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Quilombo urbano na zona sul do Rio guarda lições de
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Quilombo urbano na zona sul do Rio guarda lições de resistência

É em um quintal com coqueiro, goiabeira, bananeiras, uma paineira-rosa e um vasqueiro pé de abiu que vivem as 14 famílias do Quilombo Urbano Ferreira Diniz. A comunidade fica na Glória, na zona sul do Rio de Janeiro, e foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Pátrio (Iphan).

O sítio se tornou ponto de encontro dos amantes da tradicional feijoada da Tia Cida e também representa a resistência comunitária em meio à especulação imobiliária no bairro.

O tombamento cobre toda a dimensão do terreno, na Rua Cândido Mendes, e incluiu o quintal e os casarões, referências culturais e espaços de uso comunitário.

Porquê uma das ações de salvaguarda, o Iphan pretende fazer um inventário de referências e manifestações culturais do quilombo porquê desdobramento da proteção.

Uma das atividades que mais atrai pessoas à comunidade é a Feijoada da Tia Cida, porquê é carinhosamente chamada Maria Aparecida Ferreira. Às sextas-feiras, desde cedo, ela é encontrada entre as panelas de feijoada. O prato é servido aos visitantes no quintal, ponto de encontro e polo gastronômico.

 


Rio de Janeiro (RJ), 25/09/2026 – O Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 25/09/2026 – O Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Pátrio (IPHAN). Foto: Fernando Frazão/Dependência Brasil

História

As famílias do quilombo, Ferreira e Diniz, estão desde a dez de 1950 no terreno, quando a matriarca Maria Isabel Ferreira, progénito de africanos escravizados de Minas Gerais, se mudou para o casarão principal, ao se matrimoniar com o zelador do prédio, Antônio Dias Pessanha. O imóvel funcionava porquê uma antiga hospedagem.

A família ampliada e os casarões ─ abandonados pelos antigos donos ─ resistiram aos anos. Os Ferreira e os Diniz, ambos grupos com raízes em Minas, cresceram e, em 2023, por se manterem em comunidade e laços que refletem o pretérito colonial, foram reconhecidos pela Instalação Cultural Palmares porquê quilombolas. Naquela era, o quintal já recebia clientes da Tia Cida, que, posteriormente a pandemia, fez do espaço um restaurante porquê forma de sobrevivência e de visibilidade à razão.

Cida é uma conhecida cozinheira de mão enxurro na cidade. Trabalhou no negócio e vendeu marmitas, até que a renome do quintal atraiu produtores de teor sobre gastronomia em redes sociais e a demanda aumentou. Tradição recente no bairro, a feijoada conta com outros quilombolas, que fazem o atendimento. O evento remunera as famílias e também mobiliza para ações na comunidade.

“Eu me sinto muito honrada em fazer essa feijoada, lembro da minha mãe, das minhas mais velhas”, disse Tia Cida. Ela conta que o primeiro feijoeiro que cozinhou na vida “foi uma catástrofe”, quando ela decidiu que iria “fazer o melhor feijoeiro do mundo”.

“Hoje, quando cozinho, eu me concentro para passar para as pessoas que comam da minha comida, saúde e força, para que saiam daqui do quintal alegres.”

 


Rio de Janeiro (RJ), 25/09/2026 – Aparecida de Fátima Ferreira, a Tia Cida, prepara feijoada no Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 25/09/2026 – Aparecida de Fátima Ferreira, a Tia Cida, prepara feijoada no Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Maria Aparecida de Fátima Ferreira, a Tia Cida, prepara feijoada no Quilombo Ferreira Diniz. Foto: Fernando Frazão/Dependência Brasil

Ponto de resistência

Um dos 13 quilombos urbanos do estado do Rio, de um totalidade de 54, segundo a Associação Estadual das Comunidades Quilombolas do Rio de Janeiro, o Ferreira Diniz atrai cariocas e turistas. Muitos vêm, pela feijoada, mas a história também interessa, comenta a psicóloga Brenda Pimentel Torres. Ela reuniu a família para um almoço no sítio e disse que estar em um espaço de resistência é um diferencial.

“Há um apagamento da história dos negros [no Brasil] e essas pessoas cá estão resistindo, sobrevivendo, inclusive, ao racismo”, disse Brenda. Ela comemorou o tombamento da dimensão pelo Iphan, e lembrou que a escravidão, no Brasil, foi um processo recente. “A sociedade ainda precisa saber melhor o que aconteceu e porquê essas pessoas resistiram e resistem, porquê cá no quilombo”, disse.

 


Rio de Janeiro (RJ), 25/09/2026 – Sandra Pimentel com a neta Aurora, a filha Brenda Pimentel e Thamara Cristina Barbosa dos Santos no Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 25/09/2026 – Sandra Pimentel com a neta Aurora, a filha Brenda Pimentel e Thamara Cristina Barbosa dos Santos no Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Sandra Pimentel com a neta Aurora, a filha Brenda Pimentel e Thamara Cristina Barbosa dos Santos no Quilombo Ferreira Diniz. Foto: Fernando Frazão/Dependência Brasil

Localizado no bairro da Glória, o quilombo foi o primeiro do estado a ser tombado pelo Iphan, que reconheceu a prestígio histórica e cultural da comunidade, assim porquê as pressões enfrentadas por seus moradores, porquê o cocuruto dispêndio de vida.

O endereço, afirma o órgão, é uma “espécie de ilhota verdejante” em meio a prédios altos e que “resiste à lógica individualizada dos apartamentos ao volta” e à gentrificação.

“O tombamento cumpre múltiplas funções”, explicou Patricia Corrêa, superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, na reunião que oficializou a decisão.

“Jurídica, ao estabelecer restrições de demolição, descaracterização e intervenções incompatíveis com o valor cultural reconhecido; territorial, ao solidar o reconhecimento do espaço porquê um muito cultural coletivo e não porquê mera mercadoria imobiliária; simbólica, ao declarar publicamente a relevância histórica e social da presença negra naquele território urbano; e reparatória, ao enfrentar o apagamento e expulsão das comunidades negras das áreas centrais e valorizadas das cidades”.

O quilombo

O quintal, tratado pelo Iphan porquê polo gastronômico e cultural, além de servir a feijoada que custeia ainda a manutenção do casarão, é o coração da comunidade. Crianças jogam esfera, moradores organizam festas, algumas religiosas, porquê Folia de Reis e São Jorge, celebram aniversários e organizam rodas de capoeira, entre outras atividades.

Já o principal casarão, de estilo neoclássico, um réplica de moradias de luxo construídas no bairro no início do Século 20, é onde estão subdivididas as moradias das famílias, que fizeram dos amplos cômodos da antiga hospedagem seus apartamentos. O prédio necessita de reforma para oferecer melhores condições aos habitantes.

 


Rio de Janeiro (RJ), 25/09/2026 – O Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 25/09/2026 – O Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Pátrio (IPHAN). Foto: Fernando Frazão/Dependência Brasil

A expectativa da presidenta da Associação da Comunidade do Ferreira Diniz, Érida Ferreira, é que o tombamento impulsione o reconhecimento da posse coletiva do imóvel pelo Instituto Pátrio de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Procurado pela Dependência Brasil, o instituto respondeu que acompanha o processo, que ainda está em temporada inicial.

Com a escritura em mãos, a comunidade espera acessar programas de reforma do casarão. A regularização fundiária também protege a comunidade de desapropriações e da eventual venda fracionada do terreno por herdeiros do grupo.

Érida e a família celebraram o tombamento e anunciaram uma sarau com roda de samba no sábado (26). Historiadora formada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), ela explicou que o diferencial da medida do Iphan é que incluiu a comunidade porquê secção do muito tombado. 

“É o tombamento de cultura, de patrimônio vivo, da comunidade de nossa história, que está enraizada na Glória”, completou ela. “Dar condições de permanência à comunidade é prometer um horizonte com mais heterogeneidade”, acrescentou.

 


Rio de Janeiro (RJ), 25/09/2026 – Área interna do casarão residencial do Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 25/09/2026 – Área interna do casarão residencial do Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Érida Ferreira em frente à pintura da matriarca Maria Isabel Ferreira no Quilombo Ferreira Diniz, no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Dependência Brasil

Para que a comunidade seja reconhecida pelo Incra, é necessário vencer uma série de etapas. A primeira delas é a elaboração de um estudo técnico, a incumbência da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federalista Fluminense (UFF).

A professora Ana Carmen Amorim Jara Casco é responsável por levantar o histórico das famílias e relatar o seu modo de vida no terreno, em documento que será entregue pela comunidade ao Incra até o final de 2026. Ela observa a comunidade nos últimos três anos e diz que a comunidade tem muitas lições a dar sobre o pretérito e sobre a formação do Brasil, mas também para o horizonte da humanidade.

“No quilombo, uma gaiato, por exemplo, não é filha do ‘fulano’, mas filha de todo mundo, todo mundo cuida dela, se preocupa com ela, se ela vai para escola, se tem lanche, se almoçou, se está doente, é um modo de vida coletivo completamente dissemelhante do que a gente vê num prédio ou em condomínio fechado”, pontuou.

Saber a formação dos quilombos e da própria população negra brasileira, acrescentou a estudiosa, é “reconhecer o papel inestimável deles na construção do país, do que nós somos hoje; o Brasil não é o Brasil sem a tributo dessas pessoas”, lembrou.

 


Brasília (DF), 25/09/2026 - Mapa do quilombo. Foto: Arte/Agência Brasil
Brasília (DF), 25/09/2026 - Mapa do quilombo. Foto: Arte/Agência Brasil

Fonte EBC

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