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'O Fim da Rua' é terror sem sustos fáceis
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‘O Fim da Rua’ é terror sem sustos fáceis – 12/08/2026 – Ilustrada


Há várias maneiras de entrar em “O Termo da Rua”. Pode-se estrear pelo final, por exemplo, quando David Robert Mitchell, responsável deste filme, homenageia seu pai. Mas também pode ser pelo início mesmo, quando outro pai de família, Greg Platt, vivido por Ewan McGregor, é chamado às falas pela mulher, Denise, encarnada por Anne Hathaway, durante a sarau comunitária que acontece na rua Oak, em 1982. Denise reclama da falta de atenção de Greg à família no exato momento em que ele se prepara para deixar a sarau a termo de, garante, fazer umas entregas de pizza.

Soa inconvincente. Denise está indignada —ela pode muito pensar que Greg mente e vai fazer outra coisa que não trabalhar. Seus dois filhos, Audrey e Brian, percebem a tensão, perguntam-se quando o parelha vai se separar. Não parece uma hipótese despropositada, até porque Denise está escrevendo um romance fartamente autobiográfico em que fala de seu libido de largar a cidadezinha —não sabemos qual é, nem onde fica— e a família.

Em suma, há um tanto inverídico nessa relação, que, além do mais, será partida pelos eventos fantásticos que levarão a rua Oak e cercanias a virar uma espécie de parque dos dinossauros —embora não criado pela mania de grandeza dos homens, uma vez que no filme de Spielberg.

Pretérito o primeiro espanto, o bairro e a família se veem no mundo dos dinossauros, ou seja, eles se veem jogados num mundo que precede a própria existência humana, ainda que a rua Oak mantenha suas casas, carros e rádios modernos. Com isso, a família se descobre num lugar submetido por horríveis predadores e, pior, contornado de muros enormes, de onde não têm uma vez que fugir.

O transe os unirá. Eis o primeiro postulado do filme. A família vem em primeiro lugar neste mundo. Neste mundo primitivo e neoliberal, em que não temos senão a família uma vez que socorro. É preciso que ela esteja unida se quiser ter uma mínima chance de sobreviver. É projecto uma vez que teoria, admita-se.

Mas há outros aspectos que são chamados à conversa. O primeiro deles é que Audrey, a filha, é uma leitora voraz. Admira o astrônomo Carl Sagan e sonha em ir à Universidade Cornell, onde ele lecionava. Audrey também é ateia, não acredita em Deus.

A família, aliás, não é fanática religiosa. Quando Greg diz que Deus os tirará dessa encrenca, Denise replica, dizendo que ele só vai à igreja no dia de Natal. Mais tarde, Audrey perguntará a Jeanette, a amiguinha que fazem ao longo da façanha, sobre sua fé em Deus. A jovem dirá que vive em incerteza sobre o ponto. O menino olha para as duas com ar de quem não entende esse papo teológico; em vez disso, começa a pensar que as duas talvez estejam iniciando um namoro.

Esse é o segundo ponto de base do filme. As mulheres são mais inteligentes que os homens. Através de Jeanette abrem-se mais duas questões que sustentarão o filme, a sexualidade e o racismo.

Quanto à primeira, convém notar à cena em que dois dinossauros transam encostados em uma mansão. Vale pelo humor. Transar é procriar, portanto, fabricar ainda mais transe para os humanos.

É outra cena que diz muito sobre as intenções de Mitchell. Fazer do impossível um tanto crível, talvez recreativo, naquilo que essa termo possa ter de sentido crítico.

Esses aspectos suscitados pelo filme podem não ser o que há de mais transcendente no vasto mundo do horror contemporâneo. Mas é preciso levar em conta outros aspectos significativos da direção. O primeiro deles é não fazer do terror um gênero fundado em sustos pregados ao testemunha. Mitchell joga limpo, o que é importante. Assim, a primeira ingresso de um ser teratológico é anunciada e preparada de modo a que nenhum testemunha se assuste com aquilo.

Desde portanto, Mitchell nos leva a um lugar povoado por monstros pré-históricos, o que coloca seu filme em sintonia com a teoria de que nosso mundo parece se aproximar do termo. Qualquer testemunha poderá reclamar de certa monotonia de um horror causado sempre pelos mesmos monstros. Mas será preciso permitir que Mitchell constrói um número considerável de situações buscando evitar essa monotonia.

Todas essas virtudes fazem de “O Termo da Rua” um filme que constrói com habilidade sua atmosfera, que sabe jogar com o tempo e os sonhos, embora não tenha o fundo mítico que os grandes mestres do fantástico contemporâneo trazem à luz —penso em Cronenberg, John Carpenter, George Romero. Mas não é impossível imaginar que, mais dia menos dia, David Robert Mitchell chegue lá.

E quanto à enfática homenagem prestada à figura paterna ao final do filme? Ela é muito evidente para ser ignorada, mas também muito ampla para ser interpretada levianamente. Talvez qualquer psicanalista se interesse por ela.

Folha

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