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O que restou da Little Brazil, na rua 46, em
Esporte

O que restou da Little Brazil, na rua 46, em Nova York – 10/06/2026 – Esporte

“É isso, mano, tá ligado?”, disse Fernando Fiore, 34, que se empolgou em uma discussão sobre a seleção brasileira. Para o paulista de São Bernardo do Campo, que atua há dois anos porquê garçom em Novidade York, o cliente tinha toda a razão ao indicar que o problema da atual equipe vernáculo é o salto elevado dos jogadores.

Fiore trabalha na rua West 46, em um trecho específico chamado de Little Brazil, entre a Quinta avenida e a Sexta avenida. Esse pedacinho da Big Apple, porquê é conhecida a cosmopolita cidade americana, já foi escravizado por estabelecimentos comerciais brasileiros, com um fluxo frenético de turistas vestidos de virente e amarelo nos anos 80 e nos anos 90.

Hoje, restam dois restaurantes.

Naquele em que está Fernando —entre imagens de sambistas, tucanos e figuras porquê Carmen Miranda e Santos Dumont—, a parede é ornada com pôsteres dos cinco times do Brasil que conquistaram a Despensa do Mundo, em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Mas até eles podem estar com os dias contados.

“Eu costumava colocar os cinco e também o time do ano, com uma interrogação: será que vem o hexa? Parei. Desta vez, eu nem quis colocar o sexto”, afirmou o possuidor do Via Brasil, Luís Gomes, 79, antes de adotar um tom jovial, quase cominador: “Se não lucrar agora, eu vou tirar os cinco. Chega!”.

Gomes montou seu restaurante em 1978. Viu o auge da Little Brazil, em uma quadra na qual se tornou generalidade brasileiros de classe média aportarem nos Estados Unidos buscando aparelhos eletrônicos —eram múltiplas as lojas da rua 46 que vendiam esses produtos, àquela profundidade muito mais baratos do que no Brasil. E resistiu a múltiplas crises.

“O pessoal vinha para cá comprar Atari [videogame clássico, sucesso nos anos 80]. Agora, apertam um botão, chega tudo. Tinha excursão que vinha, a molecada toda feliz… Aí, descobriram a Disney. O que vão fazer cá, nesta cidade suja?”, resmungou o mineiro, que passou a maior segmento de sua vida nessa cidade suja.

Mais do que a Disney, porquê observou a antropóloga Maxine M. Margolis no livro “Little Brazil – uma Etnografia dos Imigrantes Brasileiros em Novidade York”, de 1993, a queda teve direta relação com a elevação dos aluguéis na ilhéu de Manhattan. Subiram prédios gigantescos, hotéis luxuosos, e minguou o espaço para pequenos negócios.

Em 1984, quando o espaço ainda nem era espargido porquê Little Brazil, o jornal The New York Times publicou texto intitulado “Crise da dívida brasileira afeta um esquina de Novidade York”. Luís Gomes, o possuidor do Via Brasil, já lamentava na reportagem que a rua não era mais a mesma, mas ela sobreviveu a ponto de ser o enredo do Predomínio Serrano em 1999, “Uma Rua Chamada Brasil”.

Na narrativa do carnavalesco Mário Borriello —o mesmo do histórico “Peguei um Ita no Setentrião”, do Salgueiro de 1993, aquele do “explode coração”—, “um jovem brasiliano, aventureiro porquê todos os jovens, posteriormente muitos sacrifícios e dificuldades (principalmente para obter o visto), finalmente chega à cidade de Novidade York, pleno de sonhos e ilusões”.

O samba é assinado pelo bamba Arlindo Cruz, em parceria com Carlos Sena, Maurição e Elmo Castro. “Em procura de um novo eldorado, ô, viajei… pro melhor lugar do mundo, fui tentar a minha sorte na 46”, cantou Jorginho do Predomínio. “Vi o jeito brasiliano na Grande Maçã”, sorriu o tradutor, em rima que desaguava na “esperança de um novo amanhã”.

Não muito depois do desfile imperiano, a Folha noticiou em janeiro de 2000 que “a desvalorização do real foi o golpe de misericórdia para o reduto dos comerciantes em Novidade York, a rua 46”. O jornal apontava que, “das 18 lojas de brasileiros que se concentravam num único quarteirão, todas fecharam suas portas; ficaram só alguns restaurantes”.

Ainda assim, o sítio se manteve porquê palco de celebrações cheias de virente e amarelo. Uma delas se deu em junho de 2002, na conquista do penta.

“Começou a sarau: batucada, crianças, apitos, pulos e trenzinhos de Carnaval. A maioria era de imigrantes: brasileiros de todos os estados, de todas as idades e de todas as camadas da classe média, que vieram tentar riqueza, na esperança de que fazer a América do Setentrião fosse mais fácil do que fazer a América do Sul”, relatou na Folha Contardo Calligaris.

“Os brasileiros, vestindo as cores nacionais, embrulhados em bandeiras de vário feitio, dançavam por nostalgia da terreno deixada: celebravam, assim, o vilarejo, o calor das famílias extensas, a clara definição das tarefas da vida e do que se precisa para cumpri-las, o conforto de uma comunidade em que os lugares são poucos, mas, em ressarcimento, mais muito definidos”, observou o psicanalista italiano.

Esses brasileiros se reuniam também em festejo anual realizado por quase quadro décadas. No Brazilian Day, multidões se juntavam na junção da rua West 46 com a Sexta avenida, com atrações musicais porquê Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho. O evento já não ocorreu em 2025, e não há planos divulgados de realização em 2026, outro sinal de que restou pouco da Little Brazil.

A pandemia de Covid-19 fechou mais uma porção de portas na rua 46 em 2020 e 2021. Sobraram o Emporium Brasil e o Via Brasil, no qual o garçom Fernando critica atualmente os jogadores da seleção. E admite a falta que sente do Brasil, tal qual a personagem que é o fio condutor da apresentação do Predomínio Serrano de 1999.

No desfecho do samba e do desfile, o protagonista recebe uma missiva de sua mãe, uma baiana da escola de Madureira, que lhe costurou a fantasia de mestre-sala, à sua espera. Ele não resiste e volta, notório de que manteve o padrão de outra notória homenageada da clube virente e branca: “Parabéns, Carmen Miranda, que conseguiu, mesmo distante, não deixar de ser Brasil”.

Folha

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