal faz surgir gotículas de chuva na superfície da estátua, de modo que ela parece estar coberta de suor.
De certa forma, é uma metáfora para o corpo inquieto e transpirante que Ney exibe em suas apresentações.
A mostra também joga luz sobre corporalidades que desafiam normas e subvertem padrões de comportamento, em sintonia com o que o cantor fez ao longo da curso. Um dos destaques desse eixo são fotografias de uma performance que Antonio Manuel realizou em 1970.
À era, o artista inscreveu o próprio corpo uma vez que objeto artístico no Salão de Arte Moderna, um dos principais prêmios de arte daquele período. Embora a letreiro tenha sido recusada pelos jurados, decidiu comparecer à exposição mesmo assim. No entanto, havia um pormenor –ele estava completamente nu.
Intitulada “O Corpo é a Obra”, essa é considerada uma das performances mais importantes da arte brasileira. “Ele bota o corpo a jogo tanto em oposição às instituições culturais quanto em oposição aos militares”, diz Mosqueira.
Quem também pôs o próprio corpo à prova foi Flávio de Roble. Em 1956, o artista desfilou pelas ruas de São Paulo usando saia, sandália e blusa bufante. Conhecida uma vez que “New Look” ou traje de verão, essa vestimenta foi pensada para ser usada no calor dos trópicos.
Na mostra, as imagens da performance retratam o artista caminhando presumido com as pernas de fora encurralado por uma plebe de homens engravatados. O grupo observa Roble uma vez que se ele fosse um bicho exótico.
As roupas que Ney escolhia usar também confrontavam normas sociais. Na exposição, uma imagem retrata o artista trajando calça jeans justíssima. Outra retrato mostra o cantor com um quepe de pele e uma regata metalizada, à maneira dos praticantes de sadomasoquismo.
“A exposição é muito sobre uma vez que o Ney inspira a gente a questionar as normas de gênero, de sexualidade e de comportamento”, diz Mosqueira.
Essa postura insubmissa e libertária, porém, não foi confrontada unicamente pela vexação da ditadura militar. A partir dos anos 1980, a comunidade LGBTQIA+ se viu ainda mais estigmatizada em razão da epidemia de HIV, chamada pejorativamente à era de “cancro gay” .
O artista perdeu pessoas próximas por complicações relacionadas à doença, uma vez que o marido Marco de Maria e o ex-namorado, o cantor Cazuza.
A mostra faz referência a esse período em obras concebidas por nomes uma vez que Leonilson e Feliciano Centurión. Ambos os artistas traduziram os seus anseios e temores no calor do momento, enquanto viviam com a enfermidade no auge da epidemia.
Uma das obras mais pujantes desse núcleo é o vídeo “Prelúdio de uma Morte Anunciada”, de Rafael França –um dos pioneiros da videoarte no Brasil.
Na gravação, ele e o namorado trocam beijos, abraços e toques ao som de uma ária da ópera “La Traviata”. Entre um lisonja e outro, surgem na tela nomes uma vez que Alex, John, Mark e Stephen. Todos eles morreram em decorrência do HIV, inclusive o próprio artista.
Em seguida tapume de quatro minutos, o vídeo chega ao termo com uma frase. “Above all, they had no fear of vertigo” —supra de tudo, eles não temeram a vertigem. É uma certeza do paixão e da coragem diante da dor e do temor.
“Eles abriram caminho para toda uma geração”, diz o curador. “Ney talvez seja um grande exemplo daqueles que não temeram a vertigem.”





