Uma das máximas da psicologia do revolucionário é que quase todos os que formam a infantaria de processos políticos disruptivos são gente medíocre. As revoluções políticas se alimentam de paixões tristes, uma vez que ódio, ressentimento e inveja. Pensar o contrário é uma das principais razões para não se entender o que as revoluções políticas são e uma vez que evoluem. Dê-me alguém para odiar e invejar e serei um revolucionário submisso.
A teoria de que revoluções políticas seriam movidas por intenções generosas de melhorar o mundo é uma lapso na estudo do que a natureza humana revela na história. Não vou me ocupar cá com as críticas ao concepção de natureza humana que circulam pelo mercado das ideias. Para mim, perde-se tempo ao se considerar fora de tendência a antropologia filosófica —disciplina que se ocupa das concepções de ser humano— em nome de um relativismo de butique tão generalidade hoje em dia.
Para mim, basta levar em conta o que diz o historiador suíço Jacob Burckhardt, do século 19, acerca da história no seu “Considerações sobre a História Universal”. Para se pensar numa filosofia da história, em vez de se levar em conta a crença na perfectibilidade humana, uma vez que o faz Hegel na sua sofisticada teodiceia, melhor seria levarmos em conta o que na história se repete incessantemente. Refiro-me ao que se manifesta, de modo entediante, no comportamento das pessoas, das nações e dos povos: as paixões tristes, baixas, covardes e oportunistas, motores clássicos da política desde sempre.
Porquê diz o historiador suíço, o que chamamos de “verdade histórica” é o “movimento pendular de desagregação e reconstrução” que caracteriza a imensa variedade da história e suas civilizações. A humanidade se decompõe e se reconstrói à medida que faz sua história. E assim continua até hoje, mesmo que alguns suponham que a desagregação acabou. A ruinoso é nossa moradia.
Terminada a passeio epistemológica, voltemos ao nosso objeto: as revoluções políticas são movidas por paixões negativas uma vez que ódio, inveja e ressentimento. Ao contrário do que possa parecer, aqueles que seguem, de forma apaixonada, as revoluções, são, de forma universal, medíocres.
Se Lênin, Trótski, Robespierre, Napoleão eram homens excepcionais —o que não significa que eram homens bons ou honestos—, os seus seguidores, pelo menos a esmagadora maioria, eram homens de vida medíocre, sem grandes dons intelectuais ou morais. Se você quiser encontrar um cão submisso e leal às revoluções, busque nas hostes dos incompetentes e irrelevantes.
Gente uma vez que o protagonista do grande romance de Anatole France sobre a Revolução Francesa, “Os Deuses Têm Sede”, o pintor Évariste Gamelin, é um exemplo clássico. Artista fracassado, pintor medíocre, cidadão miserável, grande republicano do período jacobino da Revolução Francesa. Um fanático pleno da novidade França. As adesões políticas apaixonadas respondem a estruturas doentias da personalidade uma vez que qualquer outro tipo de sintoma avassalador de comportamento.
Exemplo? O medíocre Gamelin, diante da confissão da sua namorada, a cidadã Élodie Blaise, de que já havia sido possuída por outro varão —portanto, não era virgem— constrói na sua mente toda uma teoria de que o refece que a havia violentado era um “royaliste émigré”, portanto, um traidor da república francesa, patrono do macróbio regime, um monarquista exilado.
Élodie sabe que o melhor para eles, dada a quadra em que viviam e a devoção revolucionária que animava a psique do pobre artista fracassado, era que assim ele o cresse, e, por isso, diz que seu sedutor era “dessa laia”. O deflorador da puro moça só podia ser um traidor da revolução.
Na verdade, Élodie havia se entregado àquele jovem por pura paixão, “ofereceu-se” a ele com o prazer de ser possuída por ele, ainda que ele a tivesse esquecido, posteriormente, por damas mais promissoras para sustentá-lo. Ainda naquele momento, em que ela se confessava ao seu novo paixão, um rapaz inexperiente nos amores de uma mulher —Gamelin, o revolucionário perdidamente enamorado pela república—, Élodie sentia seu peito flagrar de libido e ser tomada pelo gozo típico de uma mulher que ainda se entregaria ao macróbio amante. Para Gamelin, a teoria de que Élodie tivesse “ouvido os conselhos da mesocarpo e do sangue” e se entregasse à pura voluptuosidade parecia-lhe impossível.
Cá, o responsável demonstra sua fina compreensão da psicologia do fanático revolucionário leal —um profundo ignorante acerca da psique humana, cujos olhos são vazios. Ainda vemos esse tipo de psique medíocre hoje nas hostes polarizadas, exalando seu ódio, sua inveja e sua fanatismo.
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