O Brasil ainda estava sob a ditadura militar quando a Plebe Rude lançou “O Concreto Já Rachou”, o primeiro álbum da filarmónica, em 1986. Para comemorar os 40 anos das canções que contestavam a desigualdade social e econômica da estação, a filarmónica prepara um documentário sobre a história dos garotos de Brasília e lançou no streaming uma novidade versão da música que abre o disco, “Até Quando Esperar”, com participações de Herbert Vianna e Jaques Morelenbaum.
Uma edição peculiar em vinil de “O Concreto Já Rachou”, com as sete músicas do LP, e um compacto com versões demo fazem secção das comemorações do álbum e dos 45 anos da Plebe Rude. E um disco de inéditas também deve ser lançado em breve.
Para o guitarrista e vocalista Philippe Seabra, revisitar o próprio trabalho tem um lado gulodice e outro amargo. “Porquê compositor e artista, você fica feliz com a relevância da obra. Mas tem um lado, uma vez que pai e cidadão, que você fica meio zangado porque a letra não envelheceu. Das duas, uma: ou a gente era vidente, ou o país não mudou zero. Portanto, nesse paisagem, [regravar “Até Quando Esperar”] me incomoda, pois a mensagem ainda ressoa”, diz Seabra.
Segundo o guitarrista, a filete continua atual porque o principal questionamento da música segue sem resposta. “A desigualdade social é o inimigo de tudo, e é muito triste ver isso em um país tão rico uma vez que o Brasil. A música não estava pedindo muito, só questionava ‘cadê nossa fração? Cadê sua fração?’.”
“O Concreto Já Rachou” faz secção de uma geração do rock vernáculo que marcou os anos 1980. Na mesma estação foram lançados “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs, “Selvagem”, dos Paralamas do Sucesso, “Dois”, da Legião Urbana, entre outros tantos já quarentões. Clássicos da estação, eles estarão presentes no festival C6 no Rock que será realizado nos dias 22 e 23 de agosto, em São Paulo.
O disco de estreia da Plebe Rude tem ainda outras canções-protesto, uma vez que “Proteção”, “Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)”, “Minha Renda” e “Brasília”, tal qual refrão dá nome ao álbum.
Em uma estudo em retrospecto, Seabra conclui que “O Concreto Já Rachou” é um disco lúcido, que conseguiu captar o estertor da geração da estação. “Tanto que o disco vendeu mais de 250 milénio cópias. Foi o primeiro disco de ouro de uma filarmónica de Brasília e entrou na lista dos discos mais importantes da história da música popular brasileira, segundo a revista Rolling Stone”, diz o guitarrista.
Para ele, essa lucidez do rock de Brasília se deu pelo vestuário de os jovens da estação serem filhos de acadêmicos e diplomatas que tiveram aproximação não só a uma boa formação, mas também a livros, discos e filmes, além de tudo o que se passava no Planalto Mediano.
O guitarrista reconhece o que labareda de privilégio de conseguir discernir o que acontecia na estação e trasladar em canções o sentimento de quem não concordava com o sistema político. Enquanto isso, eles tentavam encontrar sua própria identidade cultural em uma cidade ainda em formação.
“A gente estava ao lado do poder, logo, ou você virava um playboy, ou você tentava fazer alguma coisa com as armas que você tinha. E as armas que a gente tinha eram uma guitarra e um microfone”, diz.
“Éramos um quadrilha de garotos tentando encontrar um meio de frase e ter um pouco pra fazer”, afirma, lembrando dos encontros com Renato Russo, Oferecido Villa-Lobos, Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, e Herbert Vianna.
Herbert, que na estação já estourava com Os Paralamas do Sucesso, foi o produtor de “O Concreto Já Rachou” e deu pitacos que hoje Seabra lembra com humor, mas que na estação lhe causaram estranheza. Foi sugestão do músico, por exemplo, a inclusão de um igrejinha de violoncelo em “Até Quando Esperar”.
No tá de seus 18 anos, com seu coturno de garoto punk, Seabra fez objeção. “Orquestra punk com violoncelo? De jeito nenhum.” A resposta foi imediata. “O Herbert me puxou de quina e falou ‘rosto, é o seguinte, você está fazendo um disco para o Brasil ou para os seus amigos?’ Aí eu tive que arriar a cabeça e deixar”, diz, ao relembrar o incidente.
“É simples que a gente queria abranger nosso público. Mas, não à custa dos meus princípios. E ficou fantástico”, afirma.
Essa e outras histórias da filarmónica estarão em um documentário, agora em período de pós-produção. Dirigido por Marco Abujamra, que acompanhou a Plebe Rude em alguns shows, o filme incluirá depoimentos dos integrantes, mas ainda não tem data de lançamento.
Enquanto conversava com a reportagem, por telefone, Seabra viu uma cena no trânsito de Brasília que chamou sua atenção: um varão ajoelhado em frente aos carros parados no semáforo, com os braços levantados e pedindo comida.
“Brasília é a cidade com a renda per capita mais subida do Brasil, e olha só. Parece que acabei de ver a letra [de ‘Até Quando Esperar’]. Loucura isso, não?”





