Portinari vai a Pequim como o Brasil que a China sabe ler – 22/06/2026 – Ilustrada
Em frente a “Retirantes”, de Candido Portinari, o estudante Zhou Xin, de 17 anos, relaciona a tragédia brasileira com o sofrimento chinês. Diz que a imagem da pobreza, uma vez que a retratada pelo pintor paulista, é generalidade às vistas por ele ao visitar a história de seu país.
“Os ricos podem ir uma vez que quiserem, mas os pobres, sem quantia, só podem ir, uma vez que nesse quadro, carregando somente seus pertences.”
Zhao Chunxia, 41, diante da mesma obra, nota que as imagens são de estrangeiros, mas que a dificuldade retratada, “em transição”, gera uma conexão.
A confluência de imagens entre os países fez 56 obras do artista desembarcarem em Pequim e protagonizarem a primeira mostra de um brasílico no Museu Pátrio da China, o principal do país, localizado na Rossio da Sossego Celestial, o núcleo do poder político lugar.
O pintor chega à capital do país asiático uma vez que a arte brasileira legível aos chineses.
Semelhanças estéticas até existem, mas é a escolha do tema que se destaca. A trajetória dos migrantes, o retrato da pobreza e a zona rústico ou periférica uma vez que tecido de fundo. Um cenário histórico sabido no Brasil e na China.
Cartão de visitas de Portinari, “Os Retirantes” dialoga diretamente com “Refugiados”, feito por Jiang Zhaohe em 1941, enquanto “Mestiço”, de 1934, põe o trabalhador rústico à nível de retrato, assim uma vez que a obra “Pai”, de Luo Zhongli, de 1980.
Os artistas chineses ampliam corpos, rugas, silêncio e sofrimento de pessoas comuns e os põem no núcleo da narrativa histórica, uma força visual semelhante à proposta pelo brasílico, segundo Guo Cunhai, diretor do Departamento de Estudos Sociais e Culturais do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Ateneu Chinesa de Ciências Sociais.
“Esse tipo de arte não transforma o povo somente em símbolos políticos abstratos; apresenta-o uma vez que portador e instituidor da história ao mesmo tempo”, diz. “A linguagem visual de Portinari não é estranha ao público chinês, ao menos não para quem conhece a tradição artística chinesa do século 20.”
As convergências contextuais estavam na mira do curador, João Candido Portinari, ao selecionar as obras que fariam secção do carro-chefe do Ano Cultural Brasil-China, uma iniciativa diplomática que tomou forma em 2026, dois anos em seguida o compromisso firmado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o líder Xi Jinping, durante a visitante de estado do chinês a Brasília.
O fruto do artista e diretor do projeto que reúne as obras de Portinari quis mostrar ao público que o brasílico pintava numa linguagem que os chineses também entendem.
“Oferecer o legado de Portinari é convocar o povo chinês a saber a núcleo de quem somos e de quem aspiramos ser uma vez que país”, disse João na fenda da mostra.
A exposição propõe um caminho de conhecimento das propostas de Portinari, apresentando suas experiências líricas, sociais, folclóricas, técnicas e até religiosas por meio de um recorte de tapume de 1% das suas mais de 5.000 obras.
“Portinari começa pintando Brodowski [onde nasceu, no interior paulista], o que via em torno dele. E ele vai se universalizando até chegar em ‘Guerra e Sossego’, que é o ponto sumo da universalização”, diz João, referindo-se ao mural exposto na sede da ONU, a Organizações das Nações Unidas, em Novidade York, e que não viajou para a mostra.
Se a privança temática tornou Portinari saboroso aos olhos dos que visitam a mostra, as preferências políticas não foram ignoradas ao vendê-lo uma vez que planeta a Pequim. Militante e membro do PCB, o Partido Comunista Brasílico, o pintor fez secção do grupo de artistas responsáveis por retratar a desigualdade e as dificuldades da classe trabalhadora, mas não se ateve à mandamento da legenda de retratar o “realismo socialista”.
A vertente artística imposta à União Soviética em 1934 em seguida a subida de Joseph Stalin exigia dos artistas que criassem retratos otimistas da vida no país, com foco na superação das dificuldades. Elementos críticos ou abstratos eram proibidos uma vez que as imagens eram usadas uma vez que propaganda política.
Portinari, logo, reclamou da ordem partidária com o logo secretário universal do PCB, Luís Carlos Prestes. O político, que o artista via uma vez que uma espécie de mentor e que foi o responsável pela sua filiação à {sigla}, o liberou.
O mesmo direcionamento foi apresentado por Mao Tse Tung em maio de 1942, quando o líder chinês fez sua famosa fala sobre produção cultural, mais tarde editadas e publicadas uma vez que “Discursos no Fórum de Yan’an sobre Literatura e Arte”.
Na ocasião, Mao falou da arte uma vez que instrumento político que deve ser subordinado às diretrizes e aos objetivos do Partido Comunista Chinês, de forma a se distanciar da chamada “temática burguesa”.
Dessa forma, a cultura deixaria de ser um ornamento da escol para se tornar uma arma na libertação e unificação da China ao molde maoísta.
Segundo a historiadora Annateresa Fabris, professora na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e autora de “Portinari, Pintor Social”, o veste de a convergência entre Portinari e a pintura chinesa “se concentrar na representação de categorias sociais e não de indivíduos deve ser atribuída, de saída, à opção pela estética realista”.
Mas o proposto pelo brasílico, segundo a pesquisadora, é exímio.
“Sua opção pelo realismo não tem zero de doutrinário”, diz. “O que o pintor traz de próprio para essa procura é uma visão antiépica e antiapologética do trabalho, emblemada numa dissociação significativa entre o trabalhador, apresentado uma vez que uma figura reificada e destituída de identidade.”
Em entrevista ao cantor e compositor Vinicius de Moraes em 1953, Portinari disse ter pena dos que sofrem e que “gostaria de ajudar a remediar a injustiça social existente”.
“Minhas convicções, que são fundas, cheguei a elas por força da minha puerícia pobre, de minha vida de trabalho e luta, e porque sou um artista”, disse.





