Rael critica a indústria no disco Nas Profundezas da Onda

Rael critica a indústria no disco Nas Profundezas da Onda – 26/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Rael está de saco pleno. Aos 42 anos, o cantor e compositor paulistano começa seu novo disco, “Nas Profundezas da Vaga”, a ser lançado nesta quinta-feira (26), às 21h, disparando contra a indústria fonográfica. “Já estão ligados que é forçado/ Que esses cliques são comprados/ Quantos views você tem?/ Vão fingir que você é foda/ Universal só copia e cola/ E no final já não sei quem é quem”, ele canta na letra de “Forma Abstrata”.

“Acho que esse é o disco em que estou me sentindo mais completo”, ele diz. “Acho que é um dos melhores álbuns que fiz porque tem coisas ali que eu não estava falando há um tempo. É um [resgate do] Rael da Rima que estava letargo, e de quem a galera sente falta.”

Transitando principalmente entre o rap, a MPB e o reggae, tudo com um verniz pop, Rael está no mercado da música há mais de duas décadas —primeiro, com o grupo de hip-hop Pentágono e, depois, porquê artista solo. Desde antes de tirar o “da Rima” do nome artístico, passou por vinil, fita cassete e CD e se tornou um hitmaker no streaming. Suas faixas mais famosas passam da lar das 100 milhões de visualizações.

Mas acha que seu oração estava suave demais nos álbuns que lançou nos últimos anos. “Eu estava vindo muito levinho, do [álbum de 2019] ‘Capim-Cidreira’ para frente, fiquei muito na moralzinha”, ele afirma.

Além do disco de 2019, Rael lançou há um ano o álbum “Vaga”, de pegada mais solar e dançante, recheado de participações especiais —de Mano Brown a Ivete Sangalo, passando por Ludmilla e Mestrinho. A obra que ele publica agora, “Nas Profundezas da Vaga”, é uma espécie de perenidade do predecessor.

“O ‘Profundezas’ tem luz porquê o ‘Vaga’. É para cima, as melodias são abertas, tem muita coisa com acordes maiores. O ‘Vaga’ era de fácil digestão, para tirar uma vaga, dançar, pegar o carruagem, colocar uma roupa e ir à sarau. Já o ‘Profundezas’ tem isso de indicar o dedo em algumas direções. Quando você mergulha, você vê outro mundo lá embaixo —os corais, a movimentação dos peixes. A vaga, de cima, você fica só admirando.”

O novo álbum foi todo feito em murado de 30 dias, diz o cantor, porque havia muita coisa represada para ser transformada em música. Ele foi concebido depois de um ano atípico em que Rael viveu o luto pela morte da mãe.

“Minhas sensações estavam muito afloradas”, diz Rael. “Às vezes, você usar esses sentimentos de perda ou de raiva também é um combustível. Não fui esse rosto que fiquei indo para a internet. Preferi entrar em estúdio e falar ‘vamos, é o que está tendo para a gente.’ E acho que para mim foi a melhor coisa, foi meu remédio.”

Ele já tinha escrito a tira “Forma Abstrata”, mas voltou detrás para incluir citações em sample e na letra um desabafo do cantor Silva que viralizou na internet no ano pretérito. Nele, o capixaba critica o cenário da música contemporânea e faz um apelo aos músicos. “Vamos fazer música a sério nessa porra desse país! Estamos no país de João Donato, de Gal Costa e Tom Zé, caralho!”, ele disse na ocasião.

Em sua letra, Rael diz que não paga para gravadoras e que está sem paciência de ter que ser influencer. “Vemos tantos artistas com um nível intelectual e músico muito bom, mas que são ignorados dentro dessa malha toda, porque parece que virou mesmo um caça-níquel, né? É uma aposta —quem coloca mais numerário, quem consegue entrar na playlist tal.”

Rael faz música para se inserir dentro dessa linhagem da música popular brasileira. Cita na novidade música “Ehlaia” o legado dos sambistas Arlindo Cruz e Almir Guineto porquê bússola. Lembra na entrevista que seu pai tocava bandolim de pranto e harmónica, influência que fez dele, desde o início do século, um dos nomes mais requisitados entre os MCs para trovar refrões e dar seu toque de brasilidade.

É um tanto que também está em “Nas Profundezas da Vaga”. Ele pinta retratos da mulher brasileira em baladas entre a MPB, o reggae e o R&B porquê “Cabulosa”, “Katyafya” e “Manauara” —sendo que esta última fala também contra o feminicídio e em resguardo da proteção das florestas. A veia de rimador ganha destaque em “Vou Cimeira” e em “Esquece”, na qual recorda a crise do metanol em bebidas.

Seu som não se encaixa em um ou dois gêneros, mas há um fio condutor em quase tudo que ele faz —o vista pop. Ainda que se entenda porquê uma artista pop, diz Rael, a indústria discorda disso, tentando encaixá-lo porquê secção da “música urbana”. O termo genérico é uma geração do mercado para envolver ritmos porquê rap, R&B, funk e outros que são feitos em grande secção por artistas negros.

“Se você pegar a verba que é destinada para o pop e a verba da ‘urban music’, é bizarro”, afirma Rael. “Portanto você vai ver que sua música vai rodear só entre as mesmas pessoas —da ‘black music’—, seu público fica segmentado. O pop fura bolhas e o numerário é maior. Portanto, quando uma pessoa, pelo vestimenta só da minha cor ou por vir do hip-hop, mesmo que eu faça um disco pop e me coloque nessa caixa, nunca vou conseguir ultrapassar essa barreira. Deixam a gente fora da Champions League.”

Além da morte da mãe, no ano pretérito Rael saiu da gravadora Laboratório Fantasma depois uma disputa judicial milionária entre Emicida e Evandro Fióti, os irmãos por trás do selo. Ele fazia secção da empresa há mais de dez anos, e afirma que viveu um momento “muito complicado” porque o rompimento aconteceu muito durante o lançamento de seu último disco, “Vaga”.

“Foi muito triste. Fizemos grandes coisas para música independente e viramos referência. Prefiro me apegar nisso. Sou camarada dos dois, fiquei no meio dessa confusão”, diz Rael. “Para mim, eles são irmãos mais novos. Conheço-os desde antes do Lab, eram fãs do Pentágono. Vejo meus irmãos meio perdidos, mas agora estou em outra tempo.”

O cantor, que vai dividir o palco da lar de shows Vibra, em São Paulo, com Mano Brown em abril, lembra-se de uma conversa com o líder do Racionais sobre o Laboratório Fantasma. Segundo o rapper, a empresa quebrou um oração —”meio de coitadismo”, diz— de que era vício lucrar numerário, assumindo que os artistas do hip-hop seriam empreendedores e donos dos próprios discos.

Agora em um novo escritório, Rael diz que adquiriu na gravadora antiga as ferramentas para mourejar com a indústria. Em cima ou embaixo da vaga, ele tenta velejar o mercado entre os tubarões à sua maneira, a término de permanecer cada vez menos dependente das marés. “Acho que, fazendo sol ou chuva, pode vir novos formatos, pode vir qualquer coisa. Vou continuar fazendo música do jeito que acredito.”

Folha

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