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Paranoia já é uma commodity social e política 21/06/2026
Celebridades Cultura

Paranoia já é uma commodity social e política – 21/06/2026 – Luiz Felipe Pondé

Vivemos numa sociedade paranoica. Evidente platitude essa asserção. Nelson Rodrigues diria “óbvio ululante!”, mas a questão é: por quê? Nunca houve uma resposta tão fácil para uma questão tão complexa.

O tipo de paranoia que assola a sociedade em que vivemos advém da própria modernização tecnológica, produtora de conhecimento e informação em larga graduação, e destruidora dos costumes.

Antes que alguém me acuse de ludista, não acho que antes era melhor. Nunca foi melhor. Nunca prestou. E nunca será melhor. Quem assim o nega, e “luta por um mundo melhor”, normalmente não passa de um vaidoso ou vítima da vaidade alheia.

Mas, evidentemente, há males hoje que não existiam “antes das máquinas”, porquê, aparentemente, pensava Ned Ludd quando, supostamente, quebrou teares no final do século 18 na Inglaterra e virou símbolo dos chamados ludistas, que décadas depois transformaram levante gesto num protesto contra a revolução industrial. A tendência hoje é expor que quem teme a IA é um neoludista. As modas do pensamento são porquê um fungo que se espalha pelo mundo, assim porquê a trivialidade do mal.

O temor de Ned Ludd, porquê símbolo de um olhar sobre a modernização industrial, pode ser visto tanto porquê uma sátira social e política ao horizonte esmagamento do trabalhador pelo capital industrial, porquê também pode ser visto porquê um gesto romântico de nostalgia de um mundo ainda não devastado pela lógica furiosa do sucesso material, do “achievement” –realização, desempenho–, do moeda, do incremento desordenado do progresso.

Mas antibióticos, IA, mundo do dedo, aviões, longevidade, medicina científica, saneamento costumam ser argumentos poderosos contra essa nostalgia romântica. Ainda que exclusivamente almas pouco dialéticas possam negar as profundas contradições que o “progresso moderno” causou no mundo, tanto no meio envolvente exterior, quanto no meio envolvente interno. A paranoia porquê vínculo social é uma delas.

Não que não existisse desculpa para eventos paranoides antes, mas hoje a paranoia se tornou um paradigma vital, uma epidemia sistêmica que piora profundamente o convívio entre as pessoas.

Porquê já afirmava anos detrás o sociólogo Frank Furedi, a parentalidade no século 21 promete ser cada vez mais paranoica. A sensação de risco é tal que as crianças não podem mais ir dormir na vivenda dos coleguinhas por receio de abusos sexuais. Trabalhadores da ensino infantil logo merecerão suplementar de insalubridade por riscos de ameaço jurídica.

Apesar de todo o exposição fofo ao volta da ensino, com cursos de formação dos educadores para deixar as crianças cada vez mais reprimidas nos seus gestos, o que se observa é uma atmosfera de crescente sensação de ameaço.

A parentalidade paranoica não para aí. Quanto mais especialistas em parentalidade “ensinam” aos pais porquê serem pais e mães, mais se rego um barranco na habilidade espontânea da lida com os pequenos. De novo, apesar dos discursos fofos sobre emoções e combates a preconceitos e resguardo da espontaneidade, cada vez mais se anula a capacidade dos pais em nome das novas “ciências” dos especialistas.

E muitos desses trabalham com teorias que alimentam a paranoia. Muitos dos gestos herdados na prática da parentalidade —vocábulo da tendência— são considerados heranças traumáticas a serem superadas por essas novas “ciências” dos especialistas.

Não estranhemos o traje de que a simples reprodução humana se tornou mau negócio sob inúmeros pontos de vista. Quando substituímos de modo sistêmico gestos por métodos, rompe-se necessariamente a ergástulo de transmissão de experiências. Mas, cá está um dos núcleos da atitude moderna: tudo que não se realiza dentro do modo considerado moderno é obsoleto e “tóxico”.

Mas um dos centros da geração da sociedade paranoica é, sem incerteza, a rede de informação imediata que se produziu. Um traje curioso é que quanto mais os especialistas apontam para o risco das telas na vida das crianças e adolescentes, mais os pais se põem a edificar um cotidiano paranoico de controle.

Labareda a atenção o traje de que, apesar dos danos que todo convívio paranoide desculpa, chegamos ao ponto de que se constitui de traje num procedimento necessário a adoção de medidas paranoicas na lida com o cotidiano que envolve as crianças. Porquê não ser exaustivo?

Parece, sim, ser lesivo um mundo atravessado pelas “máquinas de informação”. A indústria do conhecimento atingível na velocidade do dedo e da IA deverá, cada vez mais, produzir humanos paranoicos e desesperados. Mas há que se lembrar que a paranoia já é uma commodity social e política.


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Folha

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