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Michel Laub escreve ensaio sóbrio sobre suas fragilidades – 07/05/2026 – Ilustrada

Prestes a completar 50 anos, o noticiarista Michel Laub decidiu que, depois de ter produzido uma dezena de obras literárias —trabalhos que o tornaram um dos principais autores da literatura brasileira contemporânea—, era hora de redigir um livro de não ficção.

A material de reflexão para o tentativa biográfico que acabou produzindo, “Verão na Névoa”, recém-lançado pela Companhia das Letras, estava à mão, no presente, sem a premência de desmandar das memórias da puerícia ou da juventude.

Mesmo que não fossem virar tema de livro, as mudanças pelas quais seu corpo e sua mente vinham passando, uma vez que resultado da maturidade e do envelhecimento, o ocupavam cotidianamente: perda de músculos, de ânimo, de libido sexual. Uma vez que se isso não bastasse, Laub havia desenvolvido o hábito de consumir cocaína numa frequência que já tinha se tornado preocupante.

Com esse material, o responsável produziu um livro inusitado. Uma narrativa sóbria sobre o hábito da cocaína. E um tentativa nuançado, empático sem ser indulgente, sobre as fragilidades de um varão hétero, cis, branco et cetera.

Na superfície, o livro narra essa mergulho no mundo às vezes marginal e perigoso do vício —assim uma vez que a tentativa de transpor desse buraco. O contraste proposital de forma e teor construído por Laub, ao racontar essa história, impressiona.

O responsável descreve momentos de risco ligados ao consumo ou à procura fissurada da droga: uma prenúncio com estilete, outra com faca no peito, o sono exausto na rua, uma vez que se fosse um sem-teto, a mistura de substâncias, o pânico de um acidente vascular cerebral.

Isso tudo poderia ser narrado com ênfase e excitação, uma vez que aquele colega macio que volta ansioso do banheiro, no bar, e não para mais de falar de si: eu, eu, eu. Não é o caso. Laub toma intervalo de si mesmo e usa a terceira pessoa quando se ocupa do quase vício. “Ainda na era da faculdade, ele cheira cocaína pela primeira vez. Até os quarenta cheira outras duas ou três vezes.”

A tática de falar de si na terceira pessoa Laub toma emprestada de J.M. Coetzee, um dos seus autores de predileção. O livro mistura a narrativa pessoal com a estudo das obras e das vidas de Coetzee e de Renato Russo.

Os dois autores o ajudam a tornar o próprio livro que escreve objeto de reflexão. Russo e Coetzee são para ele exemplares —embora adotem estratégias opostas— no modo de treinar a arte da confissão.

O sul-africano é, à primeira vista, esquivo, calculista, cauto. O compositor brasiliano é entornado, transforma a vida privada em tema de música e de desabafo, mas em um momento crucial, no termo da vida, silencia.

Renato Russo anunciou ao mundo sua bissexualidade no final dos anos 1980, quando Laub era jovem. No livro, Laub diz que “a saída do armário do cantor simbolizou a existência de caminhos além daquele que era a norma na cultura ao meu volta: uma heterossexualidade convicta e triunfalista, distante da que aos poucos se formava em mim —alguma coisa mais irresoluto, cujos limites eu estava recém começando a desvendar quais eram”.

A arte confessional do compositor ajudou o Laub jovem, depois de ter ajudado, naturalmente, o próprio Renato. Um pouco parecido está em operação em “Verão na Névoa”. “Ortografar sobre uma coisa é uma maneira de entender aquilo”, diz Laub, ao ser questionado sobre suas motivações para falar do hábito da cocaína, admitindo ter um “caráter terapêutico” na escrita.

É verosímil que “Verão na Névoa” tenha, sobre alguns leitores, um efeito parecido com o que as canções de Renato Russo tiveram sobre Laub. O personagem que ele constrói no texto tem fragilidades, se mostra desidealizado. “Acho que secção da grandeza do Renato Russo foi essa, de se mostrar nesse papel de fragilidade.”

Coetzee começou a redigir ainda sob o regime do apartheid, na África do Sul. Um noticiarista branco que mostra, nos livros, a iniquidade do regime, mas que “não se posiciona tanto além de expor a questão”, observa Laub.

O noticiarista gaúcho admira a recusa de Coetzee em aderir a uma literatura mais engajada. O engajamento seria uma solução fácil, que terminaria por diluir no moralismo complexidades que o responsável procura explorar, muito uma vez que a ambivalência moral de personagens, do responsável, de quem quer que seja, dentro de um espectro que vai do opressor totalidade à pura vítima.

O tema das drogas aparece com frequência na obra ficcional de Laub. Em “Quotidiano da Queda”, o narrador é alcoólico. Por pretexto disso, perde muita coisa na vida. Há resgate, todavia, no final do livro. A terceira mulher, depois de quase o largar, fica prenha. Com o promanação do rebento, o narrador consegue parar de ingerir.

Em “Verão na Névoa”, a resgate não é tão evidente. O narrador parece buscar uma saída, recorrendo inclusive ao consumo da ayahuasca para tentar se livrar do vício. Mas não registra no texto se parou de consumir a droga. Em entrevista à Folha, Laub disse preferir não revelar o que aconteceu, depois que pôs um ponto final na obra.

Essa talvez fosse a única solução narrativa verosímil, em um texto que questiona os motivos e os efeitos das obras confessionais. Se o narrador respondesse à pergunta negativamente, “não, não consegui”, sentiríamos pena, talvez. Do contrário, orgulho.

Uma vez que Coetzee, Laub se recusa a oferecer uma lógica binária que, ao resolver o problema, mitigaria a dificuldade do narrador e a riqueza da sua história.

Folha

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