Durante a final da Despensa do Mundo do próximo mês, em Novidade Jersey, torcedores de todo o planeta assistirão a um show de pausa com Madonna, Shakira e o grupo de k-pop BTS. A apresentação também contará com personagens da Vila Sésamo e dos Muppets, em um espetáculo que o presidente da Fifa (Federação Internacional de Futebol), Gianni Infantino, definiu porquê uma “celebração do futebol, da união e da humanidade”.
A programação reforça a influência crescente da cultura esportiva norte-americana sobre o futebol. Enquanto a Despensa do Mundo levará elementos típicos dos esportes dos EUA para dentro dos estádios, o verba de empresários do país já vem transformando o futebol europeu há mais de uma dez, com bilhões de dólares em investimentos, uma audiência doméstica em propagação e novos modelos de gestão.
O progresso desses investimentos, porém, gera controvérsias. Críticos argumentam que a procura por lucro está alterando a núcleo do esporte e ampliando desequilíbrios competitivos. Apesar da ingresso de investidores profissionais, os problemas financeiros dos clubes continuam longe de uma solução.
Segundo dados da CIES Sports Intelligence, norte-americanos controlam atualmente 117 clubes europeus, incluindo mais da metade dos times da Premier League, mais de um terço da Série A italiana e mais de um quarto da Ligue 1 da França.
Os efeitos são sentidos dentro e fora de campo. Os clubes passaram a priorizar mais os resultados comerciais, seguindo um protótipo semelhante ao dos esportes americanos. Isso impulsionou reformas financeiras, modernização de estádios e novas formas de geração de receita.
A Despensa de 2026 também refletirá essa influência. A Fifa introduziu pausas para hidratação de três minutos em cada tempo, justificadas pelas altas temperaturas de algumas cidades, mas que também criam espaço para publicidade. Os ingressos, mais caros do que em edições anteriores, seguem tendências do mercado norte-americano.
“A cultura dos EUA é tornar tudo maior, mais custoso e mais individual”, afirma Christina Philippou, perito em finanças do futebol da Universidade de Portsmouth. “Isso nem sempre funciona na Europa, onde o futebol também é visto porquê patrimônio cultural.”
A FORÇA DO DÓLAR
Mais de duas décadas se passaram desde que a família Glazer comprou o Manchester United, na primeira grande obtenção de um clube europeu por investidores americanos.
Nos anos seguintes, americanos assumiram o controle de clubes porquê Liverpool, Arsenal e Roma. Em 2018, quando a Fifa anunciou Estados Unidos, Canadá e México porquê sedes da Despensa de 2026, tapume de duas dezenas de equipes europeias já estavam sob controle de norte-americanos.
Desde portanto, esse número mais que quadruplicou. Grandes clubes porquê Arsenal, Inter de Milão e Atlético de Madrid estão sob comando de investidores dos EUA. O movimento também se espalhou para ligas menores na Europa e para mercados porquê Brasil e México.
Os investidores têm perfis variados. Alguns são apaixonados por futebol; outros atuam por meio de fundos que precisam gerar retorno dentro de prazos definidos. Entre os acionistas de clubes da Championship (segunda partilha inglesa) estão celebridades porquê Ryan Reynolds, Snoop Dogg e Tom Brady, além de fundos de hedge, empresas de private equity e bilionários.
“Os investidores do país são hoje os compradores dominantes do futebol global”, afirma Michael Kuh, do escritório Simpson Thacher.
Além da compra direta de clubes, o verba norte-americano também chega por meio de participações minoritárias, empréstimos estruturados e acordos de compartilhamento de receitas.
Clubes porquê Real Madrid e Barcelona, impedidos de vender participação acionária, captaram centenas de milhões de euros da gestora americana Sixth Street. Já Paris Saint-Germain e Manchester City contam com investidores americanos entre seus acionistas minoritários.
Analistas apontam vários fatores para essa vaga de investimentos. O número crescente de bilionários nos Estados Unidos ampliou a demanda por ativos esportivos, enquanto o número de franquias nas principais ligas americanas permaneceu praticamente sólido.
Ou por outra, o futebol oferece menos restrições à ingresso de capital. Fundos de private equity, por exemplo, enfrentam limitações para assumir o controle de equipes nas grandes ligas norte-americanas, alguma coisa que não ocorre no futebol.
Muitos investidores também enxergam potencial de propagação mercantil. Clubes europeus têm investido bilhões na modernização de estádios, ampliando áreas VIP e criando estruturas capazes de receber shows e outros eventos.
Outro fator é o preço. Enquanto franquias dos EUA atingiram avaliações recordes, os clubes europeus ainda parecem relativamente baratos. Segundo estimativas da Sportico, equipes da NBA são avaliadas em mais de 14 vezes suas receitas anuais, contra tapume de 4 vezes para os principais clubes europeus.
“Oportunidades semelhantes nos Estados Unidos ficaram caras demais”, afirma Gerry Cardinale, fundador da RedBird Capital e controlador do Milan.
O CRESCIMENTO DO ‘SOCCER’
O aumento do interesse norte-americano coincidiu com a pandemia, que deixou muitos clubes europeus pressionados financeiramente em seguida perdas bilionárias de receitas de estádio.
“Os clubes estavam sofrendo e precisavam de capital”, afirma Matt Bonass, do escritório Bird & Bird.
Para alguns investidores, o futebol também serve porquê forma de variar portfólios excessivamente concentrados em esportes americanos, cuja audiência global é menor. Enquanto os Lakers têm tapume de 25 milhões de seguidores no Instagram, o Barcelona supera 145 milhões.
Ao mesmo tempo, o futebol ganha espaço na cultura popular dos EUA. A chegada de Lionel Messi ao Inter Miami e o sucesso da série Ted Lasso ajudaram a ampliar a popularidade do esporte. Segundo a NBC, entre 35 milhões e 40 milhões de americanos acompanharam a Premier League nesta temporada.
O público também é jovem. Dados da YouGov mostram que 56% dos torcedores de futebol nos EUA têm entre 18 e 34 anos.
A prática do esporte também cresce. Depois de anos de queda, o número de participantes aumentou de 16,6 milhões em 2018 para 23,4 milhões no ano pretérito.
A Fifa está entre os maiores beneficiados desse movimento. A entidade espera recepcionar US$ 13 bilhões no ciclo encerrado com a Despensa de 2026, subida de 72% em relação ao ciclo anterior.
O investimento também impulsiona as ligas domésticas. As avaliações das equipes da Major League Soccer e da National Women’s Soccer League dispararam. Uma novidade franquia da liga feminina foi vendida recentemente por US$ 205 milhões, perante valores próximos de US$ 2 milhões poucos anos detrás.
O propagação da audiência americana elevou ainda o valor dos direitos internacionais de transmissão. Em 2017, emissoras dos EUA pagavam tapume de US$ 340 milhões anuais pelos direitos da Premier League, Champions League e La Liga. Neste ano, o valor se aproxima de US$ 900 milhões.
Esse verba fortaleceu diversos clubes europeus, mas também ampliou desigualdades. A Premier League recebe hoje mais da metade de sua receita de transmissão de mercados internacionais, tendo os Estados Unidos porquê principal natividade externa.
O fosso entre os clubes ingleses e seus concorrentes continentais continua aumentando. Enquanto o Aston Villa registrou receita de 378 milhões de euros na última temporada, o Freiburg arrecadou 163 milhões de euros.
O POÇO SEM FUNDO DO FUTEBOL
A crescente influência dos EUA alimenta tensões entre a lógica mercantil e as tradições do futebol europeu. Diversos proprietários americanos enfrentaram protestos de torcedores por aumentos nos preços dos ingressos, estratégias de múltiplos clubes e decisões consideradas excessivamente voltadas ao lucro.
A promessa de que gestores mais profissionais resolveriam os problemas financeiros do futebol também não se concretizou. Segundo a Uefa, os clubes europeus acumularam prejuízo superior a 1 bilhão de euro na última temporada, apesar de receitas recordes de 30 bilhões de euros.
Dos cinco clubes com maiores perdas, quatro eram totalidade ou parcialmente controlados por investidores norte-americanos. Na Premier League, 14 dos 20 clubes registraram prejuízo antes dos impostos.
Nos últimos cinco anos, Chelsea, Manchester United e Arsenal —todos sob controle norte-americano— lideraram os gastos líquidos em contratações.
Mesmo em divisões inferiores, as dificuldades persistem. Na Championship, onde quase metade dos clubes possui investidores americanos, os prejuízos conjuntos cresceram 25% no último ano.
Uefa e Premier League vêm endurecendo regras financeiras para tentar sofrear as perdas. Ainda assim, investidores apontam desafios estruturais, porquê o risco de rebaixamento e a carência de mecanismos mais rígidos de controle de custos.
Apesar das dificuldades, muitos acreditam que a Despensa do Mundo de 2026 poderá marcar um novo ponto de viradela para o futebol nos Estados Unidos.
“A Despensa de 1994 ajudou a produzir a MLS e impulsionou o interesse pelo esporte”, afirma Michael Kuh. “A Despensa de 2026 pode ter um efeito semelhante, ampliando a base de fãs e estimulando uma novidade vaga de investimentos.”





