'Pai Mãe Irmã Irmão' pensa laços familiares em episódios

‘Pai Mãe Irmã Irmão’ pensa laços familiares em episódios – 08/04/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Quando Jim Jarmusch ouviu que seu filme “Pai Mãe Mana Irmão” tinha ganhado o Leão de Ouro no Festival de Veneza, em setembro pretérito, subiu ao palco sem saber uma vez que reagir à honraria. Por emoção, certamente, mas também por evidente constrangimento, já que o longa não figurava em qualquer lista dos mais cotados ao prêmio —o franco predilecto era “A Voz de Hind Rajab”, da tunisiana Kaouther Ben Hania, de potente oposição aos ataques de Israel à Tira de Gaza.

O cineasta americano evitou um exposição mais efusivo e se limitou a, humildemente, manifestar que ainda hoje aprende a fazer cinema a cada novo filme. Foi aplaudido, mas o prêmio soou uma vez que um anticlímax na sarau veneziana. Porquê se o presidente do júri, seu compatriota Alexander Payne, tivesse fugido de polemizar com as poderosas forças pró-israelitas que comandam o cinema em Hollywood, onde faz filmes, optando por uma solução mais tática: devotar um diretor prestigiado, mas ainda sem um prêmio sumo no rodeio dos maiores festivais.

O longa de Jarmusch passa longe da política —ao menos, de um evidente tipo de mensagem militante, que hoje em dia o espírito do tempo por vezes parece exigir uma vez que quesito fundamental para uma obra merecer láureas. “A arte não precisa falar de política para ser política, para mudar as coisas. Os artistas estão cá para nos transfixar a mente, para nos fazer sentir mais conectados com os outros e empáticos. É isso que a arte faz”, disse o cineasta, em Veneza, poucos dias antes de lucrar o Leão de Ouro.

Porquê o próprio título já sugere, é um longa que versa sobre relações familiares. É dividido em três episódios, sem relação direta um com o outro. No primeiro, Tom Waits interpreta um velhinho que mora em uma região montanhosa nos Estados Unidos, onde recebe uma rara visitante de seus filhos Jeff, vivido por Adam Driver, e Emily, interpretada por Mayim Bialik.

O encontro é estranho: ninguém sabe muito muito o que manifestar, e o trecho é uma profusão de falas tanto inusitadas quanto cômicas, mostrando o quanto as relações entre pais e filhos podem estar repletas de paixão, mas não vasqueiro vêm acompanhadas de muitos silêncios e mesmo mentiras.

“Provavelmente não é necessário, mas é inevitável que um pai minta aos filhos, em qualquer momento. Você quer apresentar uma certa imagem, você é um padrão a ser seguido”, diz Jarmusch, que começou a pensar no incidente menos a partir de alguma experiência familiar do que em qualquer personagem que lhe permitisse trabalhar novamente com Waits, a quem já dirigiu em alguns de seus filmes mais conhecidos, uma vez que “Daunbailó”, de 1986, e “Sobre Moca e Cigarros”, de 2003.

“Primórdio pensando em atores com quem quero fabricar um pouco. Logo desta vez pensei em Tom Waits. E, refletindo, achei que o Adam Driver uma vez que fruto dele seria interessante. E depois me ocorreu que a Mayim Bialik, que foi uma estrela-mirim da TV americana, poderia ser uma ótima mana de Adam. Não sei por quê… E, enquanto escrevi essa história, as outras duas começaram a tomar forma”, diz, referindo-se aos dois episódios seguintes que completam o longa.

O segundo, “Mãe”, tem similaridades com o primeiro. Mas ali a trama se passa na Irlanda e enfoca o relacionamento entre uma mulher sofisticada, vivida por Charlotte Rampling, e suas duas filhas de temperamentos quase opostos: a moderninha Lilith, interpretada por Vicky Krieps, e a conservadora Timothea, vivida por Cate Blanchett. Mais uma vez, o testemunha se verá diante de uma série de silêncios embaraçosos e situações inesperadamente engraçadas.

O terceiro incidente, “Mana Irmão”, que se passa em Paris, já destoa muito desse esquema dos dois primeiros. Ali, vemos os irmãos Billy, vivido por Luka Sabbat, e Skye, papel de Indya Moore, conversando sobre a morte dos pais, em um sinistro airado. Enquanto observam fotos e pertences dos genitores, eles relembram sua vida familiar pregressa, com humor e ternura.

“Para mim, são movimentos separados, uma vez que em uma peça músico. Não vejo os dois primeiros episódios uma vez que realmente semelhantes. O terceiro é, sim, dissemelhante porque é sobre perda. E os outros são sobre uma espécie de estranha falta de notícia ou de versão, ou unicamente coisas de família. Mas não os analiso muito”, diz o diretor.

Aliás, melhor ninguém esperar que Jarmusch forneça pistas ou explicações para cada cena ou pormenor de seus filmes. Há em “Pai Mãe Mana Irmão” alguns elementos que ressurgem em cada incidente —uma vez que um relógio Rolex, ou pessoas andando de skate. Mas o diretor sugere que inclui essas espécies de “rima” em cada um deles antes para distrair com a imaginação do testemunha do que com alguma intenção específica.

“Faço para me divertir. Porque eu preciso me divertir um pouco enquanto escrevo, portanto prelúdios a colocar essas coisas”, diz, com um sorriso de quem talvez não faça as coisas tão aleatoriamente uma vez que quer transparecer. Mas ele logo volta a falar sério.

“Eu não estou tentando manifestar zero em próprio com levante filme. Não estou tentando ensinar uma moral. Estou unicamente observando as pessoas em suas falhas e a complicação da notícia, as complexidades familiares, sabe? Que todos nós temos, por fim todos nós somos falhos”, diz.

“Não é uma autobiografia. E nem é um estudo profundo sobre dinâmicas familiares. Estou unicamente observando essas pessoas, sem um olhar negativo”, explica.

Jarmusch, aliás, acha justamente que a negatividade no olhar das pessoas tem pautado muitas das questões mais sérias do mundo atual. Sobretudo nas opiniões extremas, que por vezes estimulam também extremismo nos comportamentos. Embora ele diga que não gosta de ser francamente político no que faz, diz crer que a arte pode ter alguma imposto para ajudar o mundo a se tornar menos negativo.

“A arte é uma das coisas mais importantes que os humanos criam. Minha religião é, de certa forma, a da imaginação. A arte te dá permissão para ser abstrato: ali, você não precisa ser literal”, diz o cineasta. “O poeta Lawrence Ferlinghetti dizia que você não precisa entender totalmente um poema para saber o que ele significa. Logo, existe essa liberdade na arte, que acho fundamental.”

Folha

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