A Bienal do Livro de São Paulo teve início nesta sexta (4) em clima de êxtase. Correria e gritos ecoavam pelo Província Anhembi, que foi enchendo cada vez mais com o passar das horas.
Uma das que causou mais comoção foi a autora americana Lynn Painter, do best-seller “Melhor do que nos Filmes” numa breve aparição em um espaço secundário do evento –ela é destaque do palco principal no sábado.
Nesse primeiro dia, já podiam ser vistos clássicos da bienal, uma vez que as malas de rodinhas para carregar livros, e acessórios uma vez que patinhos amarelos na cabeça dos visitantes.
Conceição Evaristo abriu a programação da Redondel Cultural, palco principal do evento. Celebrando seus 80 anos, ela contou temer que as pessoas pensem mais em sua história pessoal do que em sua escrita. Nascida em uma favela de Belo Horizonte, ela trabalhou uma vez que empregada doméstica antes de se tornar professora e, posteriormente, escritora. “O que me faz escritora não é minha biografia, é meu texto”, afirmou.
“Não adianta de zero me descobrir bonitinha se não ler o meu texto.” No entanto, se a plateia era feita de leitores, Evaristo deve estar mesmo sendo lida. Tanto o auditório uma vez que o entorno estavam lotados para seguir a autora em conversa com Eliana Alves Cruz, com quem assinou “Escreviventes”.
Em um momento, Cruz relembrou conquistas recentes de mulheres negras pioneiras. Evaristo se tornou a primeira negra eleita para a Ateneu Mineira de Letras em 2024, Ana Maria Gonçalves se tornou a primeira negra imortal da Ateneu Brasileira de Letras em no ano pretérito, e a própria Cruz entrou para a Ateneu Carioca de Letras neste ano.
Em agosto de 2018, Evaristo se inscreveu para uma vaga na ABL, mas levou unicamente um voto. “Minha candidatura causou desconforto à Ateneu e os obrigou a pensar”, ela disse.
Sobre a notabilidade que levou à povo na bienal, Evaristo pediu desculpas. “Eu não dou conta da notabilidade, é muita notabilidade”, disse, arrancando risos da plateia.
A autora contou ter sido paragem para tirar fotos no mercado, que sua lar no Rio de Janeiro já foi invenção por guias turísticos e já houve até casos de gente estendendo livros por sua janela para conseguir autógrafos. “Eu não quero ser indelicada com as pessoas, mas tem hora que é complicado.”
O contraste foi grande com a mesa seguinte, que começou enquanto a autora de “Olhos D’Chuva” ainda assinava exemplares. Estevão Ribeiro, Marcelino Freire, Camilla Dias e, novamente, Eliana Alves Cruz, falaram sobre “Escreviventes” para uma plateia consideravelmente menor.
O livro é uma epístola de paixão para a octogenária, uma vez que disse Alves Cruz. A mesa, inclusive, terminou com os participantes gritando um “eu te senhor” para Evaristo.
A Redondel Cultural voltou a lotar quando recebeu Raphael Montes no início da noite. A ocupação do espaço começou com tumulto. Apesar dos pedidos da organização do evento, fãs correram, pularam bancos e se empurraram para prometer lugares mais adiante. A maioria eram jovens e adolescentes.
A Companhia das Letras, editora de Montes, distribuiu entre os fãs máscaras com a rostro do responsável e também tatuagens temáticas de seu novo livro, “A Estranha na Leito”.
O responsável best-seller encontrou a atriz Paolla Oliveira e o jornalista Gabriel Zorzetto, que mediou a conversa, para falar da versão cinematográfica da obra recém-lançada. Os direitos de adaptação foram adquiridos pela Netflix antes mesmo de o responsável terminar a escrita do novo livro.
Oliveira, que interpreta a protagonista, exaltou a capacidade de Montes em fabricar “tensão psicológica sem pudor”. “Ele é uma máquina de fabricar suspense”, afirmou a atriz.
Montes devolveu o loa, destacando o olhar de Oliveira ao dar vida à personagem. “A primeira vez que eu vi a olhada da Paolla, não sabia se ela me odiava ou se queria ir para a leito comigo.”
O responsável fala e escreve sobre sexo sem pudor, já habituado a originar polêmica com seus livros sobre atos de violência extrema e canibalismo. Segundo Oliveira, ter personagens femininas “desejando” ainda é novidade e isso faz de “A Estranha na Leito” uma narrativa moderna.
Essa é também uma história sobre aparências e o que elas escondem, tema que Montes afirmou ser geral a todos os seus livros e produções audiovisuais.
Ele terminou a mesa sugerindo um novo livro a caminho e fazendo um quiz sobre sua curso com os fãs. O filme de “A Estranha na Leito” será lançado no ano que vem.
A 28ª edição da Bienal do Livro continua até o domingo, 13 de setembro.





