Pitty compara novo disco sobre angústias a anos de terapia – 16/10/2026 – Ilustrada
Pitty diz considerar que só agora, aos 49 anos, fez seu primeiro disco. A razão disso está na condição inédita em que o projeto nasceu: de uma ebulição de angústias acumuladas. O resultado está em 13 faixas que condensam, nas palavras da baiana, “dois anos de terapia” e pode ser ouvido em “Pitty”, já disponível nas plataformas digitais.
O álbum expõe uma relação complicada com a mãe, o luto de um relacionamento mal-acabado e até um gosto por sexo. “Agora estou me colocando de forma vulnerável, visceral, porém plena e possante”, afirma a artista. “Tem coisas que precisam ser ditas.”
A urgência para desafogar se impôs antes de pensar que aquilo daria música, ela diz. Entre janeiro e fevereiro, a artista rascunhou confissões de forma compulsiva, sem a companhia da orquestra e da equipe outrora presente. Depois de aventurar produzir sozinha as canções, percebeu ter parido um álbum.
“Eu precisava fazer, foi maior do que eu. Me vi diante do violão e da tecnologia que hoje ajuda quem quer se autoproduzir. Foi um ‘faça você mesma’. Por isso sinto essa coisa de primeiro disco.” Com as versões inacabadas em mãos, Pitty foi até o produtor Rafael Ramos, seu braço-direito, e terminou o projeto.
Foi mais ou menos mal ela estreou, há 23 anos, com “Excelente Chip Novo”, escrito no seu quarto, só a artista e o violão. À idade, Pitty ainda era Priscilla Novaes, morava em Salvador e desejava fazer da música um trabalho. Seis álbuns depois, ela reencontra a vontade de produzir em desorganização, mas entendendo melhor quem é.
Tudo no disco tem a ver com acontecimentos dos últimos dois anos. Nesse período, Pitty fez uma turnê para comemorar os 20 anos do “Excelente Chip Novo”, até hoje seu disco mais elogiado. Ou por outra, anunciou o termo do himeneu de 19 anos com o baterista Daniel Weksler, com quem tem uma filha. “Antes eu revisitava coisas guardadas porque escrevo muito. Dessa vez foi dissemelhante.”
Na roqueira “Álbum de Tálamo”, Pitty reflete sobre o que resta de um relacionamento terminado. “Devolva minhas senhas, eu confiei em você/ a minha autoestima não precisa entregar/ eu já tomei de volta posse do que é meu”, ela canta. Mais adiante, agradece pelo tal himeneu ter, ao menos, gerado sua psique favorita no universo.
A filete “Amiga,” também parece fazer referência a uma picuinha da vida real ao expor os podres de uma amizade falsa. Pitty não gosta de explicar suas composições e diz preferir que cada um tire suas conclusões. “Quebra a magia. Prefiro que as pessoas escutem.”
Mas ela detalha uma das canções. “Cuidada”, a mais melancólica do álbum, revê a relação dela com a mãe, Laurita. Era ruim. Na letra, a cantora reclama de ter se sentido abandonada em lar, de não ter conversado o suficiente com a mulher e de ter recebido poucos abraços. Ao termo, Pitty diz hoje entender que faltou desvelo à mãe. Laurita já morreu.
“Essa letra é muito doída. Eu precisava falar sobre isso. Foram dois anos de terapia em dois meses.”
Pitty não lançava um álbum de inéditas desde 2019. Embora não tenha se ausentado dos palcos, ela diz que precisou dessa pausa dos estúdios para cuidar de outras frentes da curso, porquê direção de shows. É ela quem está adiante da novidade turnê, que estreia em São Paulo, no Espaço Unimed. O show acontece neste sábado (17), às 22h30. Depois, vai para Curitiba e Belo Horizonte.
“Pitty” é o álbum mais pop do repertório dela. Em músicas porquê “Pileque de Poeta” e “Sobriedade Seletiva”, guitarras e baixos dividem espaço com melodias mais suaves, batidas marcadas e refrões pensados para apresentações ao vivo. Ambas as faixas têm produção de Felipe Vassão, que já trabalhou com Pabllo Vittar e Junior Lima, o irmão da Sandy.
Essa mudança de Pitty foi proposital. “Eu queria fazer um rock dançante. Fiquei nessa brisa de unir a roda de pogo à pista de dança e ver porquê isso se comporta”, diz a cantora, mencionando as rodas de bate-cabeça comuns em shows de rock. Ela sentiu vontade de ir à pista para “deixar o corpo se movimentar, escadeirar cabeça, gritar, sussurrar”.
O disco abre com “Sobremesa”, lançada porquê {aperitivo} há um mês. A filete usa a conformidade do gulodice para falar de uma relação mais próxima do libido que da paixão. “Foda-se o almoço, ‘vamo’ direto para sobremesa”, ela entoa. Esse lado sexy volta a surgir em “Armadura”, quando Pitty diz ser mais fácil transfixar as pernas que o coração.
Ela sempre foi tratada porquê a rebelde da música brasileira. No início dos anos 2000, o rock crescia no país, com as rádios dominadas por canções de bandas porquê Charlie Brown Jr. e NX Zero. Ambas não estão mais em atividade. A própria Pitty nunca repetiu os sucessos daquela idade, porquê “Equalize” e “Na Sua Estante”, até hoje as mais celebradas nos shows.
“Houve uma mudança. Um hiato. Mas sinto que está rolando uma volta. Tenho visto bandas com mulheres e meninas, a cena está formosa”, diz a cantora. “Parece que estamos numa temporada de fazer música incisiva, seja rock ou um blues mais visceral. Não importa o estilo. Nina Simone, Black Sabbath, Luiz Gonzaga, tudo isso é visceral.”
Pitty se lançou cantando sobre política, preconceito e pertencimento. “Máscara” é uma ode aos esquisitos, “Teto de Vidro” versa sobre hipocrisia e “Excelente Chip Novo” recorre ao livro de distopia para pedir que as pessoas votem nas eleições. São músicas atemporais.
A fúria incontida dessas composições não aparece da mesma forma no novo álbum. O mais perto daquela Pitty inconformada está em “Indisciplinado”, que retoma as guitarras para falar de uma rebelde que não segue normas. “Desafiar é uma forma de ter voz”, diz um verso.
Pitty diz recusar rótulos, antigos ou novos, que vai seguir experimentando sons e que “tentar atender expectativas alheias é uma emboscada”. Questionada se ainda se considera transgressora, a cantora diz hoje temer os adjetivos usados para defini-la. “Essas palavras se tornaram clichês. Não há estereótipo cá. Sou uma mulher usando arte para se enviar. É isso.”





