Nobel de Literatura, Anne Carson nomeia para confundir – 08/10/2026 – Ilustrada
O problema com Anne Carson, que venceu o Nobel de Literatura nesta quinta (8), começa quando tentamos juntar seu nome a alguma designação mais ou menos fixa.
Poeta, romancista, tradutora, classicista, feminista, dramaturga, ensaísta. Num breve sobrevoo do dedo por artigos a seu reverência, essas são algumas das tentativas mais recorrentes. O que une todas elas é que estão erradas.
A própria Carson, tanto em sua extensa obra quanto em entrevistas, rejeita sistematicamente todos os rótulos que lhe são atribuídos. O mesmo vale para seus textos, sempre apresentados de maneira obstinadamente indeterminada.
Seu primeiro poema, “Cannicula di Anna”, publicado em 1984, é frequentemente chamado pela autora de “um experiência”. Sua tese de doutorado, “Eros, o Rebuçado-Amargo”, também foi publicada dois anos mais tarde com o subtítulo “um experiência”.
Talvez seu livro mais famoso, “Autobiografia do Vermelho”, de 1998, não tem zero de autobiográfico e ainda traz uma vez que subtítulo a atordoante frase: “um romance em versos”. Em outro grande sucesso da autora, “A Formosura do Marido”, de 2001, lemos na cobertura a estranha descrição “um experiência ficcional em 29 tangos”. Tangos?
Carson nomeia para confundir, não para esclarecer, mas ao fazer isso, consegue insinuar um tanto profundo sobre a absurda futilidade inerente a qualquer esforço de nomeação.
Num texto mais recente, ela cita a famosa frase de John Cage: “Toda coisa que existe é uma celebração do zero que a sustenta”. É justamente um vislumbre desse “zero” que Carson parece tentar apresentar ao seu leitor.
Nesse sentido, o estável diálogo que ela construiu, ao longo de toda sua obra, com textos clássicos em heleno e latim ocupa um lugar de destaque.
Numa célebre entrevista de 1997, ela já falava sobre o que a interessava nesses textos: “Dá para sentir uma teoria de primícias em autores uma vez que Safo e Homero, que iam tropeçando pelo mundo e dizendo ‘o nome disso é ‘zero’ e oriente é justamente o nome manifesto para ele'”.
Em seus dois primeiros sucessos literários, “Eros, o Rebuçado-Amargo”, publicado no Brasil em 2022 pela Estabelecimento do Tempo, e o ainda não traduzido para o português “Economy of the Unlost”, Carson toma uma vez que ponto de partida dois poetas gregos arcaicos, Safo e Simonides, para desenvolver suas primeiras reflexões sobre uma vez que nascia ali uma certa teoria de tipo e, com ela, uma teoria de libido de completude.
“Quem é o verdadeiro sujeito da maioria dos poemas de paixão? Não é a pessoa dulcinéia. É aquele buraco”, escreve em “Eros, o Rebuçado-Amargo”.
Outro paisagem da obra de Carson, já presente desde seus primeiros textos, é o contraste entre essas referências clássicas e ideias modernas.
Suas citações vão de Gustave Flaubert a Marilyn Monroe, de Virginia Woolf a Yves Klein, num jogo que pode parecer aleatório inicialmente, mas não é: “Às vezes você consegue enxergar melhor um corpo celestino ao direcionar seu olhar para outra coisa e, através desta coisa, ver o firmamento”, escreve em “Economy of The Unlost”, ao anunciar seu intento de confrontar os epigramas de Simonides de Keos com a trova de Paul Celan.
Em “Autobiografia do Vermelho”, editado pela 34 há cinco anos, um tema recorrente é o pensamento do filósofo germânico Martin Heidegger. Já em “Descriação”, texto da coletânea “Experimento sobre Aquilo em que Mais Penso”, da mesma editora, quem aparece é Simone Weil.
São presenças que reforçam um manifesto estranhamento e incompreensão, ideias que parecem atingir seu ponto sumo no famoso poema “Experimento sobre Aquilo em que Mais Penso”, de 1999. Esse poema, que muito carsonianamente já começa se nomeando um “experiência”, logo anuncia ao leitor que vai tratar do erro e de suas emoções.
O exemplo escolhido para ilustrar essa teoria que tanto interessa à narradora é um pequeno migalho de poema, de autoria de um manifesto Álcman, poeta heleno que viveu no século 7º a.C., um texto que aparentemente contém um erro aritmético imprescindível.
Leste erro, entretanto, será lido no poema de Carson uma vez que um gesto artístico, criativo, didático. O que inicialmente parece uma falta se transforma, ao longo do poema, num superabundante excesso de significados possíveis. Um zero que esconde dentro de si “o que vem e o que não vem ao caso” uma vez que escreve Carson, citando cá não Álcman, mas Wittgenstein.
É um tipo de leitura que não se resolve, que procura incorporar o impasse da linguagem e que tenta mudar um tanto no que Carson labareda de “o quociente de nossas expectativas”.
Em seu livro mais recente, “Wrong Norma”, que deve trespassar pela 34 no próximo ano, Carson novamente tenta se explicar se desexplicando. “Para ser um novo tipo de romance, seria necessário suprimir alguma coisa, suprimir muitas coisas —enredo, consequências, o prazer que o leitor extrai das respostas negadas, a premeditação dessas coisas todas […] Sua autora corresponderia à história o tempo todo, mas essa história não seria uma história…”
Quando seus editores insistem que um tanto precisa ser posto ao lado de seu nome em seus livros, a própria Carson se sai com a seguinte fórmula que, se não dá conta de defini-la, pelo menos insinua com sublimidade a formosura simples e surpreendente para que sua obra aponta: “Anne Carson nasceu no Canadá e é professora de heleno vetusto”.
Resta saber se, a partir de agora, ela permitirá que se adicione a esta singela descrição o pormenor “e venceu o Prêmio Nobel de Literatura de 2026”.





