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Representante do Brasil no Oscar, 'Feito Pipa' amplia imaginário do
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Representante do Brasil no Oscar, 'Feito Pipa' amplia imaginário do cinema com Sertão colorido, diz roteirista

Pesquisadora Eliana Guerra fala sobre o sertão nordestino no cinema brasílico
Representante brasílico para eventual vaga no Oscar de melhor filme internacional, “Feito Pipa” propõe um olhar dissemelhante sobre o interno do Nordeste. Em vez de imagens associadas à seca e à pobreza, o longa-metragem dirigido pelo cearense Allan Deberton aposta em afeto, cores, memória e música para recontar a história de Gugu, menino de 11 anos criado pela avó materna.
Em entrevista ao g1, o roteirista André Araújo afirmou que uma das preocupações durante a escrita foi revisitar a forma uma vez que o cinema historicamente retrata o Nordeste.
“Quando estou escrevendo, sempre me preocupo em atualizar as imagens e os imaginários que o cinema produz sobre o Sertão. No ‘Feito Pipa’, esse Sertão sarapintado surge uma vez que uma forma de se distanciar daquele Sertão que a gente costuma ver da retrato alaranjada ou da luz estourada, o Sertão da miséria, o Sertão da seca”, disse.
Para Araújo, o filme apresenta outras formas de enxergar esse território: “É o sarapintado que se manifesta através das pessoas, dos personagens, que se manifesta na própria retrato, na identidade de Gugu, de Dilma, que se apropriam desse universo lúdrico para se projetarem no mundo, para serem quem são”.
Yuri Gomes, de 11 anos, viveu Gugu no filme “Feito Pipa” (2026)
Jamille Queiroz
Sertão reinventado
Poucos territórios foram tão revisitados pelo cinema brasílico quanto o interno nordestino. Ao longo do século XX, a região foi palco de diferentes movimentos e estéticas, desde a temporada inicial, representada por produções uma vez que “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, até os filmes do Cinema Novo, que transformaram a paisagem sertaneja em símbolo das desigualdades sociais brasileiras, sobretudo através da obra do cineasta baiano Glauber Rocha, com destaque para “Deus e o Diabo na Terreno do Sol” (1964).
Para a pesquisadora paulista Eliana Guerra, que faz doutorado em História da Arte na Universidade de Salamanca, na Espanha, o Sertão ocupa uma posição uno na cinematografia brasileira por ser um território que ela considera simbólico.
“Ao longo da história do nosso cinema, ele foi construído e representado a partir de questões muito profundas da sociedade brasileira, uma vez que a desigualdade, os conflitos pela terreno, a religiosidade, a violência e as migrações, mas também os afetos, os modos de vida e diferentes formas de existência”, afirma.
Segundo ela, o próprio cinema participa da construção do imaginário sobre a região: “Durante muito tempo, determinadas representações acabaram associando esse território principalmente à seca, à pobreza, à violência e ao cangaço. Mas o cinema brasílico também foi transformando essas imagens e mostrando que existem muitos sertões, com diferentes paisagens, sujeitos, experiências e modos de vida.”
A partir dessa pesquisa, Guerra define o Sertão uma vez que um “dispositivo estético e político” do cinema brasílico.
“Ele não funciona somente uma vez que cenário. A paisagem, a luz, os sons, os corpos, os modos de falar e de viver participam da construção dos sentidos da obra. E ele também é político porque escolher uma vez que simbolizar o Sertão significa escolher quais sujeitos, histórias e experiências serão vistos e ouvidos”, define.
Filme “Feito Pipa”, escolhido para simbolizar o Brasil na procura pelo Oscar 2027, tem uma vez que cenário o município de Quixadá
Divulgação
Nas últimas décadas, cineastas passaram a apresentar novas leituras desse território. Obras uma vez que “O Firmamento de Suely” (2006), de Karim Aïnouz; “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Rebento e Juliano Dornelles; e “Paloma” (2022), de Marcelo Gomes, ajudaram a ampliar o repertório de experiências, paisagens e personagens associadas ao interno nordestino, uma vez que são os casos dos protagonistas interpretados por Hermila Guedes, Silvério Pereira e Kika Sena, respectivamente.
É nesse contexto de multiplicação dos olhares sobre o interno do Nordeste que “Feito Pipa” pode ser inserido. “São filmes que, cada um à sua maneira, ajudaram a ampliar o imaginário sobre o Sertão e a romper com uma representação muito cristalizada desse lugar no cinema brasílico”, afirma o roteirista do filme, André Araújo.
Entre as referências mais próximas, ele cita principalmente a obra de Aïnouz gravada em Iguatu e “Pacarrete” (2019), obra estrelada pela atriz Marcélia Cartaxo, um longa-metragem rodado em Russas, no Vale do Jaguaribe, que, assim uma vez que “Feito Pipa”, tem colaboração de Araújo no roteiro e a direção assinada por Deberton.
“O que me interessava era imaginar o Sertão pelo olhar de Gugu: um lugar que pode ser duro e atravessado por contradições, mas que também é sarapintado, afetivo, imaginoso e pleno de possibilidades. O Sertão do filme não é somente o cenário onde Gugu vive. É segmento da maneira uma vez que ele inventa o mundo” , pontua o roteirista.
André Araújo é roteirista de Feito Pipa
Cedida
Quixadá e a cidade que emergiu
As filmagens de “Feito Pipa” foram realizadas em Quixadá, no Sertão Médio cearense. A escolha, segundo o roteirista, foi resultado de um estudo de viabilidade.
“Fizemos uma pesquisa de locação em todo o Ceará até chegar a esse município, que conseguia suprir todas as demandas do roteiro em termos de paisagens e questões logísticas”, explica.
Mas a origem da história nasceu fora, num estado vizinho, que também compartilha o clima semiárido. Em 2012, Araújo conheceu São Rafael, no interno do Rio Grande do Setentrião, município publicado por ter sido parcialmente inundado pelas águas da barragem Armando Ribeiro Gonçalves. Em períodos de estiagem, estruturas da cidade velha emergem, entre elas a torre da igreja, experiência que foi ponto de partida para o roteiro.
“Na idade, eu estava fazendo uma pesquisa sobre a cidade antiga que havia reaparecido depois 30 anos submersa pela barragem. Aquela imagem da igreja me inspirou a pensar essa história. A cidade que reaparece e as memórias que se apagam. Em ‘Feito Pipa’, a memória é sobrevivência”, afirma André Araújo.
É a mesma cidade que aparece num clássico do cinema realizado no interno do Nordeste: “Cabra Marcado para Morrer” (1984). Em São Rafael, o cineasta Eduardo Coutinho reencontrou Elizabeth Teixeira durante as filmagens do documentário que aborda a luta pela reforma agrária na ditadura militar no Brasil.
Embora com temas distintos, as duas obras demonstram uma vez que o Sertão tem sido ressignificado pelo cinema brasílico. Essa aproximação ganha força com a memória ocupando papel medial nas narrativas: se Coutinho documenta uma história interrompida pela repressão política, Araújo e Deberton partem da imagem de uma cidade submersa para edificar uma trama em que recordar é uma forma de permanecer.
O paixão entre avó e neto
Filme cearense “Feito pipa” é pré-selecionado para simbolizar o Brasil no Oscar
Divulgação/Paris Filmes
Em inglês, o filme ganhou o nome de “Gugu’s World” (“O Mundo de Gugu”, em tradução livre), uma vez que forma de sintetizar a jornada do protagonista: um menino criado pela avó materna que, depois desvendar que ela está perdendo a memória, luta para não ir morar com o pai homofóbico, interpretado por Lázara Ramos.
Para o roteirista André Araújo, esse vínculo entre avó e neto é um dos elementos que mais têm emocionado espectadores em diferentes festivais, uma vez que Berlim e Gramado.
Eu também fui um menino criado por vó, assim uma vez que Gugu. Nas sessões que a gente tem feito pelo mundo, a relação de Gugu e Dilma tem tocado e emocionado os mais diferentes públicos.”
Segundo ele, a força emocional da história está na universalidade desse afeto: “O paixão que une avó e neto é tão verdadeiro, tão íntimo, mas também tão genuíno, jocoso, que nem mesmo o Alzheimer consegue extinguir. É o fio que permanece para além da memória e do esquecimento. E é o fio que conecta o público com a história”.
Livre para ser quem é
Outro vista medial da narrativa é a construção de Gugu uma vez que uma menino queer. O roteirista afirma que desejava retratar um personagem marcado não somente pelos conflitos provocados pela intolerância, mas também pela liberdade particularidade da puerícia.
“Quando idealizei Gugu, eu queria que ele fosse radiante, livre, performático, mas, sobretudo, uma menino. Uma menino que ainda não precisa nomear quem é, que experimenta o mundo com liberdade e encontra prazer em ser exatamente uma vez que é”, comentou.
Para Araújo, a trama desafia a teoria de um Sertão exclusivamente conservador: “Eu queria imaginar outras possibilidades. Um Sertão onde esse menino também pudesse ser livre, estremecido e feliz, não apesar de quem ele é, mas simplesmente sendo quem é.”
Embora ainda não tenha testemunhado ao longa, a pesquisadora Eliana Guerra afirma seguir com interesse a trajetória da produção: “O roupa de ter sido filmado em Quixadá e de estabelecer uma relação tão próxima entre os personagens e o território já desperta bastante o meu interesse uma vez que pesquisadora.”
Para ela, filmes produzidos em diferentes épocas demonstram que não existe uma única imagem da região no audiovisual brasílico.
“Não existe uma única imagem do Sertão, mas muitos Sertões possíveis no cinema brasílico”, concluiu a pesquisadora.
Representante brasílico na corrida por uma vaga entre os cinco indicados ao Oscar de Filme Internacional, “Feito Pipa” tem o duelo de repetir a melhor temporada do cinema brasílico, com duas indicações seguidas ao prêmio de melhor filme internacional, “Ainda Estou Cá” (2024) e “Agente Secreto” (2025), tendo o primeiro conquistado para o Brasil a logo inédita estatueta dourada.
Em edital em Juazeiro do Setentrião durante uma semana, o longa teve sessões lotadas. O professor Ribamar Bringel Rebento conseguiu presenciar ao filme e destaca a melodia que é uma das cenas que sintetizam o afeto entre a vó Dilma e neto Gugu.
“A música “Time After Time”, de Cyndi Lauper, transmite justamente essa teoria de estar presente, de permanecer ao lado de alguém, mesmo quando tudo está mudando. No filme, a música reforça a sensação de que o afeto da avó é um porto seguro para o neto. Acho que é isso que torna o filme tão quebradiço: mostrar que hospedar uma menino também é permitir que ela seja livre para desvendar quem é. E que amar é estar por perto, sem impedir que o outro siga seu próprio caminho”, destaca.
Feito Pipa, filme estrelado por Lázaro Ramos, Yuri Gomes e Teca Pereira.
Jamille Queiroz/Divulgação
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Fonte G1

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