Pare de usar Popper para justificar sua intolerância – 08/09/2026 – Wilson Gomes
Pobre Popper! Escreveu um enorme tratado de filosofia política contra os inimigos da sociedade oportunidade —os defensores do autoritarismo, dogmatismo, intolerância, rigidez cognitiva, supressão da liberdade sátira e da autonomia individual— para depois ver-se transformado no padroeiro desses adversários. Principalmente dos autoritários de esquerda, que correm para debaixo do véu do “paradoxo da intolerância” sempre que repreendidos por suas propostas ou ações intolerantes.
É pouco provável que tenham lido Popper. Ainda assim, persiste o mistério sobre uma vez que a obra de um dos filósofos mais liberais do século 20 virou valhacouto de iliberais por conta de uma nota de rodapé em um capítulo em que ataca a tentação de entregar poder irrestrito aos que se julgam certos.
O tal paradoxo aparece numa nota ao capítulo 7 de “A Sociedade Ensejo e seus Inimigos”. Popper enfrenta cá a suposição platônica de que o poder político é, em núcleo, soberano, isto é, pouco ou zero controlado, de modo que o grande problema passa a ser desenredar em que mãos o colocar.
É daí que vem a velha pergunta platônica: “Quem deve governar?”. Os melhores? Os sábios? O povo? A maioria? Para Popper, a pergunta já contém um erro: pressupõe que o problema político consiste em desenredar quem merece receber o poder. Ele prefere outra, mais consequente: uma vez que organizar instituições para impedir que governantes ruins ou incompetentes causem danos?
É nesse contexto que aparece uma lista de paradoxos: tolerância, liberdade, democracia. Eles não são simples contradições. A liberdade é preferível à dominação; a democracia, à tirania; a sabedoria, à estupidez; a tolerância, à intolerância. Zero disso é contraditório. O paradoxo surge quando se transforma um princípio legítimo em alguma coisa inteiro.
Liberdade sem qualquer limite pode permitir que o possante escravize o fraco. Regra da maioria convertida em soberania absoluta pode permitir que a maioria escolha um tirano e suprima a própria democracia. Até o governo dos sábios pode colapsar se o sábio resolver que um estúpido deve governar. Daí a desenlace: todas as teorias da soberania são paradoxais. Absolutizado, o princípio autoriza a própria negação.
Popper não deve ser higienizado: ele admite, sim, a possibilidade de repressão jurídica. Diz que uma sociedade tolerante deve resguardar o recta de suprimir movimentos intolerantes e tratar certas formas de incitação à perseguição uma vez que transgressão. Mas também escreve, na frase quase sempre omitida, que, enquanto filosofias intolerantes puderem ser enfrentadas por argumentos racionais e mantidas sob controle pela opinião pública, suprimi-las seria “extremamente imprudente”.
A hipótese que oferece para a passagem à coerção, porém, é a de que adversários abandonem o terreno do argumento, proíbam seus seguidores de ouvir razões e ensinem a responder aos argumentos “com os punhos”.
O típico militante, mas, extrai da nota somente o slogan “não tolerar os intolerantes” e transforma uma regra defensiva e fabuloso numa autorização universal para a intolerância.
Ora, se a tolerância ilimitada pode destruir a tolerância, a intolerância ilimitada em resguardo da tolerância também pode fazê-lo. Basta que cada grupo adquira o recta de identificar seus adversários uma vez que “intolerantes” ou “fascistas” e, com isso, conceda a si mesmo licença para os silenciar, expulsar ou agredir.
O grupo A declara B intolerante e, portanto, se sente autorizado a suprimi-lo. B, por sua vez, passa a considerar A intolerante justamente porque A o quer reprimir. Um terceiro grupo pode declarar intolerantes os dois. A resguardo da tolerância degenera numa guerra de autoautorizações morais.
A ironia maior é que esse uso do paradoxo recoloca no núcleo exatamente a pergunta que Popper queria retirar dali. Quem recebe o poder de definir o intolerante e de resolver o que pode ser feito contra ele? Os antifascistas? Os progressistas? Os conservadores? “Nós, os bons” é somente uma novidade versão da velha teoria da soberania.
Não basta crer que se está do lado claro. O capítulo diz o contrário: a política não deve depender da esperança de que o poder esteja em boas mãos. Uma leitura popperiana exigiria outra coisa: instituições, critérios, procedimentos, controle público, possibilidade de impugnação e limites ao poder de quem pune.
E o paradoxo de Popper? Basicamente diz o inverso do uso feito pelos autoritários: a sociedade deve se proteger, sim, mas é de quem troca o debate racional pela perseguição, pelos punhos, pelo espancamento.
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