Petrenko e Filarmônica de Berlim mostram em São Paulo por que escutar os clássicos – 19/10/2026 – Ilustrada
Bastou o ataque inicial do “Concerto para piano nº1” de Brahms uma vez que assinatura: a célebre frase nos violinos e cellos, urgente e carregada, sobre a nota ré grave sustentada e o trinado dos tímpanos, soou coesa e escura: foi uma vez que se houvesse uma “revestimento” protegendo todo o espaço sonoro, onde cada instrumento ocupava um lugar exato. Posteriormente 26 anos a Orquestra Filarmônica de Berlim voltou a tanger no Brasil.
Trazida pela temporada de concertos internacionais Tucca – Música pela Trato, o espetáculo de domingo (18) na Sala São Paulo –assim uma vez que o desta segunda-feira (19)– terá toda a renda revertida para o tratamento de crianças com cancro, nestes que têm sido anunciados uma vez que “os maiores concertos filantrópicos do país”.
Obviamente testemunhar a uma apresentação de uma das mais importantes orquestras de toda a tradição músico ocidental, e que carrega consigo uma história centenária modelar de primazia, deveria ser, em si, a garantia de um bom espetáculo; não é certeza, porém, de que o “jogo já estaria resolvido”. De veste, na vinda a São Paulo há dez anos da Filarmônica de Viena –ajuntamento do mesmo quilate– certas obras não foram interpretadas com o retoque esperado, uma vez que se maestro e orquestra não tivessem se devotado de corpo e psique à preparação da turnê na América do Sul.
Levante definitivamente não é o caso da Filarmônica de Berlim nesta temporada. O grupo veio com o seu maestro titular, o russo-austríaco Kirill Petrenko, e mostrou engajamento, concentração e exaltação do início ao término. Petrenko assumiu a titularidade da orquestra em 2019 depois um período de 16 anos em que o grupo teve a meio do britânico Simon Rattle. Foi com o predecessor de Rattle, o italiano Claudio Abbado, que a orquestra havia tocado no ano 2000 no Theatro Municipal de São Paulo.
O “Concerto” de Brahms teve uma vez que solista de piano o islandês Vikingur Ólafsson, que foi solista da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) em 2024, ocasião em que também apresentou um recital com as “Variações Goldberg” de Bach, compositor que é uma de suas especialidades.
Tendo a qualidade da orquestra alemã para interagir, o pianista pode desfilar cada pormenor de suas ideias musicais. Deu ao segundo tema do primeiro movimento sua particularidade schumanniana, e foi tão longe quanto verosímil nas camadas de pianos e pianíssimos, leveza que era respondida pela orquestra sem qualquer perda de homogeneidade e eminência.
Parece que, para Ólafsson, Brahms, ele mesmo, ia se libertando do pretérito de Schumann e Beethoven, e encontrava o seu estilo pianístico pleno no segundo movimento –um dos pontos altos da noite. Já no “Rondó” final, Petrenko –que antes de assumir Berlim era regente da Ópera Estatal da Baviera, em Munique– tratou as figuras sonoras uma vez que personagens de uma história.
Tapume de trinta anos mais jovem do que Brahms, Richard Strauss, responsável abordado depois do pausa, distanciou-se da música absoluta –a submersão totalidade na linguagem pura dos sons– na direção da fusão entre as artes, cultivando, na esteira de Liszt, a forma do poema sinfônico.
Utilizando-se de inspiração sobretudo literária, os poemas sinfônicos procuram recriar sonoramente –e com independência criativa– obras com as quais dialogam. No caso do “Assim falou Zaratustra” op.30, cuja “Introdução” foi utilizada na buraco do filme “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968), de Stanley Kubrick, Strauss usou uma vez que protótipo o livro homônimo do filósofo Friedrich Nietzsche.
No “Zaratustra”, peça para grande orquestra, o som da Filarmônica de Berlim já era capaz de fortíssimos poderosos, mas sem nunca perder sua aura arredondada de sustentação.
Petrenko rege admiravelmente, e consegue ser carismático sem fazer cena. Em 2023, depois um concerto com orquestra, coro e solistas em Berlim –em sua morada, perante o público de sua cidade–, a plateia não parou de aplaudir até que, depois a orquestra já ter saído do palco, ele voltasse sozinho para agradecer mais uma vez. Os músicos, visivelmente, tocam com empolgação perante sua meio de “coração pegando queima e cabeça fria”.
Posteriormente o fugato que conecta a passagem “Da ciência” com “O convalescente”, seção inspirada no 13º oração da terceira secção do livro de Nietzsche, em que Zaratustra cai estatelado uma vez que um morto por sete dias, o efeito das madeiras pareceu de extrema modernidade: as notas são originais de Strauss, mas a versão sugere estilos da música pós-tonal contemporânea, com o seu característico mergulho na estrutura da vaga sonora. De volta à Brahms, o bis no domingo foi uma esplendorosa “Dança Húngara nº1.
Nesta segunda-feira o repertório da orquestra sairá do eixo norte-sul da Alemanha (Brahms-Strauss) em procura dos limites oeste-leste da Europa, com as “Variações Esfinge” (do inglês Edward Elgar) e a “Sinfonia nº4” (do russo Tchaikovsky).





