Rachel Cusk defende livro após polêmica de Natalie Portman – 23/08/2026 – Ilustrada
Rachel Cusk está em um quarto banhado pelo sol em sua mansão na costa oeste da França, falando sobre seu novo romance.
A autora não pretendia ter esta conversa sobre o livro “Life of M” (a vida de M, ainda sem previsão no Brasil), mas outras pessoas têm muito a expor —sobre se “M” seria, na verdade, Natalie Portman e se, ao ortografar sobre uma atriz que se parece tanto com uma notoriedade real, ela teria cometido qualquer tipo de traição artística.
Agora, Cusk entrou em uma videochamada para se explicar, embora preferisse não ter que fazer isso. A escritora parece perplexa e um tanto aflita por se ver sob os duros holofotes da renome e em meio ao tipo de furor sensacionalista que ela mesma evoca no romance, cuja trama é sobre uma autora que escreve sobre uma atriz famosa.
“É muito estressante pensar que essas coisas estão acontecendo”, diz ela sobre o turbilhão de fofocas em torno do livro. “Isso está arrastando o romance que criei para uma espécie de tribunal ou disputa factual”, acrescentou.
“O que fiz pertence muito mais a um mundo em que a renome e essas pessoas tão conhecidas —e, ao mesmo tempo, tão desconhecidas—fazem secção da consciência contemporânea”, diz. “Se meu trabalho não é entrar em áreas inexploradas da consciência contemporânea, logo não sei qual é.”
“Life of M” —que levanta questões incômodas sobre a natureza da renome e nossa cultura obcecada por celebridades e imagens— tem nutrido discussões e especulações há semanas, à medida que o livro se aproxima de seu lançamento, na próxima terça-feira.
Quando exemplares antecipados começaram a circundar nos últimos meses, a semelhança da protagonista com Portman desencadeou uma enxurrada de rumores sobre se Cusk teria cometido o que alguns chamaram de “homicídio literário” de Portman, retratando-a porquê um recipiente vazio, sem uma identidade que vá além de seus papéis no cinema.
Cusk, autora de uma dúzia de romances, entre eles a aclamada trilogia “Esboço”, publicada no Brasil pela Todavia, é conhecida por ortografar livros experimentais que diluem as fronteiras entre ficção e vida real.
“Life of M” leva esse projeto a um novo e quebradiço território. É autoficção? Uma forma perversa de fanfic? Ou seria simplesmente o mais recente experimento de Cusk, uma das escritoras mais provocadoras, esquivas e polarizadoras da atualidade?
Em conversa, a autora de 59 anos se mostrou doce e franca, mesmo quando se esquivava de perguntas com elegância e cortesia. Ela fala porquê escreve, com uma precisão rigorosa, às vezes enveredando por reflexões abstratas e filosóficas, porquê se tentasse interpretar o mistério da existência no meio de uma frase.
Por email e em uma videochamada, Cusk —que inicialmente recusara, por meio de sua editora, um pedido de entrevista, mas depois decidiu falar — parece determinada a manter uma aura de mistério em torno de “Life of M”.
Ela não quis comentar se conversou sobre o romance com Portman, atriz que já conheceu. Também não quis falar sobre as especulações de que Portman não gosta do livro, assim porquê acontece com M na história. Ela insiste que saber se M é baseada em uma notoriedade real “não é exatamente a questão”.
“É uma obra de ficção, e acho que explicar porquê um pouco é criado —porque é sempre criado a partir de uma mistura completa de coisas reais, esquemas inventados e material pessoal—, quando se começa a retrair esse fio, tudo acaba se desfazendo.”
“O livro se explica e se defende de maneira muito completa”, continua ela, “e é um pouco que criei; logo, inaugurar a explicá-lo meio que estraga tudo para mim”.
Desde o início de “Life of M”, os leitores estão em terreno instável. A narradora é uma autora sem nome que planeja ortografar um retrato minucioso de uma notoriedade identificada porquê M. A princípio, M concorda, mas, quando lê o texto, diz à escritora que está insatisfeita com a forma porquê foi retratada. A escritora fica perplexa e diz a M: “A personagem foi inventada por mim”.
Há pouca incerteza de que M se parece com Portman. Os paralelos são bastante específicos e numerosos.
Assim porquê Portman, M começou a curso porquê atriz mirim e, mais tarde, estrelou um filme sobre uma bailarina que sofre um colapso mental e outro sobre uma notoriedade que sobreviveu a um troada em uma escola.
M, porquê Portman, é o rosto de uma grande marca e aparece em anúncios adornados com flores. Embora a cidade onde M mora não seja mencionada, é claramente Paris, onde tanto Portman quanto Cusk vivem.
As duas já se encontraram, e Portman chamou Cusk de “uma de minhas escritoras favoritas”. Elas tiveram uma conversa amistosa e profunda em 2022 sobre o romance “Segunda Mansão”, escolhido por Portman para seu clube do livro.
A espanto de Portman pela obra de Cusk alimentou um debate febril em torno de “Life of M”, provocando uma avalanche de comentários nas redes sociais e de artigos, citando fontes anônimas próximas a Portman, segundo as quais ela estaria descontente com o projeto. Surgiram manchetes alarmistas porquê: “O novo romance de Rachel Cusk é uma traição implacável a Natalie Portman?”
Os representantes de Portman não quiseram se manifestar nesta reportagem.
Cusk pareceu surpresa com o indumento de alguém considerar o tema do romance escandaloso. Em sua visão, “pessoas famosas entram no imaginário público e, embora eu não goste dessa frase, isso faz secção do pacto da renome e também de sua tragédia”.
Muitos filmes e romances já apresentaram figuras públicas, observou ela, muitas vezes sem provocar grande controvérsia.
Quando teve a teoria de “Life of M”, há pouco mais de dois anos, Cusk percebeu que ortografar sobre uma atriz lhe permitiria explorar de uma novidade forma os temas da identidade, do artifício e da autenticidade. “Não conseguia crer que nunca tivesse tido essa teoria antes”, diz.
Imaginar-se entrando na vida de uma pessoa famosa também pareceu uma espécie de fuga. “Talvez o livro tenha sido minha chegada a essa urgência psicológica, um libido de quase deixar de ser eu mesma por um tempo, de tirar férias de mim mesma, de ter qualquer outro lugar para onde ir”, afirma. “Era porquê perguntar: porquê seria poder se perder ou deixar a si mesma, e é isso que ser uma notoriedade oferece?”
Usar uma pessoa famosa porquê personagem fictícia era, segundo Cusk, “uma espécie de jogo, e as regras do jogo determinam que tanto a atriz quanto a narradora são reais”.
Nascida no Canadá em 1967, filha de pais britânicos, Cusk cresceu em Los Angeles e na Grã-Bretanha, onde teve uma experiência infeliz em um internato católico e, mais tarde, estudou em Oxford.
Publicou seu primeiro romance, “Saving Agnes”, em 1993, e depois escreveu outras 11 ficções e três livros de memórias, que incluem seu relato sobre as provações e os sacrifícios da maternidade e um testemunho brutalmente honesto das trincheiras de seu divórcio.
Seus livros memorialísticos foram duramente criticados por alguns críticos literários, sobretudo na Inglaterra, onde ela foi julgada porquê uma mãe ruim para suas duas filhas e porquê uma narcisista que explorava friamente a vida das pessoas ao seu volta em procura de material.
Depois o turbilhão desencadeado por “Aftermath”, suas memórias sobre o divórcio, Cusk disse ter se sentido paralisada e incapaz de ortografar. Desiludiu-se consigo mesma porquê tema e decidiu encontrar uma novidade forma de escrita que contornasse o problema da subjetividade e da identidade autoral.
Isso levou à trilogia “Esboço”, uma série de romances sobre uma escritora semelhante a Cusk que raramente expressa os próprios pensamentos ou sentimentos, funcionando principalmente porquê reservatório para as histórias das pessoas que encontra.
A trilogia, publicada de 2014 a 2018 em inglês, consolidou a reputação de Cusk porquê uma das escritoras mais inovadoras e de estilo mais sofisticado em atividade.
Desde 2020, Cusk vive em Paris com seu terceiro marido, o pintor Siemon Scamell-Katz. Eles também passam temporadas em sua mansão na região francesa de Charente-Maritime, para onde costumam se retirar a termo de trabalhar.
A escrita de Cusk tornou-se ainda mais abstrata e experimental em seus livros mais recentes, “Segunda Mansão” e “Desfile”, que apresentam narradores quase invisíveis e personagens que não têm nomes além de iniciais.
É porquê se ela estivesse eliminando até mesmo os elementos mais rudimentares da narrativa. Com “Life of M”, Cusk levou quase ao limite a teoria de uma narradora opaca, cifrada. Quando começou a ortografar, teve dificuldades por muito tempo com a estrutura da obra.
“O que achei realmente interessante foi a dificuldade de excluir de indumento o teor do eu, com todas as suas suposições, seus conhecimentos prévios, suas associações e percepções”, diz. “Era realmente necessário deixar que as superfícies falassem, por isso foi muito mais difícil de ortografar.”
As reações dos críticos literários têm sido variadas. Uma resenha de Becca Rothfeld na revista The New Yorker classificou a obra porquê “o romance mais fraco de Cusk até hoje” e observou que “Cusk inventou um novo tipo de romance que quase não pode ser reconhecido porquê tal”.
Escrevendo na plataforma Slate, a sátira literária Laura Miller mostrou-se mais intrigada e descreveu o romance porquê uma “obra ardilosa”, que usa porquê isca a teoria de que talvez estejamos lendo sobre uma notoriedade real.
Cusk, que não usa redes sociais, se manteve em grande secção distante do burburinho em torno de “Life of M”. Ela diz esperar que as perguntas e críticas percam força quando mais pessoas lerem o romance e perceberem o quanto ele é estranho e subversivo.
“Para mim, é um livro ousado, é um livro estranho, e não é um escândalo nem ponto para fofoca; é uma viagem estranha por territórios bastante legítimos, que dizem saudação ao público e ao privado”, afirma. “Gostaria que lhe permitissem ser a estranha geração que é. Não acho que esteja querendo ocasionar problemas.”





