'Nuremberg' expõe tribunal que condenou nazistas 24/03/2026 Ilustrada

‘Nuremberg’ expõe tribunal que condenou nazistas – 24/03/2026 – Ilustrada

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Quem pensa em Nuremberg, a cidade onde aconteceu o célebre julgamento do Estado Maior nazista em 1946, pensa no ato de fazer justiça. Pensa também em um momento em que a humanidade, juntou-se contra um inimigo generalidade. É por aí também que vai o novo filme de James Vanderbilt, ao retomar o confronto ali registrado entre o totalitarismo brutal e o pensamento humanista.

Oriente foi, em todo caso, o legado de “O Julgamento de Nuremberg” (1961), de Stanley Kramer, e de centenas de documentários sobre o objecto. Ali a monstruosidade nazista foi julgada. Mas não só ela, pois 1946 foi esse momento fugaz do mundo, em que todos os países aliados, incluídos EUA e URSS, partilharam a teoria de justiça e buscaram estabelecer um modo de convívio internacional fundado em leis que valessem para todos.

Digamos que nesse momento todos souberam notabilizar o perceptível do inverídico, o justo do injusto, criaram tribunais que valem, valeriam ou valeram para todos. Um tanto que começou a se estilhaçar logo em seguida, admita-se.

É desse estilhaçar que trata o filme de James Vanderbilt, que corre o risco de desgostar todos aqueles para quem verdades históricas são imutáveis. Sobretudo quando se tornam verdades cinematográficas, ou seja, visíveis.

Muito, de 1946 a 2026, as coisas e os tempos mudaram. Desta vez, o confronto mediano do filme se dá entre Hermann Goering —o número dois do regime nazista— e Douglas Kelly (Rami Malek), o jovem psiquiatra do Tropa eleito para desvendar e entender a mente perversa do líder nazista.

O que se passa a seguir leva o filme a caminhos não exatamente convencionais, pois saber o outro é dialogar. E Kelley, diante de um personagem teratológico, se obriga a questionar o que leva um varão a se tornar um monstro?

A pergunta é mais incômoda do que parece: o que distingue um do outro, mormente em uma situação de guerra? O diálogo introduz a anfibologia num sistema que até hoje marcou um vasqueiro momento unívoco da humanidade: o da pena ao nazismo.

Vanderbilt aceita a anfibologia —tanto quanto o psiquiatra. É a partir daí que o filme se abre a incômodas questões. Cá e ali algumas palavras escapam da boca de Goering que abalam nossas velhas certezas e nos arrastam a preocupações muito atuais. Por exemplo: qualquer guerra pode levar a um conflito mundial. Lembra um tanto? Ou, se os nazistas mataram criminosamente 6 milhões de judeus, extinguir 150 milénio civis em Hiroshima, em unicamente um dia, não seria também um delito?

Questões que levam a pensar que Kelley, herói do saber psiquiátrico e da vitória aliada, talvez não seja tão heroico e sábio assim, e o vilão nazista nem tão vilão assim. Oriente último é um varão recluso na engrenagem da roteiro na Primeira Guerra, na humilhação e aniquilação da Alemanha que se deu portanto. Kelley, uma vez que nós, está recluso na engrenagem da vitória de 1945.

A guerra e o morticínio daí decorrente é o problema, na visão de Vanderbilt. Estamos portanto diante do presente angustiante e, ao mesmo tempo, de um filme antibelicista feito no exato momento em que os EUA estão envolvidos em guerras no Irã, na Palestina, e em intervenções na América Latina (por ora, Venezuela e Cuba), sem recontar as guerras comerciais.

A frase seguinte que o filme deixa evadir uma vez que quem não quer zero é mais ou menos esta: pode ser portanto que uma secção considerável da população dos EUA (mas não só de lá) possa agir de forma semelhante aos nazistas?

Em outras palavras, as ideias de muito e mal, perceptível e inverídico e mesmo de humano e teratológico parecem muito relativas quando estamos diante de um fenômeno tão brutal quanto a guerra e de um face a face com um varão que sabemos previamente sentenciado.

O que nos leva à obviedade seguinte, proferida por Goering, quando diz: vocês só estão me julgando porque ganharam a guerra.

Isto é, os que ganham julgam os perdedores. Esta é a lei. E oriente é o ponto de Vanderbilt: o recta internacional forjado em Nuremberg tem um tanto de fisionomia de justiça. E, por ser aparente, pode se desmilinguir com certa facilidade. O recta de julgar quem estabelece é o mais possante.

Uma vez que é quase impossível não pensar nessas coisas sem pensar na política estadunidense atual para o mundo, o Oscar houve por muito olvidar de “Nuremberg” em obséquio de algumas nulidades.

Entende-se: a Ateneu de Hollywood não tem força para promover um filme que, no fundo, discute as práticas do governo atual daqueles país. Tem poder unicamente para barrar um filme que abdica da ousadia formal para deixar mais simples o pensamento de seu responsável (um filme de roteiro, se se quiser, já que Vanderbilt é um roteirista). Também cá, julga quem tem poder.

Questionar certas crenças históricas que parecem imutáveis, no entanto, é função óbvia da arte. E “Nuremberg” presentifica a questão ao postular que a monstruosidade da guerra é a mais vasta: o nazismo é unicamente secção dela.

Vanderbilt não está distante, nesse ponto, de outra iconoclasta, Hannah Arendt, a pensadora do totalitarismo.

Para Arendt, que teve de fugir da Alemanha nazista, a vida seria coisa maravilhosa, não fosse a história humana uma sucessão de infâmias. Arendt correu riscos pessoais e intelectuais a vida inteira. Vanderbilt arriscou-se também, ao lembrar que o totalitarismo não é privilégio só do lado de lá (seja qual for). Pode estar muito sob nossos narizes e sob formas insidiosas. Decifrá-las é o duelo de quem ainda pretenda viver em liberdade. Por propor esse duelo é que “Nuremberg” é tão interessante e, sobretudo, tão atual.

Por término, é impossível não perceber o quanto Russell Crowe está formidável em sua constituição de Goering.

Folha

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