Peça de Juca de Oliveira reflete sobre corrupção no Brasil – 28/04/2026 – Ilustrada
O que você faria se R$ 100 milhões provenientes de um esquema de depravação brotassem de repente na sua conta? Devolveria ou ficaria com o verba? Será que ladrão que rouba ladrão realmente tem recta a perdão? São esses dilemas morais que movem os personagens da peça “Caixa 2”, em papeleta no Teatro das Artes, na zona oeste da capital paulista.
Escrita por Juca de Oliveira, essa é a primeira produção do ator e dramaturgo a ser encenada posteriormente a sua morte, em março deste ano, aos 91 anos. O caso de depravação de que trata o espetáculo tem início quando o barqueiro Luiz Henrique decide usar sua secretária porquê laranja para transferir R$ 100 milhões não declarados.
No entanto, um erro na hora da operação faz com que o verba seja depositado na conta de Lina, funcionária pública casada com um dos gerentes do banco. A confusão até poderia ser resolvida com uma conversa pacífica e sigilosa entre as partes não fosse por um empecilho.
Lina não tem motivo nenhum para ajudar o banqueiro, finalmente o marido dela foi exonerado da instituição pouco antes de a confusão ter início. De uma hora para a outra, a reciprocidade de forças se inverte. Se antes era o executivo quem dava as cartas, agora o poder está nas mãos de figuras que ele considera subalternas e sem qualquer relevância.
O espetáculo foi montado originalmente em 1997 em meio à CPI dos Precatórios. A percentagem parlamentar de questionário investigou a emissão irregular de títulos financeiros por estados e municípios.
Quase 30 anos depois, a montagem acontece novamente durante uma investigação rumorosa. Desta vez, o imbróglio envolve Daniel Vorcaro — ex-banqueiro culpado de liderar um esquema de fraude estimado em R$ 12 bilhões quando esteve avante do Banco Master.
“É uma tristeza a gente ter que fazer uma peça para falar sobre depravação diante de um cenário parecido com o de anos detrás. Toda vez que a gente acha que está avançando, nós damos três passos para trás de repente”, diz Cassio Scapin, que dá vida ao gerente do banco exonerado posteriormente ter trabalhado 25 anos na instituição.
“Os personagens do espetáculo são absolutamente plausíveis. Eles não existem exclusivamente na ficção, mas estão por aí no nosso cotidiano.”
Essa proximidade entre ficção e veras acontece porque o texto é uma comédia de costumes –gênero que usa o humor para criticar determinadas práticas sociais. O personagem de Scapin, por exemplo, personifica o empregado réplica, aquele profissional que faz de tudo para deleitar o encarregado.
“Ele é um funcionário miserável que almeja uma vida que não vai perceber. É alguém que acredita nessa teoria de meritocracia e considera que o banqueiro venceu na vida por ser bacana”, diz o ator.
A devoção pelo encarregado é tanta que ele se orgulha de ser camarada do executivo, uma relação que só existe em suas fantasias. “É um autoengano que ele cria para ter uma relação direta com o poder.”
Essa ilusão desmorona quando ele é dispensado durante uma vaga de demissões no banco. A partir daí, os ânimos ficam cada vez mais inflamados à medida que interesses antagônicos são postos em jogo.
Essa lesma de confrontos é traduzida na peça por meio de um jogo cênico que transmite grande siso de urgência. As cenas se sucedem com desembaraço, enquanto os atores executam uma coreografia de gestos e trejeitos pautada no dinamismo.
“Eu sabor de fazer esse tipo de marcação porque acho que a gente foge um pouco do que já foi feito muitas vezes”, diz Alexandre Heinecke, diretor do espetáculo. “É um tanto simples que remete à palhaçaria e enaltece o que está acontecendo nessa história farsesca de costumes.”
Para Heinecke, uma das grandes características da peça é a sua atualidade. “Acho que as boas comédias têm que ser revisitadas e remontadas. Ou por outra, estamos num momento em que o proprietário de um banco foi culpado de fazer uma falcatrua no sistema todo”, diz ele. “Infelizmente, a peça está muito atual.”
Ainda que retrate uma situação de contornos absurdos, o espetáculo é inspirado em um indumentária real. Ao ler um jornal, Juca de Oliveira se deparou com a notícia de um varão que devolveu milhões de reais depositados erroneamente em sua conta. A partir dessa história, ele concebeu uma peça que parece confrontar o público com uma pergunta —será que realmente vale a pena ser honesto no Brasil?
“Esses caras que devolvem verba são vistos porquê extraterrestres, porque não reconhecem o valor deles. É porquê se virassem otários logo que dão de volta o valor”, diz Paulo Gorgulho, que dá vida ao banqueiro na montagem.
Para ele, a comicidade do espetáculo não está no sem razão, mas sim em seu caráter realista. “A gente tem buscado montar esse trabalho da maneira mais crível e verdadeira provável. A comédia não retrata exclusivamente a tragédia alheia, mas também os infortúnios de todos nós.”
A natureza universal do texto reside sobretudo nos dilemas morais de seus personagens. Ao desenredar os R$ 100 milhões em sua conta, Lina tem sentimentos conflitantes. Ora ela quer permanecer com o valor, ora pondera que seria melhor devolvê-lo. De certa forma, essa inconstância mostra que a moralidade por vezes pode ser um terreno móvel e escorregadio.
“Na verdade, eu acho que todos nós somos movediços e cheios de incertezas. Faz segmento da origem humana”, diz Flávia Garrafa, que encarna a Lina. Na história, a personagem é mãe de Henrique, personagem vivido por Gabriel Vivan.
Desempregado e sem grandes perspectivas, o jovem não exclusivamente descobre a origem ilícita do verba, mas também a infidelidade da namorada. Vivida por Sophia Abrahão, ela é a tal secretária que serve de laranja para as falcatruas do banqueiro, com quem também tem um caso.
“É uma comédia, mas é uma tristeza ao mesmo tempo”, afirma Garrafa, para quem o humor é útil na hora de falar sobre coisas sérias. “A função da arte é trazer um novo olhar sobre as situações e estimular um espírito crítico nas pessoas.”
Opinião parecida tem Taumaturgo Ferreira, tradutor de um sujeito subserviente que ajuda o banqueiro em suas tramoias. Para ele, o humor mordaz da peça é um revérbero da personalidade de seu responsável.
“O Juca era alguém muito irreverente e debochado. Ele tirava sarro de todo mundo”, diz o ator, que integrou o elenco de quatro peças do dramaturgo. “Não que ele se achasse próprio ou o salvador da pátria, mas ele considerava que a comédia era o melhor jeito de criticar o sistema e os corruptos.”





