Em “Memórias da Plantação”, a pensadora e artista Grada Kilomba recorre à metáfora do fantasma para refletir sobre a permanência do pretérito colonial no presente. Para a autora, o colonialismo não seria uma história encerrada, guardada nos livros ou confinada aos museus, mas uma presença que continua a organizar relações sociais, produzir desigualdades e assombrar aqueles que se recusam a reconhecer sua existência. O fantasma retorna justamente porque aquilo que deveria ter sido enfrentado permanece sem elaboração.
Pensei muito nessa metáfora ao seguir as eleições brasileiras. A cada ciclo eleitoral, somos surpreendidos por manifestações de racismo, misoginia, violência e autoritarismo, uma vez que se estivéssemos diante de fenômenos inteiramente novos. Indignamo-nos com certas declarações, assustamo-nos com os resultados, lamentamos a brutalidade dos discursos. Mas talvez a pergunta mais importante não seja por que esses fantasmas retornam, mas sim por que continuamos nos recusando a enterrá-los.
O Brasil é um país que nunca realizou os ritos fúnebres de seu pretérito colonial. Aboliu formalmente a escravidão sem reparar a população escravizada, proclamou a República sem democratizar efetivamente o poder, reconheceu direitos políticos às mulheres sem desmantelar as estruturas patriarcais que continuam a restringir sua participação, saiu de uma ditadura sem responsabilizar adequadamente seus agentes.
Em cada uma dessas passagens históricas, preferimos anunciar um novo tempo a enfrentar as violências que sustentavam o anterior. E, assim, os fantasmas permanecem entre nós. Permanecem nas instituições, nas relações de trabalho, na distribuição da riqueza, na organização das cidades, nas famílias e nas formas pelas quais aprendemos a reconhecer quem merece saudação e quem pode ser humilhado. Permanecem também na política, onde o ódio frequentemente se apresenta uma vez que coragem, a misoginia uma vez que resguardo da família e o racismo uma vez que simples opinião.
Não deveria nos surpreender que uma sociedade fundada sobre hierarquias tão profundas siga produzindo projetos políticos interessados em mantê-las. O que deveria nos inquietar é a capacidade de tratar essas manifestações uma vez que acidentes ou desvios, sem reconhecer a ininterrupção histórica que as torna possíveis.
É profundamente quimérico crer na teoria de que basta derrotar eleitoralmente uma candidatura autoritária para derrotar o autoritarismo. As eleições são fundamentais, mas não têm, sozinhas, o poder de transformar as estruturas que alimentam o ódio. Um fantasma não desaparece porque deixamos de vê-lo e tampouco desaparece porque conseguimos fechar-lhe temporariamente a porta.
A metáfora de Kilomba nos convida a compreender que o pretérito não elaborado continua exigindo reconhecimento, e reconhecer não significa só comportar que houve violência. É preciso assumir responsabilidades pelas consequências que essa violência segue produzindo e compreender que não existe reconciliação verdadeira sem justiça, nem democracia substantiva enquanto secção da população permanecer condenada a viver sob as hierarquias herdadas da colonização.
Precisamos realizar nossos ritos fúnebres superando a teoria de que enterrar os mortos é sinônimo de esquecimento. Enterrar os fantasmas do colonialismo, do racismo e da misoginia exige memória, verdade, reparação e transformação —uma instrução comprometida com a história do país, políticas públicas capazes de enfrentar desigualdades estruturais, instituições que não naturalizem a violência e uma cultura política que reconheça a pundonor humana uma vez que princípio inegociável. Exige desabitar a fantasia de que podemos erigir um horizonte democrático sem confrontar os fundamentos violentos do nosso pretérito.
Penso que essa é uma das tarefas mais urgentes que as eleições nos apresentam: não só escolher quem ocupará os cargos públicos, mas resolver que sociedade estamos dispostos a erigir. Porque uma democracia não se sustenta somente na resenha dos votos, mas também nas condições de existência daqueles que votam, que são eleitos e, sobretudo, daqueles que historicamente foram impedidos de participar plenamente da vida pública.
Que tenhamos coragem de olhar para nossos fantasmas, nomeá-los, enfrentar as estruturas que os mantêm vivos e, finalmente, realizar os ritos fúnebres que a história brasileira insiste em prolongar. A cada diferimento, eles retornam mais familiarizados com nossas instituições, nossas linguagens e nossos medos.
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