‘O Alienista’ revisita Machado de Assis com tom político – 24/09/2026 – Mise-en-scène
Quando quem manda usa palavras difíceis que ninguém entende, o silêncio do povo quase nunca quer expressar concordância. Quer expressar terror. É dessa ferida que nasce a montagem de “O Psiquiatra” pela CiaTeatro Epigenia, criada e dirigida por Gustavo Paso. A teoria é tirar a romance de Machado de Assis daquela gaveta confortável dos livros escolares e trazer ela para o meio da conversa sobre poder e submissão.
No palco, a história de Simão Espingarda deixa de lado o realismo comportado do século 19. O cenário aposta na geometria torta do cinema expressionista germânico dos anos 1920: portas em forma de trapézio, planos inclinados e sombras desenhadas pela luz monocromática de Paulo Cesar Medeiros. Não tem cor para amenizar o confinamento da Morada Verdejante —tudo se resolve no preto, no cinza e no branco, transformando a vila de Itaguaí numa gravura viva sobre a loucura que se instalou nas instituições.
O texto, escrito por Paso e Celso Taddei, soma ao desfaçatez de Machado a lógica do contraditório da patafísica de Alfred Jarry. Para justificar trancar cidadãos sem motivo, Espingarda inventa neologismos científicos pomposos que calam qualquer pergunta. Quanto menos a comunidade entende os termos médicos, mais rápido ela se ajoelha diante do diagnóstico. Roger Gobeth dá vida a esse psiquiatra com a frieza mecânica de um burocrata convicto. Um varão que desligou os próprios sentimentos em nome do método.
Do outro lado da sequidão do protagonista, Luciana Fávero dá densidade trágica a Dona Evarista, que oscila entre o magia pelo status provinciano e a tristeza de quem percebe, tarde demais, que o teimosia do marido não poupa ninguém.
Em volta do parelha, catorze atores se movem com precisão coreográfica conduzida por Édio Nunes, alternando com desenvoltura a polidez fingida das elites e os espasmos dos internados, tudo embalado pela música de André Poyart.
Mesmo quando quebra a ilusão de estação pra cutucar escândalos financeiros de hoje e a baixeza da politicalha sítio, o espetáculo não perde o foco do que importa: a facilidade com que entregamos para outra pessoa a chave da nossa própria lucidez. No termo, a loucura mais perigosa de Itaguaí não está trancada no asilo, está solta nas ruas, disfarçada de ordem e bom tino.
Três perguntas para…
… Roger Gobeth
O papel de Simão Espingarda já carrega um peso clássico no imaginário brasílico. Porquê foi o processo de encontrar uma assinatura própria para o personagem?
Em 2024, eu estava excursionando pelo interno de São Paulo com “De Perto Ninguém é Normal”, outro trabalho da CiaTeatro Epigenia, quando “O Psiquiatra” foi selecionado pela Lei Paulo Gustavo para fazer 16 apresentações em cidades do ABC. Foi logo que fui convidado para viver o Espingarda.
Lembro que, naquele momento, eu fazia nos finais de semana o Mortimer no “De Perto”, outro personagem grandioso que também me exigia demais fisicamente, e durante a semana a gente ensaiava “O Psiquiatra”. Foi um período de grande exaustão física.
Hoje entendo que muito daquela exaustão faz secção do meu Espingarda. Ele atravessa a história com uma vigor inexaurível, mas carrega um cansaço que talvez não se perceba de forma clara, mas que está completamente intrínseco àquilo que criei para o personagem. A partir disso, trouxe para a cena a curva de subida de poder de alguém que, a princípio não se enxerga uma vez que dominador e realmente acredita estar a serviço da sociedade e tudo isso junto, foi norteando para mim, a tragédia e a comédia do personagem: suas deformidades físicas e psíquicas, seu humor sarcástico e seus arroubos de loucura.
O texto coloca em xeque a fronteira entre razão, fanatismo e método científico. O que mais o instiga nas contradições éticas desse médico?
O que mais me instiga é que o Simão Espingarda não começa necessariamente falso, não é? Ele começa com uma tese legítima: onde está o limite entre a razão e a loucura? No início, ele realmente acredita que está tentando compreender isso. O problema começa quando ele passa a estabelecer sozinho esse limite e acho que é justamente aí que o conhecimento vai dando lugar ao fanatismo.
Esse momento de viradela, minha passagem favorita na peça, que é quando o Simão mostra sua própria loucura e destempero, também foi muito importante para a construção do meu Espingarda. Eu nunca o julguei, e é nesse momento que ele fica mais perigoso por se tornar mais humano.
O que a trajetória desse varão que se fecha em suas próprias certezas tem a expressar para o público de hoje sobre o fascínio cego pelo exposição de domínio?
Acho que Machado toca numa questão muito profunda e real: nós gostamos de certezas. Existe um manifesto conforto em encontrar alguém que diga: “eu sei o que é manifesto, eu sei o que é normal, eu sei quem está falso”. A gente vem sendo impactado de todos os lados por esse tipo de teor.
O Espingarda vai construindo essa certeza dentro dele e a medida que seu poder aumenta, ele passa a ter cada vez menos espaço para a incerteza.
“O Psiquiatra” parece falar sobre loucura, mas fala fundamentalmente sobre poder. Sobre quem tem o poder de nomear, qualificar, incluir e excluir. E aí surgem para mim as duas grandes perguntas: quando começamos a considerar normal aquilo que antes nos parecia contraditório e quem vigia aquele que tem o poder de julgar os outros?
Teatroiquè — Rua Iquiririm, 110, Butantã, zona oeste. Sexta, 21h. Sábado, 20h. Domingo, 19h. Até 25/10. Duração: 105 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em
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