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Peça 'O Começo do Fim' encena drama de amor e
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Peça ‘O Começo do Fim’ encena drama de amor e ruptura – 14/10/2026 – Ilustrada

Quando uma história de paixão chega ao termo, a partilha raramente se resolve com o golpe limpo da separação formal. Fica uma gramática inteira construída a dois: piadas que só o outro entende, queixas engolidas e a responsabilidade inescapável de educar um rebento. É nessa fronteira incerta, onde a convívio acabou, mas as marcas afetivas continuam ativas, que se ancora a dramaturgia de Denise Crispun em “O Primícias do Termo”.

Encenada por Isabel Fillardis e Well Aguiar, com direção de Rubens Camelo e supervisão de Amir Haddad, a peça foge da comédia de costumes ligeira e do melodrama raso. O que vai ao palco é um olhar direto, amparado por um humor agridoce, sobre o que resta de uma relação quando ela precisa mudar de rumo.

Os personagens sequer têm nomes no texto. Eles são identificados somente porquê “Ele” e “Ela”. Essa escolha transforma os dilemas em espelho repentino para o público. “Foi uma escolha pensada para que qualquer pessoa na plateia possa se projetar na história. Se dermos um nome específico, criamos um distanciamento; sem nome, o público veste a pele dos personagens”, afirma Isabel.

Well Aguiar aproxima essa dinâmica do Teatro do Contraditório. “A dramaturgia da Denise flerta bastante com referências de Harold Pinter, Bertolt Brecht. Há esse jogo humano em que um desmente o outro, repete falas com naturalidade e inverte papéis sem aviso prévio. A falta de nomes sublinha essa universalidade das contradições humanas”.

No núcleo do atrito cotidiano está Pedro, o rebento único, cuja presença se manifesta fora de cena por meio de cartas e um áudio gravado pelo ator mirim Antônio Caramelo. “Precisávamos de um ator que trouxesse peso e verdade para a leitura das cartas, mesmo sendo somente em áudio. A presença dele cabo a narrativa sem precisar materializar o personagem fisicamente no palco, deixando que o público construa essa figura na imaginação”, diz Rubens Camelo.

Pedro vira o canalizador das pendências do parelha: nas falas dos pais, a muchacho oscila entre a fragilidade diante do divórcio e o papel involuntário de instrumento nas disputas dos adultos.

A dramaturgia de Denise Crispun ganhou densidade quando a equipe decidiu incorporar a vivência de um parelha interracial, alguma coisa ausente no original. Well diz que o projeto pedia mais fricção.

“Chegamos ao texto por meio do Rubens. Eu sentia que o texto era ótimo, mas precisava de uma faísca a mais para não virar somente mais uma comédia romântica de costumes já vista dezenas de vezes. Quando pensamos em trazer a vivência de um parelha interracial, a história ganhou corpo e propósito”.

A partir dessa decisão, o elenco buscou referências no letramento racial com obras da filósofa Bárbara Carine. O processo revelou porquê o racismo estrutural se infiltra nos descompassos do enlace.

“A Denise Crispun foi extremamente generosa ao apoiar nossa proposta. Não queríamos uma comédia ligeiro ‘que terminasse em pizza’, nem um drama trágico e cortante. ‘O Primícias do Termo’ fala do paixão sem romantização: sobre o que construímos, o que destruímos e, sobretudo, o que permanece quando o paixão se transforma”, diz Fillardis.

Uma das passagens mais duras retrata a escolha do pai de manter o cabelo do menino raspado com a justificativa de evitar piolhos na escola —uma tentativa velada de minorar os traços negros da muchacho.

“Não posso manifestar que não é verdade. Não dá para pregar os motivos com precisão, porque ele patroa demais esse rebento, mas a estrutura racista opera exatamente aí: no campo sutil, em lugares tão íntimos e pessoais que fica difícil nomear”, afirma Fillardis. “Por que ele nunca levou essa discussão para a relação? Por que ela nunca dividiu as violências diárias que nós, mulheres pretas, atravessamos?”

O silêncio da mãe também revela o desgaste quotidiano diante da falta de compreensão do parceiro. A personagem, por exemplo, omite dele o roupa de ser incessantemente confundida com a babá do próprio rebento por ter a pele mais escura que a da muchacho.

“O racismo estrutural opera na ignorância e na malvadeza; ele é insidioso, vem no olhar enviesado, no desdém. Casos explícitos são enquadrados pela Lei 7.716, mas e o racismo que opera nas sombras? Na peça, ela preferiu não esticar a corda numa relação que já estava fragilizada. Mas até que ponto você deve zelar isso sem dialogar? Trouxemos esse pilar porque também somos um parelha interracial na vida real”.

Essa tensão cênica atravessou os próprios ensaios. Mãe atípica de três meninos negros, Fillardis viu o palco reproduzir situações vividas em moradia. “Na cena da terapia, por exemplo, o texto refletia de forma quase idêntica o que eu estava vivendo com meu rebento mais novo, de 12 anos. Chegamos a interromper um experimento por duas horas porque o espelhamento da veras com o palco foi dilacerante”.

A peça não segue ordem cronológica, salta entre começos, fins e reconciliações breves. “Já veio do texto original. É uma gracejo direta com o título: a história é contada de forma fragmentada, salteada. E o figurino atua porquê elemento narrativo fundamental nesse vai e vem no tempo”, explica Rubens.

Os trajes, criados em parceria com a designer e artista indígena W’e’ena Tikuna, usam tecidos orgânicos e sementes de tururi em peças modulares que se transformam ao longo das cenas. A cenografia de Janaína Wendling dialoga com referências africanas, e a trilha sonora de Muato marca os estados de espírito de cada diálogo.

A encenação encontrou seu tom principal nos ensaios no espaço do grupo Tá Na Rua, no Rio de Janeiro, com a escuta de Amir Haddad.

“Ele nos deu a bênção para a montagem. Fez pouquíssimas intervenções e assistiu ao espetáculo quase todo em silêncio. No final, falou sobre a procura pelo simples. Uma vez que dizia Clarice Lispector, dá muito trabalho obter o simples — e o Amir ressaltou justamente o quanto essa simplicidade é difícil e preciosa na cena”, diz Fillardis.

Sem vilões ou lições de moral, “O Primícias do Termo” recusa respostas fáceis sobre términos e recomeços. Uma vez que sintetiza Fillardis, “esse é um dos maiores propósitos da peça: fazer com que qualquer pessoa na plateia se reconheça em qualquer momento, seja nos conflitos universais do paixão, seja nas especificidades da relação interracial”. Interessa ao espetáculo a franqueza da reconstrução: encarar o que desmoronou e desvendar o que ainda pode ser feito com o que restou.

Depois de circundar por cidades porquê Belém, Manaus, Recife e Brasília, o espetáculo cumpre temporada em São Paulo, no Teatro Itália.

Folha

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