'O Drama' se limita aos americanos ao tratar a psicopatia

‘O Drama’ se limita aos americanos ao tratar a psicopatia – 07/04/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O melhor de “O Drama” é seu início, desde o encontro entre Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya). O estilo é ligeiro e manipresto, uma vez que se acompanhasse certa felicidade em torno do par, que não vagar muito pretende mesmo se tornar um par.

É um momento de notações bastante sensíveis, uma vez que Charlie entender que uma das razões de se ter enamorado pela pequena foi seu modo de rir. Com efeito, as paixões podem nascer de traços que talvez outras pessoas nem notem, mas que por qualquer razão chamam a atenção de outro. No caso de Emma, Charlie se sente atraído pelo seu modo de rir, que no entanto reconhece excessivo, um tanto estranho.

Já namorados, a caminho do himeneu, num desses encontros entre amigos, que Emma conta o que fez de pior em sua vida: planejou guerrear a escola em que estudava, promover um morticínio e depois se matar. Não fez zero disso, é evidente, mas o que diz é o bastante para deixar transtornada a amiga Rachel, que não hesita em tomá-la por psicopata.

Rachel vive um traumatismo muito pessoal com esse tipo de massacre: uma prima, vítima de um ataque dessa natureza, tornou-se paraplégica por conta de um deles.

Esse é o momento em que o filme talvez se torne mais próximo de uma plateia dos EUA —onde eventos dessa natureza são tristemente frequentes. Cá tenderíamos mais a invocar de psicopatas os responsáveis por, por exemplo, assassinatos de mulheres —também tristemente frequentes.

O que cobre a termo psicopata é uma questão, talvez seja mesmo o drama de “O Drama”. Emma explica que isso se deu em sua puberdade, num momento em que sofria bullying violento na escola. Uma vez que não levou o projecto adiante, tudo se limitou a uma espécie de ficção macabro, que ela acabou sublimando em seguida, ao entrar em um movimento antiarmas e até mesmo, em seguida, jogar o rifle do pai (que era policial) fora.

Curiosamente, Rachel praticou uma malícia, também nos tempos de escola, de que não teria motivos para se orgulhar. Mas, tudo muito. O problema do filme não é exatamente esse.

E sim o traje de que o uso da termo “psicopata” dar a sensação de que ocupa um lugar mediano na sociedade americana. Lançada em direção a uma pessoa, torna-se um estigma.

Talvez estejamos num momento em que a sociedade estadunidense passou a psicologizar certos eventos de maneira excessiva, talvez maníaca, pode ser.

O problema de “O Drama” é que patente mal-estar difuso na sociedade torna-se uma maldição na vida de Emma que se explica muito mal dramaticamente.

Finalmente, Emma cometeu um transgressão imaginário: não matou ninguém até onde se sabe. Uma vez que o caso de puberdade é evocado, podemos até compreendê-la: o bullying que sofre pode ser muito doloroso. Assim, pensar numa vingança coletiva é um tanto compreensível, quando a vítima não segmento para o ator, muito entendido.

Rachel não pensa assim, e até tem motivos pessoais para isso. No entanto, ela não está sozinha. O estigma lançado pela frase “psicopata” parece se difundir com certa rapidez. Rachel não está sozinha, várias pessoas parecem pensar a mesma coisa. Inclusive Charlie começa a ser atingido pela coisa.

É logo que isso se torna uma questão para o filme. Uma vez que ele não adere completamente à crença de Rachel e não torna a amiga (ou agora ex-amiga) uma assassina serial de filme de terror, uma vez que ao mesmo tempo não demonstra nenhuma compreensão que não seja, digamos, clínica, para o ocorrido, o filme passa a rodar em falso.

Ele poderia, por exemplo, tomar uma posição sátira em relação à maneira maníaca uma vez que as sociedades costumam reagir a esses fenômenos extremos. Mas esse não parece o caminho tomado por Kristoffer Borgli, que assina o roteiro e a direção do filme. Poderia desenvolver um viés crítico em relação ao bullying e seus perigos etc.

Com isso, o filme entra um buraco de onde trespassar se torna um problema, pois em vez de levar em conta um drama que atinge a todos (o bullying e sua decorrência, as matanças em tamanho) dedica-se a interpretar o caso privado de Emma, que na verdade torna-se de novo um caso de bullying, só que agora praticado pela ex-amiga.

Rachel vai se tornando um tanto obsessiva com essa história, e até mesmo o nubente, Charlie, passa a duvidar da prometida, de quem ela seja de traje sadia. E o filme não oferece um viés crítico capaz de reter nossa atenção.

Pode-se esgrimir que isso acontece porque essa espécie de transgressão, esses massacres, são até hoje raros no Brasil (apesar dos esforços dos cultores de armas de incêndio). Com isso, nossa empatia volta-se muito mais a crimes divulgados na TV e nas redes sociais e também tristemente frequentes no Brasil atual, uma vez que os assassinatos brutais de mulheres ou casos envolvendo policiais —uma vez que olvidar aquele que jogou uma de suas vítimas de um viaduto?).

Em suma, cada país tem seus problemas, seus “psicopatas” ou “sociopatas”, cuja catalogação nessas categorias serve para o restante da sociedade se sentir puro desse facto.

O testemunha brasílio pode, de todo modo, pensar que nossos problemas já são o bastante. Pode ser. Mas o traje de não se sentir implicado indica outra questão, que afeta o filme: certa incapacidade de implicar o testemunha com o drama que se desenrola diante dele.

Na verdade, o filme produz um falso problema: será que Emma tem transtorno mental ou não? E começa a rodopiar em torno disso, e a entrar em um buraco, junto com seus personagens.

Uma vez que se trata de um falso problema —saber se a moça era ou não psicopata—, o filme entra num buraco para onde arrasta os personagens e de que não consegue trespassar, pelo menos até a sequência final, bastante simpática e até surpreendente.

Seria injusto, no mais, não assinalar que filme a filme Robert Pattinson se afirma uma vez que um dos atores mais interessantes de sua geração, que Alana Haim (uma vez que Rachel) sofre, com razão, com o papel que lhe foi confiado e que Zendaya tem seu carisma. Em poucas palavras: pode ser que, na cultura de seu país levante filme possa até fazer alguma sentido. Mas, cá entre nós o drama em que se detém “O Drama”, parece, francamente, vir de outro planeta.

Folha

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