Peça revive Dalva de Oliveira pelo olhar de Renato Borghi

Peça revive Dalva de Oliveira pelo olhar de Renato Borghi – 26/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O texto de “Minha Estrela Dalva” nasceu em uma tarde, mas Renato Borghi precisou de uma vida inteira para escrevê-lo. E, embora o ator em cena fique sentado no esquina do palco, ele é o núcleo ao volta do qual gravita Dalva de Oliveira, uma das maiores divas da era do rádio e sua musa desde a puerícia, agora reencarnada no gesto e na voz de Soraya Ravenle.

“Eu me apaixonei por ela com seis aninhos, ouvindo o disco da ‘Branca de Neve'”, afirma o carioca, que estreia o espetáculo nesta semana, às vésperas do seu natalício de 89 anos, na segunda. “Fugia de moradia, aos 12, para vê-la trovar na rossio Mauá. Era um transe”, diz, referindo-se ao sítio onde ficava a sede da Rádio Vernáculo, no núcleo do Rio de Janeiro.

O incidente é um dos primeiros da peça que chega neste sábado ao Teatro Sesi, na avenida Paulista, em São Paulo, com ingressos gratuitos e algumas sessões já esgotadas.

Agora, Borghi deixa de ser exclusivamente um assíduo ouvinte dos sambas-canção e boleros mais sofridos da música pátrio para protagonizar, com Dalva, um músico não linear. Num cenário minimalista e onírico, com escadas espalhadas pelo palco e uma filarmónica ao fundo, a dramaturgia embaralha memórias e fantasias dele com passagens biográficas dela, entremeadas por 25 canções e ousadias cênicas.

Se numa cena Ravenle domina o palco, incorporando a voz de soprano e os vibratos característicos de Dalva ao trovar “Neste Mesmo Lugar” ou “Olhos Verdes”, noutra, vemos Borghi interromper a artista no camarim com a letra de “Balada da Sujeição Sexual”, um dos clássicos da “Ópera dos Três Vinténs”, de Kurt Weill e Bertolt Brecht.

E é por meio do teatro homérico criado pelo responsável teuto —no qual os atores não podem vanescer em seus personagens— que o espetáculo foge da fórmula por trás da enxurrada de musicais biográficos que toma os palcos há alguns anos.

Borghi é um dos maiores nomes do teatro ainda em atividade e também já apostou nesse tipo de dramaturgia, mas muito antes da tendência. Em 1987, escreveu “A Estrela Dalva”, com Marília Pêra no papel principal, buscando combater o esquecimento da estrela. Um tanto que se agravou de lá para cá, apesar de a história dela ter sido contada em rede pátrio na minissérie “Dalva e Herivelto”, com Adriana Esteves, em 2010, e de ser tema de um ativo fã-clube nas redes sociais.

“Não dava para voltar com essa peça. Depois dela, todo mundo fez igual. Poderia parecer que a pioneira era imitação”, diz Elcio Nogueira Seixas. Parceiro de Borghi há três décadas com a Companhia Teatro Promíscuo, Seixas dirige o espetáculo ao lado de Elias Andreato e também atua, em cena, porquê uma versão mais jovem do rabino.

O personagem duplo tenta realizar um macróbio libido de Borghi —guiar um show em que Dalva cantasse o repertório de Weill e Brecht, um pouco que se concretiza no orgasmo do espetáculo. “Não deu tempo. Quando a teoria se formou, ela ficou muito doentinha e morreu”, diz o ator, que chegou a levar sua musa ao Teatro Oficina para ver as ousadias de “Na Selva das Cidades”, de 1969.

Dalva tinha 55 quando foi vitimada por um cancro de esôfago. Era 1972, já longe dos seus maiores sucessos dos anos 1940 —porquê “Ave Maria no Morro” e “Olhos Verdes”, do repertório do Trio de Ouro, com o primeiro marido, o compositor Herivelto Martins e o cantor Nilo Chagas— ou dos 1950 —na curso solo consagradora, de “Tudo Terminado” e “Kalu”.

Foi um termo de vida marcado por problemas com o álcool, com numerário, com um terceiro marido muito mais jovem —e aproveitador— e com a própria imagem, já que um acidente de sege a marcara com uma grande cicatriz na bochecha.

Uma verdade que Borghi conheceu em visitas à mansão dela em Jacarepaguá, no Rio —”enorme, com piscina, jaula de macaco, cachorrinhos chihuahua pela moradia”. “E Dalva era desbocada”, lembra o ator, nem tinha vergonha de exibir a ele suas coxas sem celulite.

“Busco trasladar essa mulher e sua espírito, não permanecer exclusivamente na casca”, diz Soraya Ravenle sobre o papel. Para a atriz, em seu 32º músico, o novo trabalho também é um retorno ao seu início nos palcos. Ela começou, justamente, no coro de “A Estrela Dalva”.

Nesse meio-tempo, além de diversas novelas na TV, pôde viver, no teatro, outras divas da rádio, porquê Carmen Miranda, Dolores Duran e Isaura Garcia. Mulheres que, porquê tantas da quadra, acumularam problemas conjugais, entre desquites e polêmicas.

“Todas as relações da Dalva foram abusivas, violentas. Esse machismo todo é muito atual”, diz Ravenle, citando os três cônjuges da cantora, todos interpretados por Ivan Vellame, com diferentes figurinos.

De Herivelto, sobretudo, a peça destaca porquê o compositor genial de “Sigilo” também era mulherengo, ciumento e impiedoso, tanto que a difamou numa série de textos mentirosos em seguida a separação. Ao mesmo tempo, não teve coragem de ir visitá-la doente, no hospital, ainda que seguisse escrevendo canções que só ela podia interpretar.

“A voz dela era de uma visceralidade absurda, transbordava o tempo todo”, diz Ravenle, que incorporou, além do esquina, a expressão marcada pelos “erres” radiofônicos da paulista. “Uma voz que o cigarro e a bebida não conseguiram completar. Até o termo ela fazia milagres de agudo.”

“Mas Dalva também era uma pessoa simples no trato, muito próxima dos fãs, gostava de permanecer em moradia, de chinelo, cuidando do jardim e cozinhando”, afirma a atriz. “Acho que toda essa dualidade impressionou o jovem Renato.”

Na pele dessa musa que desce do pedestal pelo teatro homérico, Ravenle ajuda Dalva a pôr em prática uma resposta contra todos esses desmandos —e até contra a própria peça—, muito dissemelhante do tom apaziguador da marchinha “Bandeira Branca”, seu último sucesso.

“O grande número é quando ela canta ‘Jenny dos Piratas’ [de Brecht e Weill], inspiração para a Geni [de Chico Buarque], sobre uma mulher humilhada detrás de vingança”, diz Seixas. “As pessoas podem encontrar que estão vendo um drama dos anos 1950, mas o Renato traz a Dalva de volta, em 2026, em procura de justiça.”

Folha

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