Poucos países fizeram da cantiga uma utensílio política de tanto peso uma vez que o Chile. Da campanha de Salvador Allende, em 1970, às músicas contra a ditadura de Augusto Pinochet, as composições de Víctor Jara, do Quilapayún e do Inti-Illimani embalaram uma vitória eleitoral, sobreviveram ao golpe e ao exílio e voltaram às ruas meio século depois, no chamado “estallido social”, vaga de protestos em 2019.
Agora, com o ultradireitista José Antonio Kast na presidência, os herdeiros de Jara, e também de Violeta Parra, muito uma vez que veteranos que dividiram o palco com eles e toda uma geração nascida depois do golpe, estão diante de uma pergunta. O que a tradição do cancioneiro chileno ainda tem a manifestar e para quem?
Kast, que tomou posse em março deste ano, nunca escondeu a simpatia por Pinochet. Ele entregou os ministérios da Resguardo e da Justiça e Direitos Humanos a dois ex-advogados do ditador, Fernando Barros e Fernando Rabat, e hoje analisa mais de centena pedidos de indulto, a maioria de condenados por crimes de lesa-humanidade, cometidos na ditadura.
O governo também recuou nas políticas de memória. Em setembro, pela primeira vez desde a volta da democracia, em 1990, não houve cerimônia solene pelo natalício do golpe. Antes, em abril, um decreto já havia separado quase 10% do orçamento do Ministério das Culturas, a maior redução proporcional entre as pastas, e atingido o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, o Museu Violeta Parra, entre outros espaços do país.
Para a jornalista e pesquisadora chilena Marisol García, autora de “Canción Valiente”, livro que percorre três décadas de esquina social e político no Chile, a força da cantiga de protesto se mantém firme e vem de longe.
“Houve um momento peculiar, o da chamada novidade cantiga chilena, que teve uma vez que principal inspiradora Violeta Parra. Ali houve exemplos magníficos, grandes expoentes e muita colaboração entre os músicos. Mas foi um momento pessoal”, afirma ela.
“Mesmo que a música chilena não tenha hoje nenhum líder ou porta-voz, ela sempre tem uma sensibilidade que é provavelmente superior à média do pop, porque para os chilenos isso importa, e porque o Chile é um país de grandes poetas.”
No “estallido”, as ruas cantaram “El Derecho de Vivir en Tranquilidade”, de Jara, e “El Dança de los que Sobran”, que Los Prisioneros lançaram nos anos 1980 para falar da desigualdade na instrução.
“Isso era vigente quando a cantiga foi composta, e continua vigente hoje. Mais do que nos contentar pela qualidade da cantiga, às vezes a gente se deprime. Queria que pudéssemos superar essas canções, mas elas continuam aí”, diz García.
Em janeiro deste ano, manifestantes cantaram “El Pueblo Unificado Jamás Será Vencido”, do Quilapayún, em espanhol, nos protestos contra a polícia anti-imigração de Donald Trump em Minneapolis. Bad Bunny tocou “El Derecho de Vivir en Tranquilidade”, de Jara, no Estádio Pátrio, em Santiago, na passagem de sua turnê pelo país.
Jara, recluso posteriormente o golpe, foi torturado e assassinado em setembro de 1973, a poucos quilômetros dali, no Estádio Chile, que hoje leva seu nome.
É no Estádio Pátrio, campo de prisioneiros nos primeiros meses do regime de Pinochet, que acontece nos dias 3 e 4 de outubro o Muda, festival de memória e direitos humanos com murado de 40 artistas, do Inti-Illimani a nomes formados depois da ditadura, uma vez que Ana Tijoux, Camila Mulato e Lustre.
Segmento da bilheteria vai para antigos centros de detenção e tortura transformados em sítios de memória, com prioridade para os que funcionam sem verba do Estado.
Jorge Coulón, fundador do histórico grupo Inti-Illimani, define o papel da orquestra hoje uma vez que o de uma ponte. “Uma ponte entre gerações e uma ponte com a história. Se um tanto se acumula numa curso longa uma vez que a nossa, de quase 60 anos, é a responsabilidade com a história vivida. A responsabilidade de transmitir, sem impor, de ser testemunha das mudanças que vivemos”, diz.
Para o publicitário chileno Javier Sanfeliú, instituidor do programa músico Puro Chile, da emissora pública TVN, a Televisión Pátrio de Chile, a tradição do protesto nunca saiu de cena.
“Esses fantasmas nunca deixaram de penar. Sempre que têm oportunidade, voltam a surdir. Quilapayún e Inti-Illimani continuam lotando estádios. São secção do patrimônio vernáculo”, diz. “Víctor Jara é um ícone; ele continua presente uma vez que se estivesse vivo.”
E ela chega às novas gerações. “O rock está voltando ao Chile, com bandas de gente de 20 anos que voltaram a tocar guitarra, a mostrar raiva, desalento, outra bandeira. O Lustre retoma esse espírito”, diz Sanfeliú sobre a orquestra formada em Santiago em 2021. “Os de 20 a 30 anos sentem uma responsabilidade, e a mudança sempre vem da juventude.”
Eduardo Pavez, vocalista do Tenemos Explosivos, orquestra da novidade safra do rock chileno que abriu o show do Linkin Park no país com suas canções sobre história e memória, no ano pretérito, afirma que a tradição passa de uma geração à outra pelo vestimenta de o Chile ainda ser “um país mentalmente colonizado”.
“Há uma tentativa de emancipação dessa colonização, que é um pouco do que já dizia o folclore mais tradicional, e que continua sendo dito hoje, porque seguimos presos na mesma coisa”, afirma.
Essa “colonização” se reflete, hoje, na política externa de Kast, que se aproximou de Donald Trump. Quatro dias antes da posse, o presidente chileno participou do lançamento do Escudo das Américas, federação de segurança contra o narcotráfico e o delito organizado criada pelo americano, da qual Brasil e México não fazem secção.
Para Pavez, festivais uma vez que o Muda, ao juntar expoentes da cantiga de protesto do hoje e do ontem, fazem uma provocação. “Nos obrigam a voltar a visitar certa música, patente espírito. E, ao voltar, nos obrigam a perguntar quanto disso havia, há ou poderá ter no porvir. A memória é sempre urgente, mas agora o mais urgente é não perder a esperança.”
Para Marisol García, autora de “Canción Valiente”, a resposta está no que sempre moveu essa cantiga. “A música política é a música que incomoda um pouco. E é isso que, no termo, transcende.”





