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Livro de ex Google relata cultura tóxica e desorganização 02/10/2026
Tecnologia

Livro de ex-Google relata cultura tóxica e desorganização – 02/10/2026 – Negócios

Se você fica frustrado com chefes ruins, cargos mal definidos e favorecimentos por relações pessoais no trabalho, saiba que a coisa não melhora tanto assim mesmo em uma das empresas mais valiosas do mundo.

Disfunções banais de um escritório qualquer são rotina no Google descrito por Claire Stapleton em “Don’t Be Evil” (“Não Seja Mau” em português, referência ao antigo lema da empresa), relato de seus 12 anos na companhia.

Ela acabaria deixando a big tech em 2019, depois de ajudar a organizar um protesto com mais de 20 mil trabalhadores e sofrer, segundo ela, retaliação pela atuação no movimento.


A ex-funcionária do Google Claire Stapleton

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Claire Stapleton no Linkedin

A autora entrou na empresa mal saiu da faculdade, na sede em Mountain View, na Califórnia. Começou a curso na extensão de comunicações internas e rapidamente passou a redigir comunicados em nome dos chefes.

Muitas vezes, precisava desenvolver ideias e reproduzir até maneirismos de linguagem a partir de conversas breves, comentários soltos ou poucas indicações sobre o que os executivos queriam expressar. Até Larry Page, cofundador da companhia e portanto um de seus principais dirigentes, é citado entre os que usavam palavras de Stapleton em discursos e emails.

Deu claro, e a “voz do Google” que a funcionária ajudou a fabricar passou a ser cada vez mais valorizada dentro da empresa.

Até aí, zero (tão) estranho —ghostwriting de executivos é prática geral em grandes corporações, e Stapleton gostava do trabalho. O reconhecimento lhe rendeu uma vaga no Creative Lab, em Novidade York, extensão prestigiada que produzia campanhas publicitárias e trabalhava na apresentação de produtos do Google.

A mudança parecia confirmar sua subida, mas produziu o efeito contrário. Sob um patrão da extensão de texto que descreve uma vez que distante e pouco interessado em integrá-la à equipe, Stapleton passou meses com poucos projetos, quase nenhuma orientação e sem entender recta o que deveria fazer.

Foi sua primeira experiência clara com um tipo de disfunção que se repetiria ao longo de sua passagem pela empresa. Ao explorar a própria trajetória, a autora recorre ao concepção de “bullshit job” —”ocupação de merda”—, formulado pelo antropólogo americano David Graeber para descrever trabalhos que os próprios funcionários consideram inúteis, desnecessários ou difíceis de justificar.

Stapleton, por exemplo, conta uma vez que foi escalada para desenvolver um serviço pago de videochamadas para ensinar tarefas já disponíveis de perdão em tutoriais no YouTube, uma vez que fazer consertos domésticos ou dar nó em gravata. Mais tarde, no próprio YouTube, recebeu a missão de procurar vídeos que o algoritmo pudesse ter deixado passar, embora boa segmento desse trabalho já fosse automatizada.

Em outro momento, ouviu do patrão que uma das principais razões de ser da equipe era ampliar a própria influência sobre outras áreas da empresa. Ao reavaliar a relação com uma gestora, a autora afirma que “simetria, deferência, disponibilidade” eram mais importantes do que qualquer outro resultado concreto do trabalho.

O livro evita, vale expressar, a versão fácil de que Stapleton sempre enxergou o Google dessa maneira. Ela aderiu à cultura da big tech, passou anos ajudando a apresentá-la internamente uma vez que dissemelhante das corporações tradicionais e encontrou ali trabalhos que considerava importantes.

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No YouTube, participou de crises num momento em que a plataforma precisava sentenciar uma vez que mourejar com conteúdos ofensivos ou violentos, publicidade e criadores capazes de mobilizar audiências de milhões de pessoas. Casos difíceis mesmo para uma empresa internamente muito organizada.

Toda essa incoerência já daria um bom caldo para um livro sobre as disfunções de uma big tech. A história ganha outra dimensão, porém, quando uma reportagem do New York Times revela que o Google havia negociado uma saída de US$ 90 milhões com Andy Rubin, fundador do Android, depois considerar crível uma denúncia de má conduta sexual contra ele. Rubin negou a denúncia.

A resposta da direção foi considerada insuficiente por segmento dos funcionários. Stapleton portanto tomou a iniciativa de organizar uma reação coletiva, articulou colegas e ajudou a estruturar o Google Walkout, protesto de 2018 que levou mais de 20 milénio funcionários e terceirizados a deixar seus postos de trabalho.

O caso Rubin foi o mecha, mas o movimento logo virou também um protesto mais largo contra a cultura corporativa do Google. Stapleton pediu que os funcionários explicassem por que pretendiam aderir e recebeu mais de 350 relatos sobre assédio, discriminação, retaliação, chefias abusivas e dificuldades para obter respostas do RH.

Não deu tão claro, e as mudanças anunciadas ficaram aquém do que os organizadores esperavam. Nos meses seguintes, Stapleton e mais alguns dos funcionários envolvidos no movimento passaram a relatar retaliações.

Ela diz que perdeu atribuições, foi deixada de fora de projetos e começou uma romagem por chefes, RH e investigações internas na tentativa de provar que estava sendo punida por sua atuação no walkout.

As respostas que narra pouco ajudaram. Ao expressar que estava sendo boicotada, ouviu de uma executiva do RH a sugestão de tirar uma licença por saúde mental. Em outra frente, uma investigação sobre a relação com sua patrão terminou unicamente com a recomendação de que a gerente recebesse treinamento para se expedir melhor.

Stapleton deixou o Google em junho de 2019. Nos anos seguintes, outros organizadores do walkout também saíram da empresa depois relatarem perda de espaço ou punições internas.

A autora, que passou anos ajudando o Google a explicar aos funcionários por que aquela empresa era dissemelhante das demais, diz ter pretérito a receber mensagens de trabalhadores de outras empresas de tecnologia contando experiências semelhantes.

“Don’t Be Evil” foi lançado nos Estados Unidos em 4 de agosto de 2026 pela William Morrow, selo da HarperCollins, e ainda não tem edição em português anunciada no Brasil.

O livro se junta a uma série de relatos críticos de ex-funcionários de grandes empresas de tecnologia, uma vez que o de Sarah Wynn-Williams, ex-diretora de políticas públicas do Facebook, que publicou “Careless People” em 2025.



Folha

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