O Diabo Veste Prada 2 tem crise no jornalismo e menos moda – 05/05/2026 – Ilustrada
De vez em quando os executivos de Hollywood despertam de um longo sono e lembram que Hollywood já foi Hollywood e decidem fazer um filme uma vez que faziam antes de mergulharem na sua burocrática tropa de super-heróis. Levante “O Diabo Veste Prada 2”, por exemplo.
Podia ser uma bobagem extraordinária, a mera exploração de um sucesso de 20 anos detrás. Mas é uma surpresa, e merece atenção por mais de um motivo.
Primeiro, por executar um oportuno deslocamento. Se no primeiro filme a voga era o tema, cá já de início percebe-se que é mais um secundário, embora indispensável. No início deste século, a voga era o núcleo da cultura no Oeste. Esse tempo passou. Tanto os produtores notaram isso que, logo na rombo do novo filme, é de jornalismo que se trata.
Andy, papel de Anne Hathaway, ex-funcionária na revista de voga da terrível Miranda, vivida por Meryl Streep, agora é uma jornalista investigativa. Logo antes de receber um importante prêmio, no entanto, ela recebe uma mensagem dizendo que toda a equipe do jornal em que trabalha foi demitida.
Por quê? Novas diretrizes na corporação, economia de recursos, mais uma série de motivos que nos levam ao coração do filme nesta primeira secção. O mundo do jornalismo, tal uma vez que o conhecemos até o início dos anos 2000, acabou.
A boa informação já não é impressa. Chega pela internet. No mais, ela interessa pouco. Os cliques é que valem. Esta é uma mudança precípuo das últimas décadas, o esvaziamento das redações, os jornais encalhados nas bancas, vendidos para que os pets façam suas necessidades.
Por sorte, Andy consegue uma boa colocação na Runway, a revista que Miranda comanda com mão de ferro. No momento, a publicação está na lona por motivo de qualquer escândalo, e nessa hora é bom ter um jornalista de talento por perto. Mas o início de Andy é um fracasso. Ela produz ótimos textos, lidos somente por pessoas importantes, mas quem se interessa por isso? Faltam os cliques.
Posso estar equivocado, mas não me lembro de nenhum filme que tenha tratado da transformação que atingiu a cultura no início deste século, e da qual os jornais e revistas são de trajo os sinais mais evidentes.
Faz sentido, portanto, Andy invocar a nossa atenção para a crise que eliminou uma quantidade enorme de empregos de profissionais, substituídos de subitâneo na percepção das pessoas por um batalhão de influencers e caçadores de cliques.
O retorno implica refazer relações do primeiro filme. E, convém lembrar, ele terminava com Andy largando Miranda, esnobando o mundo da voga. Andy virou uma repórter sem perder a ternura.
O jornalismo é uma profissão difícil, que supõe provas reiteradas de caráter e honestidade. E ter caráter no jornalismo significa muitas vezes ser impiedoso. É uma profissão um tanto insalubre. Conseguirá a gulodice Andy se manter supra dessas questões, agora que volta a um meio tão pantanoso quanto o das edições de voga?
Com isso, vai se introduzindo aos poucos a segunda questão que afetará o filme. Quando Andy retorna à Runway, a indústria da voga enfrenta uma transformação tão profunda quanto a da prelo. Agora não é mais um meio de milionários e bilionários, mas de zilionários e celebridades —do esporte, da música, da voga ou do simples trajo de serem célebres. O que conta, no entanto, são os zilionários, que ali se materializam nas figuras de Benji Barnes e de sua antiga mulher, Sasha.
Benji é absolutamente rico, uma riqueza que deriva para a inutilidade (o que fazer com tanto verba?), de maneira que fica presenteando a namorada, Emily (a antipática pequena do filme anterior), com quadros de Matisse, Manet ou similares, sem relatar os colares e tal. Mas o maior presente que ele poderia dar à namorada seria a compra de Runway, a revista.
O que não seria grande problema, pois, com a morte do macróbio proprietário, o fruto e herdeiro mostra-se muito à vontade com os novos métodos —supressão de empregos e a economia de despesas produtivas.
Em resumo, cá o filme começa a nos introduzir nos efeitos do neoliberalismo. E a própria Emily nos lembra que “agora só o que dá lucro é o prêt-à-porter”. O que faz sentido —a subida costura seria uma espécie de outdoor das grandes casas, que produzem não vestidos, mas arte. A segunda risca pode servir, portanto, a uma classe média enriquecida, porém subalterna.
Mas não é isso que o filme vê uma vez que questão, mas sim a formação de formidáveis monopólios. Assim uma vez que a Paramount comprou a Warner, que por sua vez tinha comprado HBO e mais uns tantos, agora a Runway está sob risco de perder sua psique. Um poder monopolista e absolutamente alheio à sua natureza pode abocalhá-la. Aparecerá um outro mais ou menos igual para salvá-la? Ou ainda, seria melhor se a Warner acabasse absorvida pela Netflix?
São questões dessa natureza, das quais a ficção hollywoodiana quase sempre acaba se desviando, que nascente filme revela em suas imagens.
É evidente, sempre se poderá expressar que certas coisas fazem pouco sentido. Por exemplo, que uma jornalista uma vez que Andy troque de roupa a cada sequência. É verdade também que seu bom-caratismo permanente infantiliza o filme —e a personagem.
Sempre se poderá expressar que a série de reviravoltas —envolvendo seja a revista, seja algumas das personagens principais— é sintético e somente serve para estancar uma convenção.
Mas esses aspectos me parecem secundários diante daquilo que o filme leva ao testemunha e que rompe com a perenidade esperada para uma sequência. Há, por exemplo, momentos de humor quando Miranda aparece tendo de dividir uma fileira de poltronas da classe econômica de um avião com o comedor de um sanduíche tremendo. Ou quando, tendo de ceder às reclamações feitas ao compliance, precisa ela própria zelar o seu casaco em vez de jogá-lo na mão do primeiro que aparecesse.
No precípuo, porém, a transformação de Miranda acompanha a mudança dos tempos —ela já não é a arrogante ditadora da voga do filme anterior, mas a guardiã de um bom paladar que vigorava nos velhos tempos, agora ameaçado pela vulgaridade da novidade era dos zilionários.
“O Diabo Veste Prada 2” observa com acuidade um mundo em transição rápida e radical, no qual cada um tem que se virar uma vez que pode. Uma vez que bom narrativa de fadas hollywoodiano, a simpática Andy vai se dar muito muito na novidade era.
O público, no entanto, parece perceber que o filme observa as dificuldades da transição para um mundo pós-industrial que ninguém ainda sabe no que vai dar. O público também parece entender que alternativas de trabalho viram pó com a mesma rapidez com que o tarefa de Andy no jornal em que trabalhava, no início do filme, desaparece.
Enfim, a novidade era está aí —ao desfilar seus Prada ou Versace, os zilionários se apossam de mais e mais coisas. Nós, espectadores, esperamos em suspense para saber no que tudo isso vai dar.





