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'O Aniversário' tem boas ideias, mas um roteiro frágil
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‘O Aniversário’ tem boas ideias, mas um roteiro frágil – 10/10/2026 – Ilustrada

Quem assiste aos primeiros dez minutos de “O Natalício” certamente terá uma grande surpresa pelas duas horas seguintes. O longa começa na sarau de 25 anos de casados de Ellen e Paul Taylor. Um de seus filhos, Josh, traz pela primeira vez a novidade namorada, Liz, e fica evidente o incômodo da mãe do rapaz diante da verosímil nora.

Na verdade, “O Natalício” é uma parábola política. O roteiro mostra uma vez que os Estados Unidos são arrastados por uma vaga conservadora, que rapidamente surge uma vez que influência ideológica para, em pouco tempo, se transformar em vexação violenta.

O embate entre Ellen, uma professora liberal da universidade de Georgetown, e Liz, uma escritora iniciante, não é uma incompatibilidade corriqueira entre sogra e nora, tão generalidade em dramas e comédias leves.

A jovem apresentou ideias totalitárias num trabalho acadêmico, defendendo um Estado de partido único. Ellen contestou claramente o trabalho de Liz, que deixou a universidade.

Durante a sarau, Liz presenteia Ellen com seu livro recém-lançado, escrito em parceria com Josh, que tenta ser um romancista. O título pode ser traduzido por “A Mudança: O Novo Contrato Social”. Antes de ir embora, Liz fala à anfitriã que não tem mais pavor dela.

A seguir, o filme irá seguir os cinco anos seguintes, nos quais “A Mudança” se torna cada vez mais influente na meio política do país. Um vídeo viraliza com as imagens de Ellen atacando uma bandeira do movimento político Mudança, o que depois vai provocar sua saída de Georgetown.

O filme segue mostrando o progressão do domínio conservador e seus efeitos na família Taylor. Paul, o marido de Ellen, tem um restaurante. Josh, que ganha popularidade e sucesso na carona de Liz, tem três irmãs: Cynthia, advogada ambientalista, Anna, uma comediante stand-up de militância lésbica, e a jovem Birdie, que deseja ser investigador.

Todos são de alguma forma atingidos pela Mudança, principalmente Anna, que é espancada depois de um show no qual faz críticas diretas ao movimento. Ela acaba fugindo, e surge a hipótese de que já esteja morta.

O diretor polonês Jan Komasa lançou alguns filmes curiosos e inusitados em seu país. O mais badalado é “Good Boy”, no qual um jovem delinquente passa por um processo de reparação transportado por um par que o trata uma vez que se fosse um cachorro. Nesta estreia no cinema americano, Komasa tem uma teoria poderosa, mas com um roteiro sem a discussão política que permitiria.

A edição do filme é muito boa, dando um ritmo de thriller que segura a opção de retratar um período longo em um filme de duas horas. Fica a sensação de que a teoria poderia render melhor numa série. O roteiro absorveria mais histórias paralelas.

Liz é uma personagem que certamente cresceria mais com outra atriz no papel, porque Phoebe Dynevor tem evidentes limitações. Mas são ótimas as atuações de Diane Lane e Kyle Chandler, uma vez que Ellen e Paul.

Na verdade, “O Natalício” se dá melhor em sua faceta thriller do que na resguardo de discussões políticas sobre autoritarismo. Falta consistência aos posicionamentos de todos diante da Mudança.

O movimento funciona mais uma vez que um detonador das ações na tela do que uma vez que verdadeiro objeto médio do filme. Os melhores momentos estão mesmo no embate direto da família com a novidade sociedade americana. Muito se fala sobre famílias divididas por idealismo político, mas “O Natalício” avança pesado nisso.

Algumas ideias são perturbadoras. Por exemplo, quando Josh decide ajudar o pai no restaurante, mas Paul começa a suspeitar que o fruto possa estar fazendo isso para desvendar o paradeiro de Anna para sua conquista.

O irmão, antes inseguro diante de seu talento uma vez que redactor, agora caça uma acuada mana que antes era a força militante da família.

“O Natalício” foi lançado no ano pretérito, mas em vários países está chegando só agora às listas dos mais vistos no streaming. Revérbero do progressão da direita pelo planeta? Talvez.

Mas Komasa poderia ter aproveitado essa conexão com as discussões políticas reais para um filme mais contundente. Era verosímil desenvolver mais as ideias da Mudança, talvez deixando um pouco de lado o jogo de gato e rato entre resistentes e opressores.

Folha

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