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Raoul Walsh e Barbara Stanwyck encantam no Ritrovato 25/06/2026
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Raoul Walsh e Barbara Stanwyck encantam no Ritrovato – 25/06/2026 – Ilustrada

Kleber Mendonça Fruto veio ao Il Cinema Ritrovato, na Bolonha, para apresentar seu documentário “Crítico”, de 2008 —que trata justamente do diálogo entre cineastas e críticos de arte—, e depois papear com o público sobre seu trabalho. Antes disso, aproveitou o tempo para ver o que estivesse a seu alcance. Encontrei-o na saída de “Sangue por Glória”, de 1926, de Raoul Walsh.

Um clássico do cinema de guerra —da Primeira Guerra Mundial, no caso—, mas que foge sabiamente dos lugares-comuns do gênero para se fixar na disputa pessoal de dois soldados por uma mesma mulher. Walsh trata a guerra à intervalo, o que é justo esperar, porque os Estados Unidos só entraram na guerra na hora de lucrar. Dissemelhante do filme de Abel Gance, “Eu Acuso!”, de 1919, por exemplo, cá a guerra parece um fenômeno que pode ser tratado com alguma leveza, e até com humor.

O que não impede que, além de sequências no campo de guerra, uma das mais belas cenas do filme seja a da moça —vivida por Dolores del Río— andando por um desolado mar de terreno revolta, cadáveres e cruzes. Ou o projecto fugaz, mas notável, de um caminhão trepidante que leva para longe soldados vivos e outros mortos.

Kleber Mendonça Fruto se encantou com o filme, assim porquê sua companheira e produtora Emilie Lesclaux. Mas o forçoso foi seu observação de que estava vendo esses filmes antigos e, enquanto os via, tinha ideias para novos filmes. É logo que se faz o cinema —com filmes que saem de outros filmes. Quem não revisita a história terá muito mais dificuldade de se manter com as pernas firmes.

Dito isso, no Il Cinema Ritrovato deste ano, o real problema é saber que, enquanto a pessoa assiste a um filme, está perdendo outros. Professores podem se fixar num tema ou estação específicos —mudos, de tal país, de um manifesto momento—, os outros tendem a seguir uma série determinada ou a pular de galho em galho em procura de seu filme.

A série dedicada a Barbara Stanwyck, por exemplo, já rendeu ao menos uma belíssima surpresa —”Serpente de Luxo”, de Alfred E. Green. E o cineasta, sempre tido porquê um artesão de segunda risca, se esmerou neste filme de 1933.

Vale também o roteiro, mas Green e Stanwyck, soberba, se dão muito muito na história da jovem violentada e prostituída pelo pai, que o larga e vai fazer sua vida —contra os homens, a quem explora impiedosamente. Sobretudo no início, o diálogo é esplêndido e carrega o tom de comédia de maneira encantadora. Depois, o filme se acomoda mais na convenção, mas nunca perde o prumo.

Já Mitchell Leisen ainda é um esfinge. Por exemplo, seu “A Mulher Que Não Sabia Amar”, de 1944, sai de uma comédia músico para um músico, sim, mas quase sinistro, com uma Ginger Rogers que mal dança. Investe em pesadelos coreografados e num terapeuta freudiano que procura desvendar o que quer e quem é a mulher, Rogers. Pode não ser o sumo, mas é ousado.

Em “Pequena de Sorte”, de 1937, traz um roteiro de comédia “screwball” —a comédia maluca— com um roteiro supimpa de Preston Sturges, mas Leisen se atrapalha um tanto, incluindo cenas de humor pastelão que mais parecem coisa dos “Três Patetas”, e com um desenvolvimento que poderia ser mais eficiente, se fosse devidamente desenvolvido.

Por falar em Sturges, seu “As Três Noites de Eva”, de 1941, inaugura sua obra de diretor, com Stanwyck porquê uma formidável vigarista que guerra para dar um golpe no jovem milionário Henry Fonda. Jovens milionários são um ponto possante de sua obra, sejam suas heroínas garotas vigaristas ou ingênuas —porquê a Jean Arthur de “Pequena de Sorte”.

Importante registrar: Amos Gitai passou por cá, mostrou um filme que nem dizia reverência a Israel, “Ananas”, de 1984 —sobre a risca de produção de abacaxis em calda enlatados—, disse que trocou o cinema pela arquitetura e, na primeira oportunidade, caiu fora.

Dias antes, seu colega Nadav Lapid, ótimo cineasta israelense, foi impedido por partidários da Palestina de apresentar seu filme num festival na França, num ato de autoritarismo insuportável. Gitai, que construiu sua obra sobre a hipótese da convívio e do diálogo entre judeus e palestinos em Israel, parecia triste, desapontado. É uma sentimento. Mas não faltariam motivos.

Folha

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