“Noventa milhões em ação /Pra frente Brasil /Do meu coração”: entre brasileiros, não é vasqueiro aprender a repercutir esses versos na primeira puerícia.
Nenhuma seleção de futebol foi homenageada por tantas canções uma vez que a brasileira.
Mesmo assim, desde 1970, “Pra Frente Brasil” mantém o título de música símbolo da participação do país em Copas do Mundo.
Paradoxalmente, passados 56 anos de sua geração, a história de “Pra Frente Brasil” está repleta de detalhes obscuros.
Para alguns, a marcha é o hino solene da Seleção. Para outros, um sucesso de Carnaval.
Segundo uma terceira versão, um jingle. Ou ainda uma peça de propaganda encomendada pela ditadura militar (1964-1985).
A veras é mais prosaica —mas nem por isso menos complexa.
A formação foi concebida em abril de 1970 para um concurso talhado a escolher a particularidade músico de orifício da transmissão dos jogos da Despensa pela TV.
“Era a primeira vez que uma Despensa era transmitida ao vivo por todas as emissoras juntas”, explica Marcus Aurélio de Roble, jornalista, radialista e gestor de notícia da Organização Vernáculo dos Cegos do Brasil (ONCB).
O que hoje está ao alcance de qualquer possuinte de um celular exigia, na quadra, uma parafernália tecnológica atingível exclusivamente a grandes conglomerados de mídia.
A primeira transmissão mundial por satélite ocorrera no dia 20 de julho de 1969, na chegada da missão americana Apollo 11 à Lua.
Meses mais tarde, em 1º de setembro, foi ao ar no Brasil a primeira edição do Jornal Vernáculo, ao vivo, via Embratel, com links no Rio, em São Paulo, em Curitiba e em Porto Contente.
Responsável inovou linguagem do jingle no país
“A transmissão por satélite permitiu a existência do Jornal Vernáculo”, afirma João Batista de Abreu Jr., professor titular emérito de Informação da Universidade Federalista Fluminense (UFF).
Para levar a Despensa do Mundo a aparelhos ao volta do planeta, foram utilizados dois satélites, o Intelsat III (para a América Latina) e o Pássaro Marrom (para a Europa).
No Brasil, a transmissão dos jogos exigiu a formação de um consórcio (pool, no jargão técnico) das TVs Orbe, Tupi e Bandeirantes, que incluiu até mesmo sorteio de narradores e comentaristas entre as empresas para cada partida.
Nem todos os jogos foram transmitidos ao vivo —alguns tiveram de ser gravados em videotape para exibição ulterior.
O concurso para escolher a música que identificaria a programação foi promovido pelas multinacionais Esso (de combustíveis), Gillette (de lâminas de barbear) e Souza Cruz (de cigarros), que patrocinavam as transmissões.
A autoria de “Pra Frente Brasil” é do carioca Miguel Gustavo Werneck de Sousa Martins.
Depois de sua morte, aos 49 anos, em 1972, o jornalista Lúcio Rangel traçou-lhe o seguinte perfil: “Grande compositor popular, rabi insuperável do jingle, varão que ajudou o Brasil a se tornar tricampeão mundial com a marcha que todo brasílico conhece e canta”.
Gustavo era companheiro do compositor Lamartine Babo (1904-1963), instituidor dos hinos extra-oficiais de 11 clubes de futebol do Rio de Janeiro.
Embora torcedor convicto do Flamengo, não tinha a intimidade de Lalá (que levava o América uma vez que clube do coração) com o esporte.
Era exímio, porém, na invenção de versos e melodias que caíam com facilidade no palato do público.
Em uma trajetória de três décadas no rádio, direcionou secção de seus talentos para a geração de jingles.
“Os jingles dos anos 1950 no rádio eram muito conservadores, usavam locutores com vozes empostadas”, afirma Roble.
“Miguel Gustavo foi pioneiro de um texto mais jovial para esse tipo de peça, falando dos produtos de uma forma fácil de entender.”
Sargentelli: ‘Leste varão matou Bach’
Entre suas criações, estão peças que permanecem na memória do público uma vez que a do Leite Glória (“Glória, Leite Glória / Leite Glória tem melhor sabor”), na voz do cantor Lúcio Alves, a música-tema do programa do Chacrinha (“Abelardo Barbosa / Está com tudo e não está prosa”), da gasolina Ipiranga, da margarina Primor e muitos outros.
“Quantos fiz não sei”, escreveu o compositor em um texto póstumo publicado pela revista Manchete.
O primeiro anunciava o óleo Anhangá, marca de tintura de cabelo: “Se o seu cabelo está ficando branco / Se o seu cabelo embranquecendo está / Fique sabendo que cabelo branco / Só fica preto com Óleo Anhangá”.
“Ganhei trezentos cruzeiros. Neuza Maria (cantora), trezentos. E Luís Mendes, que foi o locutor, ganhou trezentos e cinquenta. Aí, fiquei perguntando: se fui eu que fiz, por que ganhei menos? E aí aprendi a cobrar”, relatou.
Sem formação músico (“Desconheço o que seja uma tarifa”, confessava), compôs sucessos gravados por Isaurinha Garcia (“E Daí?”), Jorge Veiga (“Moca Soçaite”), Carequinha (“Fanzoca de Rádio”) e Moreira da Silva (“O Rei do Gatilho, O Último dos Moicanos”), entre outros.
“O varão (Miguel Gustavo) conseguiu mudar até meu sobrenome. Quando eu gravei O Rei do Gatilho, passei a ser chamado de Kid Morengueira”, disse Moreira.
Em algumas ocasiões, o responsável misturava música popular e publicidade, uma vez que ao tomar o velho pregão de rua reciclado na marcha carnavalesca Quem Sabe, Sabe, de Joel de Almeida e Carvalhinho, para apresentar o achocolatado Toddy: “Quem sabe, sabe / Conhece muito / Por isso Toddy / Prova o que tem”.
Às vezes, as apropriações rendiam polêmicas.
Foi o que ocorreu quando parodiou “Rancho das Flores”, que Vinicius de Moraes compusera sobre o coral barroco “Jesus, Alegria dos Homens”, de Johann Sebastian Bach (1685-1750).
O resultado foi um jingle de banha: “E falando da rosa / Vem a Banha Rosa / Que é pura e saudável, / gostosa e faz muito / e que guarda da Rosa / o frescor que ela tem”.
O apresentador Osvaldo Sargentelli, seu companheiro, acusou-o diante das câmeras da TV Tupi: “Leste varão matou Bach”.
“Mas quem deu a primeira paulada foi o Vinicius”, alfinetou o responsável do jingle.
“É uma introdução totalmente lamartinesca”
Em um final de tarde de 1966, o apresentador Flávio Cavalcanti interrompeu um experimento no auditório da TV Excelsior para receber um calouro indicado por Miguel Gustavo, logo diretor-geral da emissora.
“Flávio, vou te mandar um face para fazer teste. Dá um jeito de ouvir o rapaz”, disse o publicitário, segundo o testemunho de Cavalcanti.
Enquanto o novato, vindo da praia, ainda de short e sujo de areia, dedilhava um violão emprestado, o jornalista José Fernandes, que observava a exibição, disse ao ouvido do apresentador: “Um talento, o menino”.
O calouro chamava-se Chico Buarque de Holanda.
O luz de Miguel Gustavo atraía também políticos que lhe encomendavam jingles de campanha eleitoral.
Em 1960, foi o responsável da marcha “Vamos Jangar”, da campanha do logo candidato João Goulart à vice-presidência, gravada por Isaurinha Garcia, César de Alencar, Dircinha Batista, Elizeth Cardoso, Altamiro Carrilho e o Conjunto Farroupilha.
“Acho que o único político de nome vernáculo para quem não fiz músicas foi Juscelino Kubitschek”, dizia.
Segundo o próprio responsável, “Pra Frente Brasil” foi composta em dois dias para o concurso por insistência da dona de um estúdio de gravação na Travessa do Paço, no meio do Rio.
A primeira versão, sem a introdução, foi feita com base na diretriz fornecida pelos organizadores: mostrar a união do povo brasílico em torno da seleção, em tom efusivo e cívico, mas sem referência aos patrocinadores.
Faltava o trecho inicial, que surgiu de um pormenor peculiar: o som de assovio.
“Você ouve um negócio assoviado, você grava, repete. É uma vez que o riso. Um começa a rir e daqui a pouco todos estão rindo”, afirmou a Wilson Cunha, logo repórter do quotidiano carioca O Jornal.
Quando esse segmento ficou pronto, Gustavo lembrou-se do companheiro Lalá.
“Depois que fiz e ficou gravada, fiquei muito contente em perceber que tinha feito uma introdução com as características de Lamartine Babo. É uma introdução totalmente lamartinesca”, declarou.
“Outro dia, até, falando com o Sargentelli, que é sobrinho do Lamartine, perguntei: você se lembra de quem é essa introdução?”
A gravação original submetida ao concurso foi feita pelos cantores Joab Teixeira (que mais tarde faria o registro definitivo com o seu Coral do Joab e a Orquestra da Rádio Orbe) e Edgard Luís, com séquito de Chiquinho do Acordeon e do baterista Antônio Carlos.
Vitórias no México impulsionaram popularidade da marcha
Ao vencer a competição, Miguel Gustavo recebeu 10 milénio cruzeiros, que equivaliam na quadra a mais de 50 salários mínimos do Estado da Guanabara.
Nos anos seguintes, essa quantia seria muitas vezes superadas pela arrecadação de direitos autorais.
As três patrocinadoras adquiriram, logo de início, 30 milénio cópias do compacto da marcha.
Comparativamente, o LP Roberto Carlos, lançado em dezembro daquele ano e que seria o disco mais vendido de 1970, teve 520 milénio cópias comercializadas.
No dia 31 de maio, a primeira vinheta da Despensa foi ao ar com o seguinte texto lido por um locutor: “Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. México”.
Seguiam-se os primeiros versos de “Pra frente Brasil”, enquanto o locutor prosseguia: “Minuto zero de uma sensacional transmissão da Despensa do Mundo pela Rede de Emissoras Associadas, Rede Orbe de Televisão e Rede de Emissoras Independentes. Minuto Zero. Esso. Gillette. Juntas para dar ao Brasil sua primeira Despensa do Mundo ao vivo. Alô, alô, México.”
À medida que as vitórias da Seleção se sucediam, a música passou a simbolizar o otimismo com as chances do Brasil.
Quando Pelé e seus companheiros desembarcaram no país em seguida o torneio, foram recebidos em comemorações ao som da marcha.
“Houve um uso imperdoável do futebol pela ditadura”, afirma Abreu.
“Médici (o general-presidente Emílio Garrastazu Médici, que ocupou a Presidência de 1969 a 1974) era um sujeito extremamente antipático, e o principal locutor esportivo da Rádio Orbe, Geraldo José de Almeida, referia-se a ele nas transmissões uma vez que ‘o presidente gente uma vez que a gente’.”
Antes da Despensa, foi atribuída a Médici a pressão para que o técnico da Seleção, João Saldanha, convocasse o atacante Dario, do Atlético-MG.
Diante da recusa de Saldanha, que proferiu a famosa frase “Nem eu escalo o ministério, nem o presidente graduação o time”, criaram-se as condições para sua deposição exclusivamente três meses antes do início do Mundial.
Enquanto atletas e personalidades demonstraram desconforto com o uso do tricampeonato pela ditadura, Miguel Gustavo não manifestou incômodo.
Músicas para o governista Redondel e o oposicionista MDB
Ele seria o escolhido para conceber o jingle vernáculo da campanha do partido governista, a Associação Renovadora Vernáculo (Redondel), nas eleições de novembro de 1970.
No mesmo pleito, assinaria também o tema dos candidatos do MDB ao Senado na Guanabara, Nelson Carneiro, Danton Jobim e Benjamin Farah, de oposição ao regime.
São de sua autoria o “Hino do Sesquicentenário da Independência” e o jingle da campanha federalista Plante que o Governo Garante, que passaram à história uma vez que símbolos do ufanismo reinante.
Para Roble, o caráter pró-regime de “Pra Frente Brasil” não se resume a seu uso uma vez que propaganda.
“O jingle não foi feito a pedido dos militares, mas Miguel Gustavo criou-o com suporte estrutural da Rádio Orbe, que apoiava ativamente o regime, e de uma forma que permitia uma apropriação facílima pelo governo”, argumenta.
“Num momento em que se vivia o período mais duro da repressão, com tortura e outras violações de direitos, a letra diz: ‘Parece que todo o Brasil deu a mão’. É uma vez que se dissesse que, se você afirmasse que o país estava dividido, você estaria incorrecto.”
Miguel Gustavo morreu aos 49 anos, em 22 de janeiro de 1972, no Rio de Janeiro, deixando a mulher, Sagramor Brandão, também radialista e ex-vereadora, e duas filhas.
Uma vez que a camiseta canarinho e o país, “Pra Frente Brasil” permanece cercada de ambiguidades.
Para a atriz Regina Duarte, a cantiga representa uma quadra de bem-estar e otimismo.
“Não era bom quando a gente cantava isso?”, disse a logo secretária vernáculo de Cultura em maio de 2020, no auge da pandemia de covid-19, à CNN Brasil.
Já a ex-presidente Dilma Rousseff não consegue separar seus acordes da recordação das masmorras do regime militar no início dos anos 1970.
“Não consigo ouvir essa música sem lembrar que eu estava sendo torturada enquanto ela tocava”, admitiu em 2014 em entrevista ao portal UOL.





