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Paul Schrader leva a Veneza filme sobre repressão sexual
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Paul Schrader leva a Veneza filme sobre repressão sexual – 04/09/2026 – Ilustrada

Os movimentos LGBTQIA+ tiveram tantas conquistas nos últimos anos que, muitas vezes, as pessoas tendem a imaginar que assumir a homossexualidade já não é mais um tabu. Mas ainda hoje, mesmo em lares com gente liberal e esclarecida, existe grande resistência, e a situação é ainda pior no caso em que a própria pessoa não consegue se admitir.

“The Basics of Philosophy”, do diretor veterano Paul Schrader, mostra que as coisas não são ainda tão simples, e que para os gays enrustidos, as constantes tentativas de levar uma vida na “normalidade” costumam configurar em um simples autoengano.

Exibido nesta sexta em uma mostra fora da competição principal do Festival de Veneza, o filme acompanha um professor universitário de filosofia, profissional em Espinoza, que tem um namoro morno com uma colega de trabalho, mãe de um jovem. Alguma coisa vai mal no romance, mas ainda assim o parelha insiste, com planos até para se matrimoniar.

Interpretado por Jack Huston (neto do diretor John Huston), o professor propõe aos alunos uma questão que ele próprio rumina há anos: o ser humano é capaz de mudar? Ou tudo acaba, cedo ou tarde, se resumindo ao precípuo programado pela natureza – e o uso da razão para guiar nossas atitudes, no termo das contas, de zero serve?

Talvez isso o obceque porque ele queira mudar sua própria sexualidade. Mas há um tanto mais: no pretérito, o professor cometeu agravo sexual com um jovem, fruto de um funcionário de seu pai, um tanto que lhe motivo culpa e o martiriza diariamente. Seu progenitor compensou muito muito o jovem abusado, pagando-lhe seus estudos, mas há marcas que o numerário não consegue extinguir.

Schrader faz um daqueles filmes de orçamento restringido, com ares de produção B, que de vez em quando ele gosta de encaminhar: existe austeridade na constituição universal, mas também há sempre traços de desmesura, certa vulgaridade e uma propensão à caricatura em certas situações, mesmo quando o tema abordado é sério, grave, até profundo. Parece –e é– uma inadequação entre forma e teor, mas Schrader a utiliza de maneira ousada, por vezes muito inteligente, injetando no filme ares de “baixa cultura” que evitam que o longa soe por demais solene. Ou mesmo que se ligeiro muito a sério.

Por fim, há muitas coisas ali em questão, e não há de ser Schrader quem vai mostrar soluções definitivas. No mundo, tudo é indeterminado demais para nos fecharmos em certezas, filosóficas ou estéticas, o diretor nos diz.

A obra não usa o protagonista para discutir se é um monstro ou se merece o perdão da sociedade, e quem optar por essa chave de leitura há de rejeitar, talvez até odiar, o que Schrader apresenta. A questão é que o personagem, independentemente do que tenha feito no pretérito, vive uma grande tensão. Procura se redimir por meio do raciocínio, pela “filosofia”, e talvez até consiga visível refrigério.

Não é questão de julgar o personagem, mas de entender o que o abala mentalmente. Mas na cena final, no altar, Schrader talvez mostre o que ele de vestuário pensa sobre o tema –em um único projecto, dá seu pressentimento sobre o que pode vir por aí. E sobre a limitação da capacidade humana de mudar, enfim. Nascente filme desconfortável, forte em suas ambiguidades, é mais um trabalho de relevo do cineasta, ainda hoje lembrado pelo roteiro de “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, que participa do longa porquê produtor-executivo.

Na competição, o destaque de sexta foi para “A Place to Heal”, do galicismo Cédric Kahn, em que se debruça sobre o sistema público de tratamento psiquiátrico para jovens entre 15 e 18 anos na França. Vemos a rotina de vários desses adolescentes, que estão ali por motivos variados – embora seja geral na história de vida de cada um ter vindo de lares disfuncionais, muitas vezes com agravo sexual na puerícia.

Entre os personagens, vemos uma pequena marcada por um traumatismo, que hoje luta contra inapetência e a bulimia. Outra é negra, e além dos problemas na sociedade relativos ao racismo, também enfrenta hostilidade dentro de moradia desde que se assumiu lésbica. A mais novidade interna é uma pequena saidinha, que gosta de se meter em confusão, sobretudo em relacionamentos amorosos, mas que tem dificuldades em reconhecer seus problemas – ao menos até a próxima (das várias) tentativa de suicídio. E por aí vai.

São personagens cativantes, e Kahn encena tudo em chave realista, de modo que o seu filme tenha sempre um quê de documentário – o longa é fruto de extensivas pesquisas no sistema psiquiátrico real galicismo. A teoria é mostrar o quanto o auxílio médico pode ser importante para adolescentes, sobretudo os de baixa renda e que vivem em meio familiar inóspito. Mas não unicamente isso: a relação com outras pessoas que passam por problemas semelhantes tende a fortalecer cada interno, ajudando-lhes a encarar suas dificuldades.

O filme tem inevitavelmente um quê de “Um Estranho no Ninho”, mas diferentemente do longa de Milos Forman de 1975, a estrutura opressora do internato não é uma maneira simbólica de mencionar ao mundo do “sãos” do lado de fora. Kahn é muito mais literal em sua proposta, e o filme, apesar do vigor dos personagens e da conhecimento da encenação, não consegue ir além de onde o projeto permitia. É uma marcha em terreno relativamente seguro – um filme eficiente, importante, mas sem surpresas.

Folha

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