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Séries mostram jovens desiludidos com mercado de trabalho 19/10/2026
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Séries mostram jovens desiludidos com mercado de trabalho – 19/10/2026 – Ilustrada

Em “Paixão da Minha Vida”, série do Disney+, crises amorosas são acompanhadas por fracassos profissionais, enquanto a protagonista vivida por Bruna Marquezine procura alguma segurança financeira. Já na americana “Adultos”, o repto de cinco amigos de 25 anos é encontrar um trabalho e mantê-lo, numa trama que estreou de forma tímida e dobrou sua audiência ao chegar à segunda temporada.

Esse aumento repentino na popularidade da série mostra um interesse crescente por segmento da geração Z de ver, refletidos nas telas, os anseios e frustrações atuais com o mercado de trabalho. A indústria pátrio e estrangeira entendeu isso, e vem lançando nos últimos meses várias produções que fazem coro a esses temas.

Na HBO, a última temporada de “Euphoria” mostrou seus protagonistas em procura de carreiras, mas encontrando bicos ou empregos mal pagos e sem perspectiva de prolongamento. Já “I Love LA”, outro sucesso inesperado, foi renovada para que pudesse expandir a tentativa dos personagens de ascenderem numa indústria do entretenimento marcada pelo que muitos considerariam uma relação de trabalho predatória.

Para Luíza Fazio, roteirista de “Paixão da Minha Vida” e “Sintonia”, a juventude “é um período formativo da vida, em que você quer ver seus anseios representados”. Isso justificaria a tendência de agora, que ganha corpo também com “Inapropriados para o Trabalho”, “Sterling Point” e “Too Much”.

Indo além dos Estados Unidos, e comprovando que essa desilusão com o mercado é global, há ainda a inglesa “Queenie”, a alemã “Oh Hell”, a polonesa “Orgulho” e a mexicana “Vgly”. “Estamos vivendo uma viradela no mundo do trabalho e as gerações Z [nascida a partir da metade dos anos 1990] e Alpha [nascida após 2010] estão na risco de frente dessas transformações”, diz a roteirista Janaina Tokitaka, que escreve produções centradas na juventude.

No Brasil, o debate fica ainda mais quente depois a aprovação, na última quarta-feira (14), da PEC que encerra a graduação 6×1, definindo que trabalhadores tenham agora dois dias de folga por semana sem redução de salário. É mais uma transformação que vai mexer com as dinâmicas de trabalho atuais.

Segundo o Diagnóstico da Juventude Brasileira do Ministério do Trabalho e Serviço, 25% da população entre 25 e 29 anos desiste da posição que ocupa no trabalho em menos de um ano. A protagonista de “Paixão da Minha Vida” sonha em virar atriz, mas alterna entre bicos de protótipo e garçonete para completar a renda.

Já o estudo Gen Z and Millennial Survey, da empresa focada em serviços profissionais Deloitte, feito com muro de 23 milénio pessoas de 44 países, concluiu que quase metade dos membros dessas gerações não se sentem financeiramente seguros —um salto de 30% para 48% entre a geração Z e de 32% para 46% entre os millennials, do levantamento de 2024 para o de 2025. Mais da metade afirmou viver de salário em salário e mais de 80% disseram que o porvir financeiro é manancial de estresse e sofreguidão.

Essas duas gerações foram estudadas a fundo por Fazio quando ela trabalhou na série “Sintonia”, uma das mais longevas obras brasileiras do streaming. Foram cinco temporadas entre 2019 e o ano pretérito. A série ilustrava o sonho da subida social por meio do funk.

Em moldes parecidos, o filme “Confia: Sonho de Cria”, lançado no ano pretérito no Globoplay, acompanha o funkeiro MC Cabelinho uma vez que um entregador de aplicativo aspirante a trapper. No Spotify, o trap e o funk são os gêneros mais escutados entre jovens de 13 a 24 anos.

Em meio à teoria de precarização associada a carreiras tradicionais, surgem, portanto, aspirações que refletem a sociedade contemporânea, pautada pelas redes sociais e pela promessa de glória trazida por elas. Além de carreiras uma vez que as de músico e ator, uma novidade possibilidade se apresenta a muitos jovens —a de influenciador, que aparece nas já citadas “Euphoria” e “I Love LA”.

Nas novelas, Tilde, de “Quem Governanta Cuida”, caiu nas graças do público graças aos vídeos que grava para permanecer famosa na internet, muitas vezes mostrando os problemas do dia a dia uma vez que empregada doméstica da vilã Pilar. Em “Dona de Mim”, L7nnon, um dos maiores expoentes da novidade geração do rap e do trap pátrio, usa a música para mudar de vida.

“Fui às batalhas de rima, perguntava para os moleques fãs de rap o que os fascinava no L7nnon ou na Tasha e Tracie”, diz o roteirista Juan Jullian sobre sua experiência na romance. “O trabalho do roteirista é estar atilado ao que acontece na sociedade. Se você perguntar para uma moçoilo o que ela quer ser quando crescer e ela disser tiktoker ou youtuber, é preciso levar isso à dramaturgia.”

Produzir pontes entre faixas etárias e transcrever o comportamento da juventude são marcas do trabalho de Jullian. “Já vimos o estereótipo da geração Z, a caricatura do jovem autocentrado, hiperconectado, que esvazia pautas sociais. Mas não podemos ignorar os recortes, pois o lugar onde você mora, a cor da sua pele, sua orientação sexual e identidade de gênero afetam sua existência no mundo.”

Aspirar os debates e a notícia online são estratégias. De conciliação com a roteirista Ana Ono, da Miss Sunshine Filmes, produtora formada por mulheres, há uma pressão das plataformas para dialogar com os jovens. “Canais querem atrair essa geração porque ela ainda não representa uma porcentagem subida de assinantes.”

Uma das séries que parece ter conseguido encontrar uma boa fórmula —os serviços de streaming não costumam vulgarizar dados de audiência, mas a repercussão nas redes e a renovação para novas temporadas dá lastro ao sucesso— foi “Adultos”.

Inspirada em “Seinfeld”, “Friends”, “How I Met Your Mother” e “Girls”, outras sitcoms americanas que marcaram idade por refletir os desejos e frustrações das gerações que formavam seu público-alvo, a produção acompanha amigos que vivem em Novidade York e se candidatam a centenas de vagas de ofício.

Na procura por segurança, eles falam coisas erradas no escritório, mentem para colegas de trabalho e vasculham as próprias redes sociais para extinguir publicações comprometedoras.

“Não é nossa culpa que tivemos chegada à internet no auge da nossa estupidez e do nosso tesão”, diz o personagem Samir, interpretado por Malik Elassal, ao deletar posts racistas e homofóbicos. Ao se comportar de maneira inadequada em uma entrevista de ofício, ele desiste do mundo corporativo para virar entregador de aplicativo. Criada pelo par Ben Kronengold e Rebecca Shaw, “Adultos” usa o humor para falar dos perrengues de quem está começando a curso.

Já a personagem Issa, vivida por Amita Rao, tem um incumbência de meio período e ganha trocados no site adulto OnlyFans, outro que tem surgido aos montes nos filmes e séries, com personagens também desiludidos com o mercado de trabalho, uma vez que é o caso de “Margô Está em Apuros” —ou, no título original mais revelador, Margô tem problemas de quantia.

Janaina Tokitaka, a roteirista, reforça o interesse no matéria ao revelar que está desenvolvendo duas produções para o Amazon Prime Video que abordam o início da vida profissional da juventude brasileira.

“Trabalho, para os millennials, poderia ser um pouco glamoroso ou aspiracional, um chamado, o reconhecimento do seu talento. “Hoje, estamos mais céticos e pragmáticos em relação a esse universo”, diz ela.

Folha

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