Por que cinemas trocaram silêncio por cantoria e shows – 28/05/2026 – Ilustrada
Billie Eilish pediu que os fãs cantassem, gritassem e dançassem nas salas de cinema quando fossem ver o filme que registra sua última turnê, lançado no prelúdios do mês. Eles obedeceram. A cantora de 24 anos usou o Instagram para mostrar seus admiradores aos pulos diante das telonas, com as câmeras dos celulares apontadas para cima, e os flashes ligados, ignorando a etiqueta tradicional do cinema.
Elish pediu desculpas pela bagunça, mas lembrou que esse comportamento se tornou geral desde que artistas passaram a exibir seus shows com frequência nas telonas. Ela disse isso em entrevista à rádio Capital FM na pré-estreia do filme “Billie Eilish – Hit Me Hard and Soft: The Tour”, em Londres.
A cantora tem razão. Nos últimos três anos, produtores, grandes exibidoras, e executivos de Hollywood —inclusive cineastas do calibre de James Cameron, que quis encaminhar o filme de Eilish em 3D—, se apressaram para ignominiar uma fatia do que se tornou o novo filão da indústria.
O movimento cresceu a partir do sucesso de dois filmes do tipo lançados em 2023. Primeiro, a gravação da megaturnê de Taylor Swift, a “The Eras Tour”, que em novembro daquele ano lotou os cinemas e se tornou o filme-concerto mais rentável da história, com uma arrecadação de US$ 261,6 milhões.
O longa fez mais quantia que “Wish – O Poder dos Desejos”, uma das apostas da Disney em 2023, superou o blockbuster “As Marvels” e passou também de obras de cineastas premiados uma vez que Martin Scorsese.
No Brasil, a filmagem de Swift arrecadou R$ 7,9 milhões, e arrastou 186 milénio fãs aos cinemas, segundo dados da medidora de bilheteria Comscore Movies. Em sessão visitada pela Folha, em São Paulo, houve até pedido de matrimónio.
“Foi disruptivo. A gente vendeu muito ingresso em poucos minutos”, lembra Samara Vilvert, gerente de marketing da rede Cinesystem. “Se há tantos shows que esgotam rápido, por que não replicá-los nas salas de cinema para entender mais público?”
Meses antes de Swift, em fevereiro, houve outro feito músico notável nos cinemas —o grupo sul-coreano BTS arrecadou US$ 51,6 milhões com o registro do seu último show antes do hiato, “BTS: Yet To Come in Cinemas”.
Foram 182 milénio ingressos vendidos no Brasil, fazendo cá um montante de R$ 6,9 milhões, número que chamou a atenção de toda a ergástulo oferecido o pequeno período de exibição, unicamente sete dias. Filmes regulares costumam permanecer semanas em papeleta.
O fenômeno, dizem especialistas, esteve diretamente conectado ao boom dos shows no pós-pandemia, quando artistas e público se apressaram para retomar a paixão coletiva que por anos ficou adormecida.
O k-pop, aliás, se provou perito nessa seara, com 38 obras lançadas no Brasil desde 2023. Algumas dessas transmissões acontecem uma vez só, com sessões sincronizadas em vários países do Poente para fabricar a sensação de evento em tempo real, com urgência e exclusividade, semelhante à sentida por quem estava no show de verdade.
Caso recente de sucesso vem do próprio BTS, que entupiu os cinemas com a gravação da sua turnê de retorno, no mês pretérito, depois quatro anos de hiato. A obra, exibida num único dia, fez R$ 2,8 milhões.
São números que excitam a indústria —do cinema e da música. Pouco depois de Swift, a superestrela Beyoncé também preparou o filme da turnê “Renaissance” que deu aos brasileiros a chance de saber o show fora das redes sociais. Ela não se apresenta cá desde 2013, e voltou em 2023 só para promover o longa.
Foram parar nos cinemas, também, filmes de shows de Coldplay, dos roqueiros do Bring Me the Horizon, da margem Twenty One Pilots, dos grupos de k-pop Blackpink e Seventeen. Esta semana estreou, em poucas sessões, uma apresentação de Lady Gaga dedicada ao disco “Mayhem”.
Há filmes-concerto nacionais também. Em 2019, “Roberto Carlos em Jerusalém” arrecadou R$ 1,4 milhões, segundo a Comscore, mesma quantia feita pelo cantor pop Jão, no ano pretérito, com a gravação de sua última turnê.
Há ainda as chamadas sessões sing-along, geralmente de ficções musicais, em que o público é incentivado a soltar a voz junto com os personagens. Joia da Netflix, a animação “Guerreiras do K-pop” foi aos cinemas desse jeito em outubro do ano pretérito, pouco depois de o mesmo ser feito com “Wicked” e “Hamilton”.
Seja nas sessões-karaokê ou nos filmes de shows, se repetem as cenas vistas agora no filme de Billie Eilish —dezenas de pessoas prontas para botar aquém qualquer regra de etiqueta que o cinema possa ter. No caso dos filmes de k-pop, é geral inclusive que as pessoas levem bastões de luz.
O problema, para alguns, é que a bagunça organizada das sessões-evento parece ter chegado às exibições convencionais. Em meio a um debate sobre mau-comportamento nas salas, fãs do cantor Michael Jackson se empolgaram e soltaram a voz em sessões de “Michael”, a cinebiografia, do país todo. Vídeos compartilhados nas redes mostram que às vezes isso acaba em peleja.
Embora a algazarra incomode os cinéfilos mais tradicionais, o mesmo não pode ser dito sobre as grandes redes de cinema. Líder de mercado no Brasil, a Cinemark publicou nas redes propagandas do filme de Eilish com a frase “Não assista. Entre no show”, indicando estar de portas abertas para os mais barulhentos.
Cinépolis e Cinesystem, outras grandes redes do país, que também entraram na vaga, afirmam que não intervêm na cantoria dos fãs e que inclusive pensam estratégias para tornar as experiências ainda mais atrativas para eles —uma vez que baldes de pipoca personalizados e souvenirs.
Willy Cravo, diretor de marketing e mercantil da Cinépolis no país, diz que “no caso do Michael Jackson, pelo menos a música é só uma secção do filme”, e que a empresa não proíbe a cantoria mesmo nestes casos. “Sempre tem peleja, mas nossos funcionários acalmam os clientes. Uma boa conversa sempre resolve”, afirma ele.
A depender da sisudez do caso, o multíplice pode até oferecer cortesia para clientes que se sentirem lesados, segundo Cravo.
Quem também saiu em resguardo dos mais empolgados foi o cineasta Kleber Mendonça Rebento, de “O Agente Secreto”. No Instagram, ele reclamou de um texto de opinião publicado na revista Rolling Stones que diz que as sessões de “Michael” provam que a “experiência no cinema está insustentável”. “Gritaria, aplausos, assobios, gente relinchando. Viva a experiência coletiva popular do cinema”, escreveu o diretor.
Os cinemas de traje não eram silenciosos quando surgiram, afirma Fernando Morais, professor no departamento de cinema e vídeo da Universidade Federalista Fluminense, a UFF. “Na revista Cinearte [publicada entre os anos 1920 e 1940], há cartas de leitores e críticos de centena anos detrás, quando começou a subsistir filmes com diálogo, reclamando de precisarem permanecer quietos.”
Empresas especialistas no ramo estão ganhando força. É o caso da Fathom Entertainment, americana que distribui conteúdos alternativos para salas de cinema, uma vez que os filmes de shows, há 21 anos. “Começamos com 900 cinemas. Agora estamos com murado de 2.100”, diz Ray Nutt, diretor da empresa.
Outro exemplo é a CJ 4DPlex, empresa sul-coreana especializada em experiências cinematográficas imersivas e filmes-concerto de k-pop. Desde 2015, o diretor de produção Oh Yoon-dong faz shows pensados para as telonas feitos com tecnologia ScreenX, que projeta imagens também nas paredes laterais da sala para dar ao público a sensação de mergulho.
“As pessoas estão se acostumando”, diz Nutt. “O que importa é colocar mais pessoas nos cinemas. E os exibidores adoram porque estão vendendo mais pipoca e refrigerante.”
Colaborou Nathalia Durval





