Por que continuar a fazer arte em tempos de fim

Por que continuar a fazer arte em tempos de fim de mundo? – 30/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Há pouco mais de dez dias, enquanto participava de uma residência artística na Instauração Sharjah, fui, junto a um grupo de artistas também participantes, a uma visitante guiada ao núcleo de arte 421, em Abu Dhabi. Durante a visitante, escutamos dois grandes estrondos vindos de longe. A organizadora do programa prontamente nos disse que aquilo não era zero e que devíamos continuar.

Cinco minutos depois ela recebeu uma mensagem dizendo que devíamos trespassar da espaço, pois o país havia sofrido ataques. No caminho de volta para Sharjah, vimos que havia ocorrido distintos ataques pela região e que os barulhos que escutamos tinham sido de uma explosão na zona industrial. A espaço, não só os Emirados, tinha sido atacada pelo Irã, que por sua vez mirava bases e estruturas dos Estados Unidos. Nós estávamos, por sorte, não tão perto e, por má sorte, não tão longe.

Em Dubai, no mesmo dia, à noite, encontrei uma amiga palestina para jantarmos em sua vivenda e, enquanto comíamos, ouvimos uma explosão seguida de um enorme tremor nas janelas —dessa vez mais potente. Fomos à sacada e vimos o que me pareceu um miga do término —mísseis e destroços caindo do firmamento. Aquela cena me apavorou. Bolas de lume descendo lentamente, quase que flutuando, uma delas tocou o soalho e ouvimos a explosão. Estávamos agora no meio da guerra.

Conversei com os meus amigos e disse a eles que aquele tipo de violência, aquele tipo de ataque, não estava no meu repertório, que não sabia muito o que fazer ou para onde ir. Minha amiga palestina disse que não havia zero que pudéssemos fazer. Ficamos na vivenda dela até tarde da noite e, volta e meia, o estrondo de uma explosão acontecia. Dormi no sofá com temor de trespassar para a rua.

No dia seguinte, acordamos com a notícia da morte do líder supremo do Irã Ali Khamenei e de que haviam atacado ou que qualquer destroço havia tombado no Burj Khalifa, o prédio mais cima do mundo e um símbolo de Dubai. “As coisas estão piorando”, pensei, e saí de Dubai. Cheguei em Sharjah e, no caminho, o taxista me disse “look, look, boom, boom”, olhe, olhe, boom boom, e, no horizonte, havia um grande cogumelo de fumaça preta. Eu tinha que trespassar daquele lugar, pensei, mas o aeroporto já estava fechado.

Junto aos outros artistas, voltamos para o nosso lugar de residência, uma antiga fábrica de gelo transformada em estúdio e moradia em frente a um enorme manguezal. Pensei que ninguém atacaria uma zona de natureza uma vez que essa, pois só havia nós, algumas gazelas, peixes e aves.

Quase que uma vez que uma urgência começamos a trabalhar. Eu comecei a redigir sobre isso tudo, outros pintavam ou faziam esculturas.

No dia seguinte, saí para caminhar e levei a minha câmera de retrato, tirei um foto e andei mais um pouco e fui abordado por um varão aque parou o sege na minha frente. Ele estava nitidamente nervoso e pediu meu passaporte, eu disse que não estava comigo e ele disse que era da polícia. Em seguida um sege solene da polícia com outros dois policiais pararam, me colocaram dentro e me levaram para a delegacia.

Entendi o que havia ocorrido —pensaram que eu era um espião israelense ou um pouco assim. Passei quatro horas na delegacia e durante todo o tempo dizia a eles que estávamos do mesmo lado, que entendia o que estavam fazendo e concordava com aquilo. Em momentos uma vez que esse, o nervosismo toma várias formas.

Fui solto, voltei para vivenda e fiquei me perguntando o que fazer, exatamente. Por que continuar a fazer arte em tempos de término de mundo? Para quem ou para que fazer isso tudo? Para capitalizar em cima de traumas que terei posteriormente isso tudo? Para mostrar para o mundo quem são os responsáveis pelos ataques que vivi em um trabalho de reescritura histórica? Para me colocar uma vez que uma testemunha disso tudo? Para me colocar uma vez que um produtor de uma arte politizada e consciente?

Zero disso me parecia muito válido, e há tempos que reflito no que se transformou essa cena artística, supra de tudo a paulistana, de onde venho. Essa dinâmica de feiras e aberturas com drinques, nesse adorável mundo novo, consciente e decolonial, patrocinado por marcas estrangeiras com nomes de difícil sotaque, tudo com muita consciência, é simples, e eu uma vez que de certa forma fora e dentro disso.

Essa cena que se expande também para outros formatos, outros países e cidades, com certeza haverá os pavilhões de Israel e dos Estados Unidos na Bienal de Veneza e não haverá boicotes necessários, boicotes que prontamente fizeram com os russos. Wim Wenders, no auge de seus 80 anos, fugiu da resposta no Festival de Cinema de Berlim ao ser perguntado sobre o genocídio na Palestina. Em tempos uma vez que esse, um vasto boicote das grandes bienais e festivais talvez fosse pedir demais.

Talvez, em um ano, se sobrevivermos, haja diversas exposições com os mesmos drinques e obras sobre esse momento. Mas por quê?

Em conversas com os outros artistas residentes, fica simples que essas questões não são só minhas, que há um privilégio de fazer segmento dessa residência e que, ao mesmo tempo, ao ver bombas caindo do firmamento, há sentimentos que querem tomar forma e que talvez esse seja um dos motivos pelos quais faço isso tudo. Tentar dar corpo aos sentimentos.

Tentar trasladar com tinta ou versos a iminência de viver sobre a possíbilidade súbita de término e uma vez que esses sentimentos influenciam a maneira uma vez que vivemos os momentos presentes talvez seja uma dessas possibilidades do fazer artístico. Mas onde fica a diferença entre espetáculo e testemunha? E uma vez que fazer com que o silêncio e a falta de posicionamento não virem um tecido pretérito?

Nestes momentos de guerra, de conflito, de violência, há uma certa procura pela normalidade, por um cotidiano de ajustar, tomar moca e ir fazer esporte em lugares onde janelas tremem, de não querer perfurar o telefone celular pois sabemos que ele irá nos tragar para dentro de um pouco que está prestes a intercorrer e que não temos o menor controle.

O problema segue, estando eu imbricado nisso tudo, querendo ou não.

Nessa espécie de verdade que nasce em momentos uma vez que esse em relação à produção, ela faz tudo parecer um transe. E, em tempos de guerra mundial e ao estar a mais ou menos 50 quilômetros de intervalo de onde tudo isso começou, nascem muitas perguntas. Perguntas que vêm com temor, incerteza, com amigos perdendo casas e já deslocados, mas nas quais talvez exista um claro ponto geral.

O que faz sentido fazer agora?

Folha

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