Prompt: “Para o desespero da Moranguete, Abacatudo se recusa a procurar trabalho porque acha que o tigrinho vai salvar o orçamento do mês. Moranguete tenta um aumento com o director, Bananildo, mas ele condiciona o acréscimo a favores sexuais. Aflita, ela se vê forçada a admitir. Uma gravidez indesejada surge dessa violência”.
É digitando comandos assim em plataformas de perceptibilidade sintético que criadores de teor têm gerado as chamadas “novelinhas das frutas”, melodramas de menos de um minuto em que vitualhas assumem a forma humana para protagonizar situações porquê a descrita supra.
Com a explosão desses vídeos em plataformas porquê o TikTok e o Instagram, cresce também a discussão sobre os impactos psicológicos ou sociais do consumo das “novelinhas de frutas”. O argumento lembra quem culpava os jogos de tiro online por casos de violência envolvendo menores. Alguma coisa porquê se o mau exemplo simbólico resultasse invariavelmente no aumento desse comportamento nocivo no mundo real.
Pode-se esgrimir que, diferentemente dos seus precursores do “brain rot” —séries animadas também geradas com IA—, essas novelinhas não têm o público infantil porquê claro, apesar da estética inspirada em animações da Disney. Ou mesmo que a risca que separava a produção cultural infantil e adulta há muito deixou de subsistir e que as frutas antropomórficas são unicamente mais um exemplo da infantilização universal na cultura.
Não há uma resposta simples para essa discussão, mas ela acaba escanteando outra, envolvendo a forma e a maneira que consumimos essas novelas.
Vislumbres sintéticos já têm onipresença no nosso tempo de tela quotidiano. Entre vídeos de animais se comportando de forma perturbadora, pessoas se metamorfoseando em vísceras e frutas praticando adultério, o chamado “IA slop” foi aos poucos substituindo as lindas garotas de biquíni que moravam no meu feed.
Tanto as frutas quanto as garotas estão ali porquê produtos da exponencial demanda universal por teor. Sua forma de ser é condicionada inteiramente à minha atenção. O único motivo dessas coisas existirem é porque sabem que eu vou ver.
Mas diferentemente da produção algorítmica anterior à explosão da IA –que garantia o meu prazer com vídeos mostrando frutas sendo cortadas perfeitamente ou sendo amassadas sem piedade por uma prensa hidráulica–, a produção algorítmica inteligente eleva o achatamento da narrativa pelo contra-senso.
Bananildo, Moranguete e Abacatudo não são personagens com profundidade dramática concreta, mas espasmos de significado que existem e circulam, mas não porquê obra cultural.
O domínio atual do formato de teor de curta duração exige e acelera a otimização das estruturas narrativas para a divulgação algorítmica. Você segue vendo porque acompanha ponto de inflexão emocional detrás de ponto de inflexão emocional –Bananildo traindo Moranguete com a mana dela; Abacatudo devendo para o usurário e prostituindo a Perita para remunerar a dívida.
Você precisa reduzir a narrativa à sua forma mais crua de incitação emocional para prometer as métricas de audiência. Assim, qualquer densidade narrativa nessas personagens se torna irrelevante. Elas precisam ser unicamente recipientes de incitação, acumulando características na mesma velocidade que as descartam, quase porquê um revérbero do fluxo de imagens onde estão presas.
Uma vez que o plumitivo inglês Sam Kriss afirmou: “Da próxima vez que você estiver perto de alguém rolando a tela sem parar por vídeos curtos, observe o que essa pessoa realmente faz. Na maioria das vezes, ela nunca assiste a um único vídeo de 20 segundos até o final. Ou melhor, não consome zero além do algoritmo, o fluxo e a velocidade da máquina que reúne o mundo inteiro e o transmite diretamente para você”.
O feedback momentâneo entre criadores e audiência significa que o sistema responde a si mesmo. Em vez de usar essa tecnologia mágica para coisas novas com qualquer intensidade de frase e demanda, você valoriza apelações gratuitas que possam prometer a visualização do fluxo.
Isso talvez explique o tom apelativo das histórias. A propaganda machista, no término, garante sua indignação e a economia da atenção também é a economia da indignação.
A perdão dessa salada de frutas mórbida é que, em qualquer lugar, sabemos que estamos consumindo lixo sintético pelo contra-senso da sua própria premissa. É o fluxo, através da perceptibilidade sintético, regurgitando ele mesmo direto na nossa gasganete.
Essas personagens, porquê as do “brain rot”, não têm um instituidor identificável. Elas são resultado da geração coletiva de usuários; criaturas mágicas de geração e manutenção espontânea que permeiam a cultura sem lastro visível, servindo de agentes de promoção das plataformas e das ferramentas de perceptibilidade sintético que possibilitam suas aventuras.
Talvez o porvir do influencer seja esses seres de geração coletiva, um folclore algorítmico, sustentado por uma parcela vulnerável da população que viu sua capacidade de mão de obra ser substituída pela automação da perceptibilidade sintético –a promessa de complemento de renda a partir da produção dessas novelas sempre aparece no término dos capítulos dessas histórias. Pelo menos até a própria máquina resolver iniciar a produzir teor sem ser provocada.
Prompt: “O fruto do recato do muito e do mal precisa prometer a fralda do fruto criando teor apelativo para as redes sociais”. O vício está nos olhos de quem vê.
João Montanaro trabalha desde 2010 porquê cartunista da Folha e também porquê ilustrador. Escreve resenhas de cinema para o jornal esporadicamente.
