'Os Esquecidos', de Buñuel, é recuperado em documentário 17/04/2026

‘Os Esquecidos’, de Buñuel, é recuperado em documentário – 17/04/2026 – Ilustrada

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O cineasta espanhol Javier Punhal é fascinado por seu genial conterrâneo Luis Buñuel. “Memória de ‘Os Esquecidos'”, atração de fechamento do 31º É Tudo Verdade, dá vazão a esse fascínio com uma boa ração de dedicação e pesquisa.

O longa “Os Esquecidos” é divulgado por simbolizar, em 1950, a volta em grande estilo de Buñuel ao cinema com “C” maiúsculo, depois de um período de dezessete anos em supervisão de documentários e outros trabalhos aquém de seu talento.

Era o terceiro longa que Buñuel filmava no México, país que o adotou posteriormente transpor da Espanha sob a ditadura de Franco. Seus dois anteriores, o fracassado “Gran Casino” e o bem-sucedido “El Gran Calavera”, são obras impessoais feitas somente uma vez que modo de sobrevivência.

“Memória de ‘Os Esquecidos'”, por sua vez, é o quarto documentário em que Javier Punhal procura entender o trajectória do maior cineasta espanhol de todos os tempos, posteriormente “El Último Guion”, “Trás Nazarín” e “Buñuel: Un Cineasta Surrealista”, filmes de natureza semelhante.

E para entender “Os Esquecidos”, Punhal investiga tanto o cinema mexicano dos anos 1940, subjugado pelos melodramas de Emilio Fernandez, quanto o trabalho anterior de Buñuel, principalmente o magnífico “Las Hurdes”, ou “Terreno sem Pão”, uma vez que foi chamado no Brasil, curta feito na Espanha em 1933 que seria uma espécie de antecipação em forma de experiência ao filme mexicano.

Se “Las Hurdes”, um documentário, incomodou as autoridades espanholas por mostrar um lado do país que ninguém queria ver, “Os Esquecidos”, uma ficção, incomodou por mostrar um bairro da periferia da Cidade do México onde adolescentes e crianças praticamente recebiam formação para se tornarem marginais.

A influência do neorrealismo italiano era poderoso no mundo todo, mas é verosímil manifestar que a anelo de Buñuel era dissemelhante: não era a denúncia, ou não “somente” a denúncia que o interessava. Seu cinema buscava a provocação para fazer o público pensar. Não é por contingência que Buñuel seja considerado um cineasta-filósofo.

Nessa provocação havia sempre o toque surrealista, cá sob a forma de sonho, uma vez que o da mãe que oferece ao rebento, no meio da madrugada, um enorme pedaço de mesocarpo crua, interceptado por Jaibo, o jovem maior que leva o menino para o caminho do transgressão.

No filme de Punhal, voltamos a “O Cão Andaluz”, o curta-escândalo realizado com Salvador Dali em 1929, e à obra-prima “A Idade do Ouro”, de 1930, que continuava, de modo ainda mais cinematográfico, o sonho surrealista iniciado no curta.

A conexão faz sentido. Se “Um Cão Andaluz” representou um primórdio na França, “A Idade do Ouro” representou outro, pois foi o primeiro filme que assinou sozinho. E “Las Hurdes” seria um novo primórdio, pois era o primeiro filme que dirigia na Espanha.

É uma vez que se Punhal dissesse, por meio da estrutura de seu filme e com pertinência, que Buñuel voltava de roupa ao cinema em 1950, com “Os Esquecidos”, seu terceiro filme mexicano, mas o primeiro que fazia jus à sua assinatura pessoal. Era portanto um novo primórdio.

De roupa, se sua filmografia mexicana é respeitada, a ponto de muitos a colocarem supra da francesa com a qual encerrou a curso, isto acontece sobretudo por pretexto de filmes uma vez que nascente, “Nazarín” ou “O Querubim Exterminador”, enquanto filmes comerciais uma vez que “El Gran Calavera”, mesmo que ele os fizesse muito e sem traição de suas convicções, seriam uma minoria nessa temporada.

“Memórias” entrevista críticos e estudiosos diversos que compõem um mosaico sobre o filme, o trabalho de Buñuel, sua parceria com o diretor de retrato Gabriel Figueroa, sua relação com o realismo social e com o surrealismo, enfim, com tudo que normalmente associamos ao seu cinema.

Passamos até mesmo por uma obra-prima de Arturo Ripstein, “El Lugar Sin Limites”, de 1978, onde reencontramos Roberto Cobo, o ator que interpretou Jaibo em “Os Esquecidos”, uma vez que o homossexual que se traveste em La Manuela.

Nesse sentido, é um filme muito rico, mesmo que não saia da fórmula das imagens de registo somadas às entrevistas, e mesmo que por vezes pareça fora do eixo, com imagens de outra era para ilustrar qualquer roupa ocorrido anos antes.

Sua melhor particularidade pode ser também a mais problemática dependendo do ângulo por onde se olhe: apesar de qualquer didatismo, talvez a viagem pelo cinema ao volta de Buñuel represente um risco. O testemunha que contornar esse tropeço verá um filme de interesse inegável.

Folha

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