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Libras sai do canto e ocupa espaço central em 'Língua'
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Libras sai do canto e ocupa espaço central em ‘Língua’ – 10/06/2026 – Ilustrada

No dia da estreia da peça “Língua”, em 2024, no Rio de Janeiro, o diretor Vinicius Arneiro percebeu que o público surdo entrava no teatro e, maquinalmente, se dirigia para os cantos da plateia, onde geralmente os intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) são visualizados com mais facilidade.

Ele ficou surpreso com o movimento e, ao mesmo tempo, percebeu que ele era óbvio. O público não ouvinte ainda não sabia que o espetáculo é totalmente inclusivo, criado e encenado em português e em Libras.

Naquele dia, com a ajuda de um tradutor, ele conversou com essas pessoas, as primeiras a chegar, e disse que elas poderiam sentar em qualquer lugar do espaço teatral.

Depois disso, “Língua” fez uma temporada bem-sucedida no Rio e apresentações na MITsp —Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Na primeira sexta-feira de junho, estreou no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, com apresentações até o final do mês.

Na estreia na capital paulista, deu para perceber que a comunidade surda se articulou para ver à peça. No saguão, vários grupos usavam Libras para se orar antes do terceiro sinal e, no final, os aplausos foram com as mãos balançando.

Dessa vez, ninguém teve dúvidas sobre a possibilidade de sentar-se em qualquer cadeira, sem a preocupação com a visualização do tradutor. A língua de sinais está em toda a encenação.

“Língua” acompanha uma sarau de natalício preparada por uma mãe para o rebento surdo. No encontro entre amigos, surgem as relações afetuosas, mas também os dilemas e as diferenças culturais. A peça mostra que ouvintes e não ouvintes compartilham a dificuldade humana de orar sentimentos.

O personagem principal, o taxista Matias, é interpretado por um ator surdo, Ricardo Boaretto. No elenco, três dos quatro atores ouvintes são fluentes na língua de sinais.

A dramaturgia de Arneiro e Pedro Emanuel ganhou o Prêmio Shell, edição carioca, no ano pretérito, e é um desdobramento de um projeto anterior, também bilíngue, apresentado no formato online pelo Itaú Cultural durante a pandemia, com um ator surdo em cena, Marcelo William.

“Esse projeto me deixou desejoso de desdobrar essa relação, essa irmandade entre Libras e português”, diz o diretor, um pesquisador das possibilidades da informação e da linguagem.

Na primeira experiência, William contou a Arneiro que só sentiu envolvimento emocional com uma peça quando já tinha 30 anos e viu uma montagem amadora e bilíngue do clássico “Romeu e Julieta”.

“Achei esse relato dele comovente”, recorda o diretor, que passou a pensar ainda mais sobre a situação apartada das pessoas surdas nas experiências artísticas.

A proposta dele é ir além da acessibilidade, assimilando a inclusão no processo criativo. Ao trabalhar com pessoas conectadas à comunidade surda, ele percebeu de forma mais enfática os abismos e os estigmas ainda existentes.

Arneiro prefere não romantizar o trabalho e afirma que a montagem enfrentou muitos desafios. “De indumentária, era um lugar até logo completamente incógnito em uma curso de 20 anos porquê diretor”, diz.

Em algumas ocasiões, ficou desorientado e sem ferramentas na sala de tentativa para entender porquê gerir a informação e transformar os impasses em elementos dramatúrgicos.

“Guiar um ator surdo, sem ser fluente em Libras, me coloca em uma estrato muito superficial de informação com o Ricardo Boaretto”, admite. A solução foi ter um ótimo tradutor ao seu lado.

A experiência foi de formação para o diretor, que aprendeu mais sobre a linguagem de sinais, e para o ator, que fez sua estreia em um espetáculo profissional.

Os dois, além do restante do elenco, tiveram que mourejar com uma informação enxurro de ruídos, desafiadora, mas também excitante.

Artistas e produtores surdos têm na Mostra Surda de Teatro, realizada em abril porquê segmento da programação do Festival de Curitiba, uma oportunidade de mostrar suas criações para o público e programadores artísticos.

Com dez apresentações e público de 1.600 pessoas, a maioria não ouvintes, a Mostra Surda de Teatro chegou à sua terceira edição leste ano.

A Capela Santa Maria, em Curitiba, recebeu estreias porquê “Sopro de Liberdade”, em que Emanuelle Laborit compartilha suas experiências, desafios e descobertas porquê pessoa surda; “Voz Invisível: Catharine Moreira”, performance poética que convida o público a interagir por meio da Libras; e “Gralha Azul Pinhão”, espetáculo que transforma a língua de sinais em instrumento de memória e preservação cultural.



Folha

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